Bem-Vindos a Panorama do Cinema"


Panorama do Cinema dá as boas-vindas aos seu leitores e amigos por meio deste vídeo gerado pela Inteligência Artificial (IA).

 

Editorial


Estamos de Volta!

Olá a todos! Depois de um longo hiato, Panorama do Cinema está de volta! Esta ausência deveu-se a motivos pessoais que impediram a continuidade do trabalho. Mas, agora estamos de volta no melhor estilo "a volta dos que não foram", com mais de 10 anos anos nas costas e com novidades. Vocês já devem ter reparado que a página teve uma "turbinada" que inclui este editorial, o vídeo de boas vindas feito com a Inteligência Artificial (IA) e atualizações das redes sociais e, em breve, novas edições de podcasts. Como estamos em plena Copa do Mundo, iniciamos o nosso retorno com posts sobre futebol tais como a Série Especial "Filmes sobre futebol para assistir antes da Copa do Mundo acabar" e a matéria "Veja os criativos, divertidos e irados animes e vídeos de IA da Copa do Mundo". Mas, não nos limitaremos apenas à paixão nacional. Logo voltaremos com mais artigos, matérias e críticas de filmes, que são a razão de ser deste espaço. E, neste retorno, nos comprometemos a fazer, pelo menos, um texto por mês. Não deu para não notar que, apesar da longa ausência, vocês nunca deixaram de nos visitar e ver nossos textos publicados anteriormente. Panorama do Cinema se comove e agradece de todo o coração pela sua fidelidade e gentileza. Panorama do Cinema espera que vocês apreciem esta nova fase e que continuem a nos visitar sempre. Boas leituras e boa diversão!
Mostrando postagens com marcador Adam Driver. Mostrar todas as postagens
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sábado, 21 de dezembro de 2019

Crítica: O Relatório | Todos os Torturadores do Presidente


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Os terríveis atentados terroristas que os EUA sofreram no fatídico dia 11 de setembro de 2001 que destruíram por completo as torres gêmeas do World Trade Center e uma parte do Pentágono (sede das forças armadas) mudaram para sempre o país - assim como o resto do mundo. Uma dessas mudanças foi o modo como o governo estadunidense, através de seu serviço secreto, a CIA, decidiu proteger o seu povo de novos ataques usando métodos reprováveis, desprovidos de qualquer tipo de ética. Essa é a premissa da qual parte O Relatório. 

Daniel Jones (Adam Driver, de O Último Jedi. Veja a crítica aqui) trabalha como assistente no gabinete da senadora do Partido Democrata (PD) Danielle Feinstein (Annete Bening, de Os Imorais) e é incumbido por ela de conduzir uma investigação sobre a destruição de fitas de vídeo de interrogatórios da CIA, o serviço secreto dos EUA, com suspeitos de terrorismo. 

As investigações de Daniel o levam ao programa de detenção e interrogatório da CIA, criado  após os atentados de 11/09/2001, acusado de usar tortura para interrogar os suspeitos. É formada uma comissão de investigação sob a liderança de Daniel com a participação de membros do Partido Republicano (PR) para aprofundar as investigações. 

Apesar do PR - e até mesmo alguns membros do PD - abandonar o caso, da má vontade do chefe da CIA, John Brennan (Ted Levine, de O Silencio dos Inocentes) e da atitude evasiva do Chefe de Gabinete do governo, Denis McDonough (Jon Hamm, da série Mad Men: Inventando Verdades), Daniel prossegue seu trabalho para descobrir toda a verdade. 

O Relatório é um filme que segue a linha de denúncia e investigação política tais como nos clássicos Z (1968, de Costa-Gavras), JFK - A Pergunta que Não Quer Calar (1991, de Oliver Stone) e Todos os Homens do Presidente (1976, de Alan J. Pakula) e, como tal, há muita intriga, mistério e sabotagens no desenrolar

A medida que assistimos O Relatório e acompanhamos todos os passos de Daniel Jones em sua busca incansável e, não raro, obsessiva por respostas do por quê seu país utilizou a tortura como método de interrogatório, pois não cola a justificativa de "proteger os EUA de futuros ataques", vemos, chocados, que para esses homens e mulheres da CIA, basta um mal para justificar outro - as cenas de tortura são bem realistas e revoltantes - como se, para exorcizar um demônio, fosse preciso utilizar meios satânicos. Os seres humanos mostram seu pior lado e sem nenhum arrependimento ou crise de consciência.

