Bem-Vindos a Panorama do Cinema"


Panorama do Cinema dá as boas-vindas aos seu leitores e amigos por meio deste vídeo gerado pela Inteligência Artificial (IA).

 

Editorial


Estamos de Volta!

Olá a todos! Depois de um longo hiato, Panorama do Cinema está de volta! Esta ausência deveu-se a motivos pessoais que impediram a continuidade do trabalho. Mas, agora estamos de volta no melhor estilo "a volta dos que não foram", com mais de 10 anos anos nas costas e com novidades. Vocês já devem ter reparado que a página teve uma "turbinada" que inclui este editorial, o vídeo de boas vindas feito com a Inteligência Artificial (IA) e atualizações das redes sociais e, em breve, novas edições de podcasts. Como estamos em plena Copa do Mundo, iniciamos o nosso retorno com posts sobre futebol tais como a Série Especial "Filmes sobre futebol para assistir antes da Copa do Mundo acabar" e a matéria "Veja os criativos, divertidos e irados animes e vídeos de IA da Copa do Mundo". Mas, não nos limitaremos apenas à paixão nacional. Logo voltaremos com mais artigos, matérias e críticas de filmes, que são a razão de ser deste espaço. E, neste retorno, nos comprometemos a fazer, pelo menos, um texto por mês. Não deu para não notar que, apesar da longa ausência, vocês nunca deixaram de nos visitar e ver nossos textos publicados anteriormente. Panorama do Cinema se comove e agradece de todo o coração pela sua fidelidade e gentileza. Panorama do Cinema espera que vocês apreciem esta nova fase e que continuem a nos visitar sempre. Boas leituras e boa diversão!
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terça-feira, 29 de outubro de 2019

Filmes de "Terrir" para rachar o bico no Halloween


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Como todos sabem, o dia 31 de outubro é conhecido nos países de língua inglesa - em especial nos EUA - como Halloween, chamado no Brasil de "Dia das Bruxas". Nesse dia, a criançada sai fantasiada de bruxa, monstro, vampiro, lobisomem, etc., batem à porta das residências, dizem "Trick or Treats" ("Travessuras ou Gostosuras", em tradução livre) e ganham doces dos adultos.

Entrando no clima dessa festa, Panorama do Cinema fez uma seleção de filmes de "Terrir" que, como os cinéfilos sabem, é a mistura de terror com humor. Então, as crianças - e também os adultos - podem saborear as gostosuras enquanto riem das hilárias travessuras dos monstros e criaturas fantásticas do cinema.

De modo ufanista, começamos esta seleção com um filme brasileiro:

Bacalhau (1976)


Em um balneário do litoral de São Paulo, vários banhistas sofrem ataques de uma misteriosa criatura marinha. O oceanógrafo português Matos (Adriano Stuart, da franquia Boleiros, também diretor e roteirista do filme) descobre que a criatura é um Bacalhau da Guiné e quer capturar o peixe para acabar com os ataques e servi-lo como refeição no jantar. 

Além de ser uma típica pornochanchada, gênero que mistura erotismo e humor, Bacalhau é uma sátira descarada do filme Tubarão (1975), de Steven Spielberg (A Ponte dos Espiões). O peixe feroz de Spielberg impressionou os espectadores da época pelo seu realismo - e até os dias de hoje continua convincente.

Já o peixe malandro de Adriano Stuart é propositalmente mal feito de modo que é impossível não rir. De quebra, ainda há a presença das musas da pornochanchada tais como Helena Ramos (Mulher Objeto) e Matilde Mastrangi (Amor, Estranho Amor) no auge da beleza, vestindo biquínis mais do que minúsculos e doidas para que o Bacalhau apareça. Adivinhem porque...   

Veja aqui, na íntegra, o filme Bacalhau (original em português):




Amor à Primeira Mordida (1979)


O Conde Drácula (George Hamilton, de O Poderoso Chefão III) é expulso da Romênia pelo governo comunista que quer usar seu castelo como centro de treinamento de ginástica olímpica. Junto com seu servo, Renfield (Arte Johnson, de Um Rally Muito Louco), vai para Nova York em busca de seu grande amor, a top model Cindy Sondheim (Susan Saint James, da série O Casal McMillan). Porém, o namorado da moça, o psiquiatra Jeffrey Rosemberg (Richard Benjamin, de Desconstruindo Harry), sabe quem Drácula realmente é e, com a ajuda de um policial medíocre (Dick Shawn, de Primavera Para Hitler), fará tudo para destruir o conde vampiro.