Para mim, uma das cenas mais assustadoras d' O Relatório é quando o advogado do governo de George W. Bush, John Yoo (interpretado por Pun Bandhu, de O Jogo do Dinheiro), que, de um modo muito calmo, frio e cínico, justifica a tortura por uma interpretação extremamente distorcida da Convenção de Genebra, que estabeleceu normas internacionais para o tratamento de prisioneiros de guerra. Uma cena parecida com a de outro filme que trata da administração Bush (mais especificamente do vice-presidente Dick Chaney), Vice (2018. Veja a crítica aqui).

Chama a atenção as citações ao ex-administrador de sistemas da CIA, Edward Snowden, famoso por ter revelado ao mundo a espionagem estadunidense em todos os modos e níveis e as comparações feitas - direta ou indiretamente - com Daniel. Snowden é um herói para uns e um traidor para outros. E para Daniel Jones? Embora não diga abertamente, dá para perceber que, para ele, traidor Snowden não é, mas, ao mesmo tempo ele não quer ser obrigado a sair do país para não ser preso tal como seu conterrâneo.

O Relatório também mostra cenas bastante familiares aos brasileiros. A primeira, é o uso de escutas telefônicas (conhecidas como "arapongas"), que não poupa nem o senado estadunidense. A segunda, é a de que "o presidente não sabia de nada" (ah, tá). E a terceira, é o uso de censura antes de divulgar informações, algo que, infelizmente, volta a ser cada vez mais comum nesta era das trevas pela qual o Brasil passa atualmente.

O Relatório é apenas o terceiro trabalho de direção do produtor e roteirista Scott Z. Burns - Os dois primeiros foram o filme PU-239 (2006) e um episódio da série Californication (2007). Burns mostra-se bastante competente na função mantendo o público atento e interessado durante todo o desenrolar da trama. Essa competência também pode ser vista na direção do elenco.

Adam Driver é mesmo o ator-sensação do momento. Tem uma ótima performance, digna de uma indicação ao Oscar, assim como em seu outro trabalho História de Um Casamento (em breve, faremos a crítica desse filme). Adam interpreta o herói honesto, obcecado em fazer justiça, o tipo com o qual o espectador identifica-se mesmo que, por vezes, use meios pouco comuns - o que acaba por gerar uma contradição, visto que o objeto de sua investigação é justamente os de meios incomuns de agir do governo dos EUA. Pena que, caso seja indicado, irá bater de frente com aquele que é considerado o grande favorito ao prêmio, Joaquin Phoenix, por Coringa.

A performance de Annete Bening é igualmente ótima, tendo sido indicada ao prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante no Globo de Ouro de 2020 (que costuma ser chamado de prévia do Oscar). Sua personagem transmite seriedade e bom senso, mas é dura para determinados assuntos como por exemplo, quando diz o que pensa de Edward Snowden. Annete tem grandes chances de conquistar o prêmio, embora vá enfrentar um forte concorrência como, por exemplo Kathy Bates (em Richard Jewell) e Jennifer Lopez (As Golpistas). Se for indicada ao Oscar, o que é bem provável, será a quinta vez que concorrerá ao prêmio maior do cinema estadunidense, mas novamente terá forte concorrência. 

O Relatório é um filme que chega na hora certa. Com a ascensão de governos e partidos fascistas e/ou de extrema-direita em várias partes do mundo, que tem em sua "ideologia" a retórica de "bandido bom é bandido morto", terraplanismo em pleno século XXI, fundamentalismo religioso de igrejas e seitas neopentecostais, tortura como meio e fim para alcançar suas metas, intolerância e ódio infinitos, O Relatório mostra que o jeito certo de fazer-se justiça - com civilidade, mas também com firmeza e seriedade - funciona e deve ser um guia para uma era mais luminosa que acabe com a era das trevas na qual vivemos hoje. 


FICHA TÉCNICA
  • Título Original: The Report
  • Direção: Scott Z. Burns
  • Elenco: Adam Driver (Daniel Jones), Annete Bening (Dianne Feinstein), Jon Hamm (Dennis McDonough), Ted Levine (John Brennan), Michael C. Hall (Thomas Eastman), Tim Blake Nelson (Raymond Nathan), Ben McKenzie (agente da CIA), Pun Bandhu (John Yoo)
  • Roteiro: Scott Z. Burns
  • Música: David Wingo
  • Fotografia: Eigil Bryld
  • Duração: 120 minutos
  • Ano: 2019
  • Lançamento comercial no Brasil: 17/10/2019 (Mostra Internacional de Cinema de São Paulo), 29/11/2019 (Amazon Prime Video)


          RESUMO DO FILME

Daniel Jones, assistente da senadora Dianne Feinstein, lidera a investigação sobre o programa de detenção e interrogatório da CIA criado após os atentados terroristas de 11/09/2001.