Amor à Primeira Mordida foi o sucesso-surpresa daquele ano com uma mistura de humor sutil e escrachado e com duas cenas impagáveis: a dança de Drácula e Cindy na discoteca ao som da música "I Love The Nightlife" ("Eu Amo a Vida Noturna") interpretada por Alicia Bridges e o assalto que Drácula e Renfield fazem ao banco de sangue. 

O galã canastrão George Hamilton faz um Drácula esnobe e irônico, mas elegante e muito romântico. A top model interpretada por Susan Saint James é bonita, mas esculachada, ninfomaníaca, fumante inveterada e beberrona. Richard Benjamin faz de Jeffrey Rosemberg um psiquiatra mais louco que seus pacientes. E o Renfield de Arte Johnson segue a tradição do fiel servo de seu mestre: quer comer todos os insetos que aparecem na sua frente.

Veja aqui o trailer de Amor à Primeira Mordida (original em inglês):





A Pequena Loja dos Horrores (1986)


Seymour Krelborn (Rick Moranis, de Querida, Encolhi as Crianças) é um nerd tímido que trabalha na floricultura do Sr. Mushinik (Vincent Gardenia, de Feitiço da Lua), cujo negócio vai muito mal. Na floricultura também trabalha a gentil Audrey (Ellen Greene, de O Profissional), por quem Seymour é apaixonado, mas ela namora o dentista sádico e violento Orin Scrivello (Steve Martin, de Roxanne). Após um eclipse, Seymour encontra uma estranha planta que logo torna-se a grande atração da floricultura, que fica lotada de clientes. Porém, ele descobre que a planta (dublada pelo cantor Levi Tubbs, do grupo The Four Tops) não só fala como tem estranhos hábitos alimentares. 

Dirigido por Frank Oz (Os Safados), A Pequena Loja dos Horrores é a adaptação do musical da Broadway que, por sua vez, é a adaptação do filme de mesmo nome, lançado em 1960, com a direção do mestre dos filmes B, Roger Corman (A Queda da Casa de Usher) e que tem no elenco um então jovem Jack Nicholson (Marte Ataca!), em início de carreira.

A Pequena Loja dos Horrores é um filme muito divertido e com um ritmo dinâmico, no que é ajudado pela sua ótima trilha sonora - que teve uma de suas canções indicadas ao Oscar - e seu igualmente ótimo elenco, que tem também participações especiais de John Candy (Jamaica Abaixo de Zero), James Belushi (série O Jim é Assim) e Bill Murray (franquia Os Caça-Fantasmas), que está simplesmente hilário como um paciente masoquista do Dr. Scrivello. E, claro, Levi Tubbs, que está demais dando uma voz de malandro à planta falante - que é totalmente mecânica, mas muito ágil e fez com que o filme também tivesse uma indicação ao Oscar de efeitos especiais.  

Veja aqui o trailer de A Pequena Loja dos Horrores (Original em inglês):





Frankenhooker - Que Pedaço de Mulher! (1990)


Jeffrey Franken (James Lorinz, de O Irlandês) é um eletricista que sonha em ser um cientista. Tem a chance de testar seus conhecimentos quando sua noiva, Elizabeth Shelley (a top model Patty Mullen, da série The Equalizer) é morta acidentalmente por um cortador de grama e sobra somente sua cabeça. No melhor estilo de médico louco, Jeffrey junta a cabeça da noiva com partes de corpos de prostitutas mortas na ruas e a traz de volta á vida. Mas, ao invés de sua amada Elizabeth, surge uma estranha criatura que pergunta-lhe se não está a fim de um programinha...

Como já devem ter percebido, Frankenhooker é uma sátira de Frankenstein e está cheio de referências ao clássico como, por exemplo, o sobrenome do anti-herói e o nome de sua noiva, Elizabeth Shelley, que é uma junção do nome da noiva de Frankenstein com o sobrenome de Mary Shelley (1797-1851), a autora da obra.

Dirigido por Frank Henenlotter (O Soro do Mal), Frankenhooker é um típico filme B, trash, mas que ganhou status de cult e fãs ilustres como o comediante Bill Murray, que chegou a ser convidado para atuar na película, mas sua agenda apertada não permitiu. Sorte ou azar? Depende do ponto de vista de cada um...