COTAÇÃO
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Veja aqui o trailer oficial de O Relatório (legendado - HD):



Publicado no AdoroCinema em 21/12/2019.



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quarta-feira, 5 de junho de 2019

Crítica: O Homem Que Matou Don Quixote | Quixote vive!


Miguel de Cervantes Saavedra, que passou à história com o nome de Miguel de Cervantes (1547-1616), é considerado o maior escritor de língua espanhola de sempre. Suas principais obras são Novelas Exemplares (publicado em 1613) e, a sua obra prima, O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de La Mancha (publicado em duas partes: a primeira em 1605 e a segunda em 1615). 

Dom Quixote narra, em modo de paródia, a história desse fidalgo que perdeu a razão de tanto ler romances de cavalaria e pretendia imitar os feitos de seus heróis literários. Armado de lança e vestindo uma velha armadura, cavalgava um cavalo magro chamado Rocinante. Acompanhava-o em suas aventuras o fiel escudeiro Sancho Pança, sempre viajando em seu burrico. 

A dupla viveu várias aventuras - e muito mais desventuras. Enquanto Dom Quixote tinha uma visão idealista e sonhadora de tudo - como, por exemplo, na famosa cena a qual confunde moinhos de vento com gigantes -, Sancho Pança tinha a visão realista, representando o bom senso. Através do humor e da ironia, Cervantes criticava o mundo de então.

O livro foi, e ainda é, um grande sucesso, ultrapassando as fronteiras da Espanha, transformou-se em um clássico universal e as figuras do Cavaleiro da Triste Figura (alcunha de Dom Quixote) e de seu escudeiro tornaram-se extremamente populares. O termo "quixotesco" tornou-se sinônimo de alguém com intenções boas e ideais nobres, mas sonhador e afastado da realidade.

Toby Grisone (Adam Driver de Star Wars: Os Últimos Jedis. Veja a crítica aqui) é um cineasta talentoso, mas arrogante e mulherengo, que está na Espanha fazendo um filme para uma campanha comercial inspirado no livro Dom Quixote de La Mancha e envolve-se com Jacqui, a esposa (Olga Kurylenko, de 007 - Quantum of Solace) de seu chefe (Stellan Skarsgård, da franquia Thor). Um cigano (Óscar Jaenada, de Águas Rasas) vende a Toby um DVD de um filme chamado O Homem Que Matou Don Quixote que, por coincidência, foi o filme que fez também na Espanha quando ainda era estudante para a formatura de seu curso de cinema.

Depois de quase ser pego em flagrante junto com Jacqui pelo chefe, Toby decide ir para o pequeno povoado onde realizou O Homem Que Matou Don Quixote para encontrar inspiração e também algumas das pessoas que atuaram no filme. Descobre que a bonita Angélica (a portuguesa Joana Ribeiro, de O Caderno Negro), que interpretou Dulcinéia, foi embora do povoado. Também descobre que o intérprete de Dom Quixote, o sapateiro Javier (Jonathan Pryce, de A Esposa. Veja a crítica aqui), enlouqueceu e acredita ser o próprio personagem. 

Ao ver na estrada um letreiro escrito "Quixote vive", Toby segue a trilha e vê que Javier, vestido com a armadura de Dom Quixote, é explorado por uma velha em um cinema-poeira. Ao ver Toby, Javier o confunde com o escudeiro Sancho Pança, escapa do lugar, mas, durante a fuga, provoca um incêndio. Ao retornar ao local das filmagens, Toby é preso pela polícia acusado de ter provocado o incêndio no cinema-poeira. A partir daí, começa a sua bizarra aventura.

O livro de Miguel de Cervantes teve várias adaptações para o teatro, balé, ópera e, claro, cinema, sendo que uma das versões mais conhecidas é a do cineasta e ator Orson Welles (Cidadão Kane), que trabalhou no filme durante anos, teve várias interrupções devido à falta de verba para a produção e ficou inacabado. No papel de dom Quixote estava o ator espanhol Francisco Reiguera (Simão do Deserto) e no de Sancho Pança estava o russo Akim Tamiroff (Por Quem os Sinos Dobram).  Embora estivessem incompletas, as fitas foram posteriormente reunidas, montadas  e exibidas no Festival de Cannes, em 1992, com o nome de Dom Quixote, de Orson Welles. 