Veja aqui o trailer de Frankenhooker - Que Pedaço de Mulher! (original em inglês):





Ash vs Evil Dead (2016-2018)


30 anos após ter sobrevivido ao eventos ocorridos na velha cabana abandonada na floresta, Ash Williams (Bruce Campbell, de Bubba-Ho-Tep) trabalha como balconista em uma loja de materiais de construção e mora em um velho trailer. Em uma noite repleta de fumaça de maconha junto com uma mulher, Ash, "mucho loco", lê um trecho do Necronomicon, o livro dos mortos, e liberta os deadites, os demônios sumérios que querem acabar o mundo. Agora, Ash deve enviar os deadites de volta ao inferno e, para isso, terá ajuda do medroso Pablo (Ray Santiago, de O Preço do Amanhã), da bonita e durona Kelly (Dana DeLorenzo, de O Natal Maluco de Harold e Kumar) e da misteriosa e traiçoeira Ruby (Lucy Lawless, da série Xena, a Princesa Guerreira). 

Ash vs Evil Dead é a sequência da trilogia Uma Noite Alucinante - Evil Dead, no original em inglês - estrelada por Campbell e dirigida pelo seu amigo e chapa Sam Raimi (franquia Homem-Aranha). Com produção de Raimi, que também dirigiu alguns episódios, Ash vs Evil Dead é o "terrir" perfeito com seus efeitos especiais competentes, seu humor negro (o segundo episódio da segunda temporada é daqueles que você fica sem saber se ri ou vomita) e bom elenco, que conta inclusive com Lee Majors. Sim, ele mesmo, o eterno Homem de Seis Milhões de Dólares, que é Duro na Queda, faz o papel de Brock Williams, pai de Ash.

Porém, o principal responsável pelo sucesso da série é, sem dúvida alguma, o Rei dos Canastrões, Bruce Campbell (veja sua biografia aqui), sempre ótimo na sua canastrice que consagrou o personagem que criou: o desbocado, machista, sexista, racista, grosseirão, burro e engraçadíssimo Ash Williams, que fez com que conquistasse o Prêmio Saturn (o Oscar dos filmes de terror, ficção científica e fantasia) de melhor ator de TV. Pena que a série teve só três temporadas... 

Veja aqui o trailer da primeira temporada de Ash vs Evil Dead (dublado - HD):



segunda-feira, 22 de maio de 2017

Legado | Jonathan Demme, o Cineasta do Incomum


Faleceu, em 26 de abril último, na cidade de Nova York, o diretor estadunidense Jonathan Demme, devido a um câncer de esôfago, doença da qual sofria já há algum tempo. Cineasta respeitado, conquistou, em 1991, o Oscar de Melhor Diretor com o filme O Silêncio dos Inocentes.

Robert Jonathan Demme nasceu em 22 de fevereiro de 1944, nos EUA, na pequena comunidade de Baldwin, no estado de Nova York (não confundir com a cidade), filho de um executivo de relações públicas e uma dona-de-casa. No início de sua adolescência, mudou-se com a família para Miami, onde cursou o Ensino Médio local e, depois, a Universidade da Flórida, onde estudou jornalismo. Escrevia críticas de filmes no jornal da faculdade e chamou a atenção do produtor de filmes Joseph E. Levine (Uma Ponte Longe Demais), que o contratou como redator publicitário.

Em 1971, Demme conheceu o cineasta, produtor e roteirista Roger Corman (A Queda da Casa de Usher), o rei dos filmes B, que já havia revelado talentos como Peter Bogdanovich (A Última Sessão de Cinema), Francis Ford Coppola (saga O Poderoso Chefão) e Jack Nicholson (Um Estranho no Ninho). Jonathan começou a trabalhar como roteirista para Corman, que acabou por se tornar seu mentor cinematográfico.

Seu primeiro trabalho para Corman foi nesse mesmo ano com o roteiro de Angels Hard as They Come, um filme de motoqueiros que era levemente baseado no clássico Rashomon, do cineasta japonês Akira Kurosawa (Dersu Uzala). No ano seguinte, escreveu o roteiro de The Hot Box e, em 1973, foi o autor da história do filme Black Mama, White Mama, um Blaxploitation (produções voltadas para o público negro) estrelado por Pam Grier (Jackie Brown). O filme chamou a atenção por, de forma pioneira, tratar de temas como o empoderamento das mulheres e do "Black Power" (literalmente "Poder Negro", movimento político criado pelo partido político Panteras Negras).