O Homem Que Matou Don Quixote é um filme que entrou para a história por razões semelhantes às do filme de Welles: foram várias tentativas frustradas de realização e produção, além de vários nomes envolvidos - além do próprio diretor Terry Gilliam (Os 12 Macacos) - como os intérpretes Jean Rochefort (Asterix e Obelix: Ao Serviço de Sua Majestade), Johnny Depp (franquia Piratas do Caribe), Vanessa Paradis (Rio, Eu Te amo), Robert Duvall (saga O Poderoso Chefão), Michael Palin (Um Peixe Chamado Wanda), John Hurt (V de Vingança) e Ewan McGregor (Moulin Rouge).

O Homem Que Matou Don Quixote inicia com uma auto-ironia "Após 25 anos de espera...". Mas, a espera valeu a pena? A resposta é: Depende do seu ponto vista.

Se você é daqueles que espera uma superprodução digna dos maiores estúdios de Hollywood ou um filme revolucionário, prepare-se para ficar decepcionado. O Homem Que Matou Don Quixote teve um custo de "apenas" U$ 16 milhões, baixo para padrões hollywoodianos. Não chega a ser revolucionário, mas é daqueles filmes que, com o passar do tempo e as posteriores revisões, tem tudo para tornar-se um Cult Movie.

O Homem Que Matou Don Quixote segue a linha de trabalhos anteriores de Gilliam, uma fantasia imaginativa na qual seus personagens andam por uma linha muito estreita que separa a sanidade da loucura. As críticas à sociedade materialista e seus interesses mesquinhos por dinheiro, fama, poder e sexo também são mantidas.

O Homem Que Matou Don Quixote por vezes lembra as produções do próprio Gilliam da década de 1980 tais como Bandidos do Tempo (1981) e As Aventuras do Barão de Munchausen (1988), daí a impressão de parecer "datado", mas trata-se do estilo do diretor. O ritmo é um pouco arrastado, o que pode cansar a platéia. 

Filmado na Espanha e em Portugal, O Homem Que Matou Don Quixote mostra fartamente as belas e variáveis paisagens da Península Ibérica que vão desde regiões semidesérticas a outras exuberantemente verdes, em um belo trabalho de fotografia do velho colaborador de Terry Gilliam, Nicola Pecorini (Ra.One).

Desde que iniciou o seu trabalho na saga Star Wars, Adam Driver vem sendo cada vez mais requisitado para novos filmes que mostram o seu grande talento de interpretação que, inclusive, lhe valeu uma indicação ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante deste ano por Infiltrado na Klan (2018).

Porém, em O Homem Que Matou Don Quixote, ele parece um pouco deslocado. Sua atuação continua competente (embora em algumas cenas esteja exagerado), mas a impressão que deixa é que comédia não é a praia dele. Mas, ainda assim, a balança pende a favor.

Joana Ribeiro é ainda muito pouco conhecida fora de Portugal, mas mostra que é tão bonita quanto competente e, se conseguir mais  trabalhos de destaque, pode muito bem ter uma boa carreira internacional tal como sua predecessora, Maria de Medeiros (Pulp Fiction).

Quem dá um verdadeiro show e rouba todas as cenas em que aparece é, sem dúvida, Jonathan Pryce. Vencedor do prêmio de Melhor Ator em Cannes por Carrington (1995) e também um costumeiro colaborador de Gilliam, esse veterano e sempre ótimo ator do País de Gales está tão bem no papel-título que é difícil acreditar que ele não seja o próprio Dom Quixote!

Olga Kurylenko faz um papel um tanto ingrato como a mulher bonita e infiel do chefe que quer, a todo custo transar com o empregado de seu marido. Ingrato por não ser a primeira vez que interpreta esse tipo de personagem, mas não compromete, assim como o restante do elenco.

O Homem Que Matou Don Quixote teve sua première mundial no Festival de Cannes deste ano e teve críticas mornas da imprensa internacional. Pode ser considerado um trabalho menor de Gilliam, mas, para mim, sem ser uma obra-prima, é um bom filme que vai melhorar com o tempo. 

Seu maior mérito é mostrar, através do Cavaleiro da Triste Figura, que, se sonhar demais pode alienar-nos da realidade que nos cerca, inclusive a servir como uma espécie de fuga, viver sem um sonho é simplesmente horrível e triste, pois são os sonhos que nos tornam humanos e faz com que vida ainda valha a pena ser vivida.

Por tudo isso é que o engenhoso fidalgo Dom Quixote de La Mancha vive. E viverá para sempre!

FICHA TÉCNICA
  • Título Original: The Man Who Killed Don Quixote
  • Direção: Terry Gilliam
  • Elenco: Adam Driver (Toby Grisoni), Jonathan Pryce (Javier/Dom Quixote), Stellan Skarsgård (chefe de Toby), Olga Kurylenko (Jacqui), Joana Ribeiro (Angélica), Óscar Jaenada (o cigano)
  • Roteiro: Terry Gilliam, Tony Grisoni
  • Música: Roque Baños
  • Fotografia: Nicola Pecorini
  • Duração: 132 minutos
  • Ano: 2018
  • Lançamento comercial no Brasil: 06/06/2019

          RESUMO DO FILME

Toby Grisoni, um talentoso e arrogante cineasta, dirige seu novo filme na Espanha, onde esteve dez anos antes como um estudante de cinema e fez seu primeiro filme usando os habitantes locais no elenco. Ao reencontrar com os antigos intérpretes desse filme, entra em uma aventura bizarra.
 
COTAÇÃO
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Veja aqui o trailer oficial de O Homem Que Matou Don Quixote (legendado - HD):


Publicado no AdoroCinema e no LinkedIn em 05/06/2019.

sábado, 27 de janeiro de 2018

Crítica - Star Wars: Os Últimos Jedi | Da guerra de classes ao canto final de um pássaro


Esta é uma história para lá de conhecida, mesmo por quem não é cinéfilo ou nerd ou ambos, mas sempre vale a pena recordar: Há pouco mais de 40 anos, quando um jovem cineasta com apenas dois filmes em seu currículo veio até os produtores de cinema com uma ideia maluca para um filme de ficção-científica, ninguém levou-o a sério e vários estúdios bateram-lhe a porta na cara. 

O estúdio 20th Century Fox acabou por concordar em bancar essa ideia, mas, desconfiado com o roteiro (filmes de ficção-científica estavam por baixo na época), agiu como se dissesse "Não me envolva nisso, por favor". Seu desejo foi satisfeito, mas em troca, o cineasta pediu para ficar com os direitos autorais da obra, incluindo o merchandising - camisetas, brinquedos, HQs, etc. O estúdio concordou, pois não levava muita fé no projeto, embora tivesse esperança de, pelo menos, recuperar o investimento.

O jovem cineasta era George Lucas e o projeto maluco que estava a realizar era Star Wars, que, não só recuperou o dinheiro investido, como conquistou sete Oscars; tornou-se, na ocasião, o filme de maior bilheteria de todos os tempos e, com os direitos de autor adquiridos em seu nome, o diretor principiante tornou-se um milionário. Com Star Wars, Lucas consolidou a era dos "Blockbusters" ("Arrasa-Quarteirões", os filmes campeões de bilheteria), transformou-se em gênio do cinema, produtor de sucesso e guru geek. Muito do que se faz na indústria do cinema hoje em dia está ligado, direta ou indiretamente, a esse filme.

A saga que esse diretor imaginativo criou sobre os cavaleiros Jedi, os Sith e o clã Skywalker ultrapassou as fronteiras do cinema, dos estudos acadêmicos e hoje faz parte da cultura mundial. Não existe uma pessoa neste planeta que já não tenha ouvido falar sobre algum dos filmes e seus personagens. Pouquíssimos trabalhos tiveram uma influência tão grande a um nível tão amplo. Por isso, nada mais adequado que, no ano no qual se comemorava os 40 anos do lançamento dessa película genial, fosse lançado mais um episódio da odisséia ocorrida há muito tempo atrás em uma galáxia muito, muito distante, Star Wars: Os Últimos Jedi. 

A tirânica Primeira Ordem encontra o planeta onde estão escondidos os integrantes da Resistência liderados pela General Leia Organa (a estadunidense Carrie Fischer, de Loverboy - Garoto de Programa) e lança-se ao ataque. Um contra-ataque liderado pelo Comandante Poe Dameron (o guatemalteco Oscar Isaac, de Ex Machina: Instinto Artificial) é bem sucedido, mas a um preço muito alto, o que faz com que seja rebaixado pela General Organa.

O Líder Supremo Snolke (o inglês Andy Serkis, da saga O Senhor dos Anéis), castiga o General Hux (o irlandês Domhnall Gleeson, da franquia Harry Potter) por ter deixado os resistentes fugir, mas o oficial usou um rastreador para seguir as naves e a perseguição começa. Kylo Ren (o estadunidense Adam Driver, de Paterson), lidera um novo ataque, mas hesita em atirar na nave onde está sua mãe, Leia. Caças da Primeira Ordem atiram e a nave explode. Graças à Força, Leia consegue sobreviver, mas fica muito ferida. A Vice-Almirante Amilyn Holdo (a também estadunidense Laura Dern, de Coração Selvagem) assume o comando e ordena a fuga em naves de escape, o que contraria Poe.