A estréia de Jonathan Demme na direção deu-se em 1974 com o filme Celas em Chamas, um filme do gênero "mulheres na prisão", com muita nudez, sexo e violência, bastante popular na época - principalmente entre os adolescentes. A seguir, vieram mais duas direções em outras típicas produções B de Corman: o filme de gansters Loucura da Mamãe (1975, sequência de A Mulher da Metralhadora, feito no ano anterior) e Pelos Meus Direitos (1976), estrelado por Peter Fonda (Sem Destino), que conta a história de um pequeno fazendeiro que usa táticas e métodos de guerrilha para combater latifundiários corruptos.

Os temas incomuns tratados nesses filmes B por Demme - alguns até mesmo considerados de vanguarda - fez com que, em 1977, ele tivesse a sua primeira chance em um grande estúdio de Hollywood. A Paramout Pictures chamou-o para dirigir a comédia Nas Ondas do Rádio, que conta a história de amigos que são usuários fanáticos de rádio-amador, outro tema pouco comum. O filme fracassou nas bilheterias, mas foi bem recebido pelos críticos, dentre estes, Pauline Kael, do jornal The New York Times, considerada extremamente exigente e azeda, que comparou Demme ao cineasta francês Jean Renoir (Semente do Ódio).

Em 1979, dirigiu o suspense O Abraço da Morte, no qual fez uma ponta como um passageiro de um trem. No ano seguinte, dirigiu a comédia Melvin e Howard, que conta a história de um operário sem sorte que, um dia, dá uma carona a um desconhecido que afirma ser o milionário recluso Howard Hughes. Desta vez, o sucesso de público veio com o de crítica e o filme foi premiado com os Oscars de Melhor Roteiro Original e Melhor Atriz Coadjuvante (para Mary Steenburgen, da franquia De Volta Para o Futuro), enquanto Demme conquistou o prêmio de Melhor Diretor do New York Critics Circle.

Jonathan voltou a dirigir um filme para o cinema somente em 1984, no drama romântico Armas e Amores, estrelado pelo casal - nas telas e na vida real - Goldie Hawn (Clube das Desquitadas) e Kurt Russel (Os Oito Odiados). Demme teve divergências com Hawn e Russel. Ambos queriam que fosse um filme mais leve, enquanto o diretor queria fazer um trabalho mais sério. O resultado foi um filme irregular mas, ainda assim, valeu uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante para Christine Lahti (do seriado de TV Lista Negra).

Essa pequena frustração foi compensada com o sucesso, nesse mesmo ano, de Stop Making Sense, um inovativo documentário no qual Demme registrou o show minimalista e vibrante da banda de Rock The Talking Heads (veja aqui). O filme mostrava o entrosamento perfeito entre arte popular e de vanguarda, duas características que o diretor e a banda tinham em comum. Sucesso absoluto de público e crítica que conquistou o prêmio de Melhor Documentário do National Society of Film Critics.


Poster do filme Filadélfia

Aliás, Jonathan Demme sempre foi um fanático por música, Além dos Talking Heads, dirigiu três documentários sobre o músico de Country-Rock canadense Neil Young, que muito apreciava; um sobre o astro pop estadunidense Justin Timberlake, além de vídeos clips de artistas como a banda Pós-Punk New Order e o cantor Bruce Springsteen. É claro que um filme sobre Rock 'N' Roll não podia faltar em sua filmografia: em 2015, dirigiu Rick and The Flash: De Volta Para Casa uma comédia dramática tendo Meryl Streep (A Dama de Ferro) no papel principal e com roteiro de Diablo Cody (Juno).

A década de 1980 viu ainda duas grandes comédias dirigidas por Demme sobre mulheres muito agitadas e de personalidades marcantes: o primeiro é Totalmente Selvagem (1986), na qual Melanie Griffith (A Fogueira das Vaidades) leva à loucura o yuppie Jeff Daniels (A Rosa Púrpura do Cairo) e faz Ray Liotta (Sin City 2: A Dama Fatal), o ex-marido presidiário, ficar repleto de ciúmes.O filme recebeu três indicações para o Globo de Ouro, sendo  de Melhores Ator e Atriz em Musical ou Comédia para Daniels e Griffith e Melhor Ator Coadjuvante para Liotta e ganhou um status de Cult Movie.

O segundo é De Caso Com a Máfia (1988), em que um agente do FBI (Matthew Modine, de Short Cuts - Cenas da Vida) apaixona-se pela bela viúva (Michelle Pfeiffer, de Sombras da Noite) de um chefão da Máfia (Alec Baldwin, da franquia Missão Impossível), que foi assassinado por um rival (Dean Stockwell, da série Jag - Ases Invencíveis). Stockwell foi indicado o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante e Michelle para o Globo de Ouro de Melhor Atriz em Musical ou Comédia.

O início da década de 1990 trouxe a consagração para Jonathan Demme. Somente ele poderia dirigir um tema tão inusitado, sombrio e pesado como o canibalismo que compõe a adaptação do romance do escritor Thomas Harris, O Silêncio dos Inocentes (1991).

A princípio, a resposta do público foi modesta, mas, à medida que os comentários boca-a-boca aumentavam, progressivamente aumentavam as filas do cinema. Atualmente, são poucos os que nunca ouviram falar da historia da agente do FBI Clarice Starling (interpretada por Jodie Foster, de Taxi Driver) que vai a um manicômio pedir ajuda ao insano e canibal psiquiatra Hannibal Lecter (interpretado por Anthony Hopkins, da franquia Thor) para capturar um serial killer.

Foi nesse filme que ficou consagrada uma técnica simples muito utilizada por Demme em seus filmes, de grande impacto ensinada por Roger Corman (que faz um pequeno papel no filme como chefe do FBI): os close-ups dramáticos dos personagens olhando diretamente mente para a câmera em momentos cruciais dos filmes. Nas cenas em que Lecter analisa Clarice psicologicamente, é impossível não sentir um calafrio na espinha com o olhar ao mesmo tempo fixo, frio, e aterrador do psicopata. "Mantenha os olhos do público estimulados", dizia o mestre ao seu discípulo, que aprendeu bem a lição.

Na cerimônia do Oscar, O Silêncio dos Inocentes superou as expectativas e conquistou cinco Oscars, justamente os chamados "cinco grandes": Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator, Melhor Atriz, Melhor Roteiro Adaptado. Um feito que, até então, somente dois outros filmes alcançaram: Aconteceu Naquela Noite (1934) e Um Estranho no Ninho (1975). Não se podia desejar mais.

Alçado ao patamar do primeiro time de Hollywood, Demme usou sua recém-adquirida influência para realizar um projeto que há um bom tempo vinha acalentando: um filme sobre AIDS, homossexualismo e homofobia - novamente temas pouco comuns. O resultado foi Filadélfia, lançado em 1993. O filme contava a história de um advogado (Tom Hanks, de Forrest Gump) que foi despedido da firma onde trabalhava quando descobriram que ele era portador do vírus HIV e que contrata outro advogado (Denzel Washington, de Malcolm X) para processar a empresa.

Em um tempo no qual a AIDS era ainda tratada com sensacionalismo pela imprensa, com preconceito pelas pessoas (que viam essa doença como "peste gay") e com Hollywood seguindo essas tendências, Filadélfia foi um divisor de águas e tratou do assunto tal como deve ser: com seriedade, mas sem cair no pieguismo, e mostrando a comunidade LGBT - que, apesar de importantes conquistas sociais, ainda  era vista no cinema de forma estereotipada - com a dignidade e o respeito devidos.

Filadélfia foi muito recebido por crítica e público e conquistou, entre outros prêmios, os Oscars e os Globos de Ouro de Melhor Ator para Hanks, e Melhor Canção para Streets of Philadelphia, composta e interpretada pelo cantor estadunidense Bruce Springsteen (cujo vídeo foi dirigido por Jonathan em conjunto com seu sobrinho, Ted Demme, morto prematuramente, em 2002).

 Poster do documentário Man From Plains

A seguir, veio o filme de horror Bem-Amada (1998), estrelado por Oprah Winfrey (A Cor Púrpura) e Danny Glover (franquia Máquina Mortífera), baseado no romance de mesmo nome da escritora vencedora do Prêmio Nobel Toni Morrison, que conta a história de um ex-escravo que é assombrado por um poltergeist ao mesmo tempo em que recebe a visita da reencarnação da sua filha, a quem tinha matado para quem não se tornasse uma escrava. Mais uma vez Demme mostrava a sua preferência pelos temas incomuns. O filme foi bem recebido pela crítica, mas foi mal de bilheteria.

Em 2002, foi a vez de O Segredo de Charlie, uma refilmagem do clássico Charada (1963), estrelado por Mark Whalberg (Boogie Nights) e com participação do grande cantor francês Charles Aznavour. Se Bem-Amada foi considerado um meio-fracasso, O Segredo de Charlie foi um fiasco completo: nem público nem crítica gostaram.