Poe e Finn (o inglês John Boyega, de Detroit em Rebelião) consultam Maz Kanata (a queniana Lupita Nyong'o, de Doze Anos de Escravidão) para saber se há alguém que possa quebrar o código do rastreador da Primeira Ordem. Maz diz que há um na cidade de Canto Bight. Finn, o dróide BB-8 e a mecânica Rose Tico (a estadunidense Kelly Marie Tran, de XOXO: A Vida é Uma Festa) vão até Canto Bight, são presos e, na cadeia, encontram o vigarista DJ (o porto-riquenho Benicio de Toro, de Che) que afirma saber como quebrar o código.

Rey (a inglesa Daisy Ridley, de Assassinato no Expresso do Oriente) chega à ilha do isolado planeta Ahch-To e lá encontra o Mestre Jedi Luke Skywalker (o estadunidense Mark Hamill, de Kingsman - Serviço Secreto). Rey pede a Luke para juntar-se à Resistência contra a Primeira Ordem. Mesmo após Rey contar-lhe sobre o assassinato de Han Solo por Kylo Ren, Luke, ainda assim, recusa o pedido da moça. Porém, ao perceber como a Força é grande nela, decide ministrar-lhe o treinamento Jedi.

Ao ler-se o resumo da trama acima, a impressão que passa é a de um filme comprido. A impressão é correta, aliás este é o mais longo de toda a saga. Mas, Star Wars: Os Últimos Jedi flui tão bem na tela que não se sente o tempo passar, mesmo com tantas tramas paralelas.

A saga sempre criticou, seja de modo aberto ou sutil, a ordem estabelecida, as ditaduras, o imperialismo, a corrupção e o sistema capitalista que geram problemas como intolerância, preconceito, racismo e xenofobia e levam os seus personagens não apenas a uma batalha do Bem contra o Mal, mas a uma verdadeira guerra de classes. Basta lembrar da cena na qual a Capitã Phasma (a inglesa Gwendoline Christie, de O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus) chama Finn de "escória rebelde". 

Em pleno século XXI, o mundo - e, em particular, o Brasil - está novamente às voltas com o trabalho escravo e Star Wars: Os Últimos Jedi não deixa de criticar essa prática odiosa (o que já havia sido feito no Episódio I) mostrando os escravos, a maioria meninos e meninas, de Canto Bight, uma cidade-cassino frequentada por "coxinhas do espaço" e bandidos de todo o tipo, inteiramente corrompida e decadente que disfarça essa corrupção e decadência com um manto de luxo feito com o suor e o sangue dessas crianças escravizadas e com o dinheiro da jogatina. E, ainda assim, consegue seduzir os tolos com a miragem da riqueza.

Como é de praxe, acompanhando o sucesso, vem as polêmicas e a saga Star Wars as têm, em particular as de cunho religioso como o esoterismo da Força, o nascimento de Anakin Skywalker sem a presença física de um pai, o que fez muitos seguidores de crenças diversas - principalmente os fundamentalistas - protestarem; e a semelhança do personagem Chirrut Imwe, de Rough One - Uma História Star Wars, com a figura bíblica Nicodemos (veja a crítica do filme aqui).

Em Star Wars: O Último Jedi, o Mestre Jedi Luke Skywalker juntou doze discípulos para ensinar-lhes o caminho da Força. Dentre esses discípulos estava Ben Solo, que traiu seu mestre indo para o lado negro e tornou-se Kylo Ren. Um mestre, doze discípulos e um traidor entre eles? Soa familiar...

Porém, Star Wars: O Último Jedi não é apenas denúncia e polêmica, também é diversão no mais alto nível com suas cenas de ação, humor  harmoniosamente intercaladas e entrosadas com as de comoção e romance, o que mostra que a decisão de chamar o cineasta estadunidense Rian Johnson (de Looper: Assassinos do Futuro)  para dirigir o filme foi acertadíssima. Rian conduz a direção com maestria, sendo fiel ao que foi feito nos anos anteriores e colocando, também, seu toque pessoal (é o autor do roteiro). Foi um trabalho tão bem feito que fica difícil escolher um momento marcante entre tantos que a película tem.