Sob o Domínio do Mal, em 2004, com Denzel Washington e Meryl Streep no elenco, foi uma refilmagem do suspense de mesmo nome, de 1962, com o cantor Frank Sinatra (A Um Passo da Eternidade) e a atriz Janet Leigh (Psicose) nos papéis principais. O filme foi muito bem recebido, deu novo fôlego a Demme e uma indicação ao Globo de Ouro de Melhor Atriz Coadjuvante para Meryl Streep.

Em 2008, veio O Casamento de Rachel, que conta a história de uma dependente química (Anne Hathaway, de Batman, O Cavaleiro das Trevas Ressurge) que sai de sua clínica de reabilitação por alguns dias para ir ao casamento de sua irmã (Rosemarie DeWitt, de La La Land) e que carrega consigo muitos conflitos pessoais e familiares, que inclui, além do uso de drogas, o alcoolismo e assassinato. E nesse cenário bizarro, ainda aparece uma mulata brasileira sambando!

Novamente, Demme apelou para métodos nada comuns: ao invés das usuais câmeras de filmar, foram usadas aparelhos portáteis semelhantes às camcorders, câmeras de vídeo muito populares na década de 1980. Com isso, as filmagens duraram apenas 33 dias e resultou no que Jonathan definiu como "O mais belo filme caseiro já feito".

A crítica aclamou o filme, que foi considerado o melhor trabalho do diretor desde O Silêncio dos Inocentes e ainda valeu a Anne Hathaway sua primeira indicação ao Oscar de Melhor Atriz.

Em 2013, Demme voltou a surpreender com o filme The Master Buider. Nesta adaptação da peça Solness, o Contrutor; do dramaturgo norueguês Henrik Ibsen (Casa de Bonecas), foi escalado um elenco do chamado "baixo clero" de Hollywood - em fama, não em talento - em que destacam-se Wallace Shawn (de A Era do Rádio, também autor do roteiro e com uma excepcional atuação) e Julie Hagerty (franquia Apertem os Cintos, o Piloto Sumiu). Outro trabalho fora do comum e bastante elogiado.

Jonathan Demme era muito envolvido em ativismo político. Entre os seus trabalhos de maior destaque estão o vídeo da canção Sun City, de 1985, dirigido em conjunto com os diretores Lol Creme e Kevin Godley, para o grupo Artists United Against Apartheid, que protestava contra o odioso regime racista que, na época, vigorava na África do Sul, e mais dois documentários: The Agronomist (2003), sobre o defensor dos direitos humanos do Haiti, Jean Dominique, e Man From Plains (2007), sobre o ex-presidente dos EUA e vencedor do Prêmio Nobel da Paz, Jimmy Carter, e que conquistou os Prêmios PRESCI, EIUC e Biografilm do Festival de Veneza.

Jonathan Demme também trabalhou bastante na televisão. Dentre os trabalhos realizados para a telinha, destacam-se um episódio do seriado de TV Columbo, em 1978; entre 1980 e 1986 dirigiu três episódios do prestigioso programa humorístico Saturday Night Live. Em 2017, dirigiu um episódio da série Shots Fired, estrelado por Richard Dreyfuss (Contatos Imediatos do Terceiro Grau) e Helen Hunt (Melhor Impossível). Foi o seu último trabalho que, em uma triste coincidência, foi transmitido no dia de sua morte.

Jonathan Demme sempre teve um profundo senso de concienciosidade e comunidade, sempre tendo um profundo cuidado com que colocava e mostrava em seus filmes. Em uma entrevista concedida em 2004, disse que "Esse é um dos melhores aspectos do trabalho e também sinto que é parte da minha responsabilidade como cineasta. Você deve lembrar que o comportamento que você visualiza na tela será testemunhado por milhares ou milhões de pessoas e, em última análise, dirá alguma coisa sobre nós como espécie".

Assim era Jonathan Demme, o cineasta para quem o incomum não era algo destinado aos párias ou os desprezados pela sociedade conservadora, capitalista e neoliberal na qual vivemos atualmente, mas uma característica que todos partilhamos e que faz parte de nossa humanidade. Que ele descanse em paz.

Veja aqui o trailer de Stop Making Sense (original em inglês):

Veja aqui o trailer de O Silêncio dos Inocentes (original em inglês - HD):

Veja aqui o trailer de O Casamento de Rachel (original em inglês -HD):




Publicado no LinkedIn em 22/05/2017.