Mark Hamill e Carrie Fischer em foto de Annie Leibovitz

George Lucas baseou a sua obra, desde o primeiro filme, na leitura do livro O Herói de Mil Faces, do professor universitário e mitologista (especialista em mitos) Joseph Campbell (1904-1987). Foi nesse livro que Lucas descobriu o conceito do "Monomito", também conhecido como "Jornada do Herói", que pode ser resumido assim: o herói vive tranquilamente em seu mundo quando lhe é dada uma missão. A princípio, ele reluta - ou mesmo recusa - em assumir essa responsabilidade, pois não quer abandonar sua zona de conforto. Porém, ao encontrar um mentor, ele atende ao chamado. Em sua jornada, encontra aliados e enfrenta testes, provações, inimigos e até mesmo a morte, mas, após passar por grandes sofrimentos, vence, cumpre a sua missão e retorna ao seu mundo transformado.

Simples, não é? E profundo. E essas simplicidade e profundidade são a linha-mestra de Star Wars: Os Últimos Jedi. Mas se você pensa que o herói, ou melhor, heroína, é Rey, está redondamente enganado. O herói é justamente aquele que iniciou a sua jornada 40 anos atrás, Luke Skywalker - mais especificamente o seu intérprete, Mark Hamill.

Mark Hamill é um daqueles casos nos quais o grande sucesso alcançado pelo personagem interpretado tornou-se o seu dilema. Fora da saga, Mark não teve muito destaque, apesar de bons trabalhos como em Agonia e Glória (1980). É verdade que o acidente de carro ao final das filmagens de Star Wars, atrapalhou, mas ele estava tão identificado com o aprendiz de cavaleiro Jedi, que ficou difícil arrumar bons filmes para atuar. Nesses anos todos, o seu principal trabalho foi como dublador, especialmente em Batman, a Série Animada (1992-1995), na qual fazia a voz do arqui-inimigo do Cavaleiro das Trevas, o Coringa.

Em Star Wars: Os Últimos Jedi, Mark - e o Mestre Jedi que encarna - exorciza seus demônios. Ele está simplesmente magnífico como um envelhecido e amargurado Luke Skywalker, que se auto-exila em uma ilha isolada longe tudo e de todos atormentado pelas lembranças, mas, ao mesmo tempo, mostra um senso de humor refinado, bem diferente do jovem Luke dos filmes anteriores. E, ao enfrentar  de coração e alma a grande batalha, encerra um ciclo e obtém a redenção, tanto na vida real quanto no universo da saga.

Por essa brilhante atuação, Mark Hamill merecia ao menos uma indicação ao Oscar, mas, ao que aparece, o lado negro da Força influenciou os membros da Academia de Hollywood...

A atlética, bonita e talentosa Daisy Ridley prova a cada episódio que é uma digna sucessora de Hamill. Sua personagem, Rey, tem a mesma coragem e impetuosidade de Luke Skywalker em sua juventude. Porém, ao contrário do fazendeiro de Tatooine, tem uma alma mais complexa, a qual está em uma jornada de autoconhecimento e constante batalha com seu lado sombrio. Graças a Daisy, Rey já é uma das grandes heroínas de Star Wars.

Sempre que John Boyega surge em cena, as pessoas percebem que ele não é, como já disseram, apenas uma versão mais jovem do grande Sidney Poitier (Ao Mestre Com Carinho). Ele tem seu próprio estilo, que melhora a cada trabalho realizado e não são poucos aqueles que acham que será o grande astro dos próximos anos.

No mesmo nível está Adam Driver, que fez com que o vilão Kylo Ren não se tornasse um outro Darth Vader, mesmo sendo seu neto. Uma grande sacada do filme está em provar que um vilão, para ser sinistro, não precisa usar máscara. Mérito de Adam, que mostra  Kylo Ren como um personagem atormentado e dividido, sempre em um terrível combate interno contra seu alter-ego, Ben Solo. 

Entre os coadjuvantes, há três que são considerados "de luxo" e, portanto, se destacam: Oscar Isaac, Laura Dern e Benicio del Toro. 

O personagem de Isaac, Poe Dameron, é como uma mistura do jovem Luke Skywalker com Han Solo e está cada vez mais popular entre os admiradores da saga. 

A Vice-Almirante Holdo, interpretada por Laura Dern, é uma mulher forte, independente e que não hesita em usar sua autoridade sempre que necessário, mesmo com aqueles com quem simpatiza e, para mim, pelo impacto que causa, é uma personagem que poderia ter sido melhor aproveitada. 

Benicio del Toro tem experiência em interpretar marginais nojentos - já o havia feito em 007: Permissão Para Matar (1989) - e o seu personagem DJ é daqueles que a platéia ama odiar e que dá vontade de estrangular, mas, por outro lado, sempre dá vontade de saber qual será a sua próxima maldade. 

É claro que não poderia deixar de falar de uma mulher fundamental da saga: Leia Organa e sua intérprete, Carrie Fisher. Assim como em Rough One, sua presença em Star Wars: Os Últimos Jedi é comovente e sua atuação é serena e marcante, também digna de um Oscar, como se soubesse o que iria acontecer em breve. Assim como Hamill, Carrie também encontra sua redenção no filme. Ao vê-la em cena, é difícil acreditar que não se encontra mais entre nós. De minha parte, prefiro pensar que, tal qual a Princesa de Alderaan, Carrie foi salva pela Força e encontra-se nos braços de um grande amor (veja aqui). 

Rian Johnson chamou um velho chapa com quem trabalhou em seus outros filmes para realizar a fotografia: Steve Yedlin (Terremoto: A Falha de San Andreas), que faz jus à confiança depositada seja mostrando a natureza exuberante da bela ilha de Skelling Michael (pertencente à Irlanda, que possui um mosteiro construído no século VI d.C., e foi nomeada Patrimônio da Humanidade pela ONU), ou na aridez rígida de Salar de Uyuni (o maior deserto de sal do mundo, localizado na Bolívia).

O que posso falar do grande mestre das trilhas sonoras, John Williams (Superman, o Filme) que já não tenha sido dito? Muito da identidade de Star Wars se deve à soberba trilha sonora composta por ele. Aos 85 anos de idade, nem pensa em se aposentar e já confirmou que irá compor a trilha do Episódio IX (que, novamente, terá a direção de J. J. Abrams, do Episódio VII). O fãs de cinema do mundo inteiro agradecem.

Assim como no filme anterior, em Star Wars: Os Últimos Jedi há várias referências ao episódios anteriores, principalmente aos Episódios V e VI. Homenagens? Talvez. Mas, acredito que seja também uma ligação tanto para os episódios anteriores quanto para a próxima trilogia, cuja produção já foi confirmada pelos estúdios de Walt Disney e com datas de lançamento ainda a serem confirmadas.

Alguns fãs mais radicais chegaram a criar uma petição na internet para que Star Wars: Os Últimos Jedi seja retirado do cânone de Star Wars por ser "diferente demais". Bobagem. Este Episódio VIII é um daqueles filmes que se tornam clássicos instantâneos e, para mim, após os Epísódios IV e V (não necessariamente nessa ordem), é o melhor de toda a saga. Porém, eu até compreendo essa atitude. É o medo da perda, de não poder ver mais todos aqueles personagens que tanta alegria trouxeram às nossas vidas. 

Embora seja triste não poder ver mais pessoas a quem se ame ou se afeiçoe, seja na realidade ou na fantasia, é preciso seguir adiante. A vida é assim. Em Star Wars: Os Últimos Jedi certos personagens lembram a lenda do pássaro que, pouco antes de morrer, entoa um canto tão belo que o mundo inteiro interrompe o que está a fazer para ouvir a linda melodia e Deus sorri no céu.

E nós, aqui na Terra (ou mesmo em uma galáxia longínqua), continuamos a ir em frente, sem olhar para trás e ouvindo, cada vez mais longe, o canto nostálgico desse pássaro.


FICHA TÉCNICA
  • Título Original: Star Wars: The Last Jedi
  • Direção: Rian Johnson
  • Elenco: Mark Hammil (Luke Skywalker), Carrie Fisher (General Leia Organa), Daisy Ridley (Rey), John Boyega (Finn), Adan Driver (Kylo Ren / Ben Solo), Oscar Isaac (Poe Dameron), Laura Dern (Vice-Almirante Holdo), Andy Serkis (Líder Supremo Snolke), Benicio de Toro (DJ), Lupita Nyong'o (Maz Kanata), Frank Oz (Mestre Yoda), Peter Meyhew (Chewbacca), Anthony Daniels (C-3P0), Domhnall Gleeson (General Hux), Gwendoline Christie (Capitã Phasma)
  • Roteiro: Rian Johnson
  • Música: John Williams
  • Fotografia: Steve Yedlin
  • Duração: 152 minutos
  • Ano: 2017
  • Lançamento comercial no Brasil: 14/12/2017

RESUMO DO FILME

Rey vai até a ilha de um planeta isolado em busca de Luke Skywalker, que está em um auto-exílio, para que este ajude a Resistência em sua guerra contra a tirânica Primeira Ordem.

COTAÇAO
⭐⭐⭐⭐⭐

Veja aqui o trailer oficial de Star Wars: Os Últimos Jedi (legendado - HD):


Publicado no LinkedIn e no AdoroCinema em 27/01/2018.