Bem-Vindos a Panorama do Cinema"


Panorama do Cinema dá as boas-vindas aos seu leitores e amigos por meio deste vídeo gerado pela Inteligência Artificial (IA).

 

Editorial


Estamos de Volta!

Olá a todos! Depois de um longo hiato, Panorama do Cinema está de volta! Esta ausência deveu-se a motivos pessoais que impediram a continuidade do trabalho. Mas, agora estamos de volta no melhor estilo "a volta dos que não foram", com mais de 10 anos anos nas costas e com novidades. Vocês já devem ter reparado que a página teve uma "turbinada" que inclui este editorial, o vídeo de boas vindas feito com a Inteligência Artificial (IA) e atualizações das redes sociais e, em breve, novas edições de podcasts. Como estamos em plena Copa do Mundo, iniciamos o nosso retorno com posts sobre futebol tais como a Série Especial "Filmes sobre futebol para assistir antes da Copa do Mundo acabar" e a matéria "Veja os criativos, divertidos e irados animes e vídeos de IA da Copa do Mundo". Mas, não nos limitaremos apenas à paixão nacional. Logo voltaremos com mais artigos, matérias e críticas de filmes, que são a razão de ser deste espaço. E, neste retorno, nos comprometemos a fazer, pelo menos, um texto por mês. Não deu para não notar que, apesar da longa ausência, vocês nunca deixaram de nos visitar e ver nossos textos publicados anteriormente. Panorama do Cinema se comove e agradece de todo o coração pela sua fidelidade e gentileza. Panorama do Cinema espera que vocês apreciem esta nova fase e que continuem a nos visitar sempre. Boas leituras e boa diversão!
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sábado, 4 de maio de 2019

Crítica: Se a Rua Beale Falasse | Realista, sincero e comovente



OSCAR 2019: venceu na categoria de melhor atriz coadjuvante.

Clementine "Tish" Rivers (Kiki Lane, da série Chicago Med: Atendimento de Emergência) e Alonso "Fonny" Hunt (Stephan James, da série Homecoming) conhecem e amam um ao outro desde a infância e, ao chegarem à idade adulta, tornam-se amantes e planejam ter uma vida juntos. Porém, Fonny é preso acusado de ter violentado a porto-riquenha Victoria Rogers (Emily Rios, de Vovó... Zona 3: tal pai, tal filho) e Tish, que está grávida, com a ajuda de sua família, principalmente da mãe, Sharon (Regina King, de Ray), tenta provar a inocência de seu amado e tirá-lo da cadeia. 

Se a Rua Beale Falasse é a adaptação para o cinema do romance de mesmo nome do escritor James Baldwin (1924-1987), autor que nos últimos anos vem sendo redescoberto tanto pelo público literário quanto pelo cinematográfico. Um exemplo é o documentário biográfico Eu Não Sou Seu Negro (2016), dirigido pelo cineasta haitiano Raoul Peck (de O Jovem Karl Marx. Veja a crítica aqui) e que concorreu ao Oscar da categoria.

Sendo negro, Baldwin  conseguiu destacar-se em um meio até então dominado por brancos tendo como temas o preconceito racial, pressões sociais e psicológicas, a miséria, a criminalidade, o homossexualismo e bissexualismo, e o movimento dos direitos civis, que estava em alta na década de 1960 e dava esperança em dias melhores para a comunidade afro-americana. O autor viveu várias dessas experiências na própria carne.

Tanto nas páginas quanto nas telas, Se a Rua Beale Falasse conta uma história de dor, retratando com duro realismo o cotidiano da comunidade negra e pobre dos bairros periféricos da grande metrópole que é Nova York, mas também é uma história de amor e esperança apesar de todo o sofrimento e a família - em particular a família negra - tem grande importância na manutenção dessa esperança e na vida de sobreviventes que também são resistentes.

O cineasta e roteirista Barry Jenkins surpreendeu o mundo, em 2017, quando o drama que dirigiu, Moonlight, conquistou o Oscar de melhor filme superando o favorito La La Land, tendo também conquistado os prêmios de melhor roteiro adaptado (de sua autoria) e melhor ator coadjuvante (para Mahershala Ali, da franquia Jogos Vorazes).

Em Se a Rua Beale Falasse, Jenkins confirma que os prêmios obtidos com Moonlight não foram por mero acaso. Seu trabalho na direção é esplêndido, no qual consegue demonstrar que mesmo em bairros pobres, mal cuidados, decadentes e violentos, há poesia - no que é ajudado pela fotografia de James Laxton (habitual colaborador do cineasta). 

E desse mesmo  modo  poético mostra toda a dor e todo o amor do relacionamento do casal central, seja quando Fonny e Tish encontram-se na prisão ou quando amam-se pela primeira vez (uma cena belíssima, muito bem filmada e interpretada).

É preciso também destacar uma cena marcante devido à sua força, intensidade e realismo: o diálogo entre Fonny e seu amigo Daniel (Brian Tyree Henry, de Hotel Artemis), que acabou de sair da cadeia, onde cumpriu uma pena de dois anos, sobre o que é ser negro nos EUA, um país que, na ótica de ambos, odeia negros, os brancos são vistos por eles como verdadeiros diabos e como essa guerra racial atinge o lado mais fraco, enviando-os para o inferno das prisões, mesmo que não tenham feito nada. 

Entretanto, Jenkins não teria obtido resultados tão bons se não tivesse trabalhado com um elenco tão competente e talentoso. Kiki Lane e Stephan James apresentam um timing tão bom que é difícil acreditar que não foram sequer indicados  para o Globo de Ouro e o Oscar. Raramente, um casal de um filme demonstrou um amor tão bonito e verdadeiro.

Kiki faz sua estreia no cinema (seus trabalhos anteriores foram um curta-metragem independente e um episódio da série Chicago Med: Atendimento de Emergência), mas atua como uma veterana tamanha desenvoltura, naturalidade e sensibilidade em sua performance. 

Stephan é mais experiente. Fez sua estreia em 2010 no telefilme Minha Babá é Uma Vampira. Sua estreia no cinema foi em 2012, no drama Home Again, para o qual foi nomeado para a categoria de melhor ator no Canadian Screen Awards, importante premiação local. Em 2019, no Globo de Ouro, obteve uma indicação ao prêmio de Melhor Ator em série de TV por Homecoming. Faz parte da nova e talentosa safra de atores afro-americanos que inclui nomes como Michael B. Jordan (franquia Creed) e Chadwick Boseman (Pantera Negra. Veja a crítica aqui). A continuar com essas ótimas atuações, para Stephan o céu é o limite.

Vencedora de três prêmios Emmy (o Oscar da TV estadunidense) pelas séries American Crime (em 2015 e 2016) e Seven Seconds (2018) e um Globo de Ouro neste ano, só faltava mesmo o Oscar para premiar o talento imenso de Regina King. Sua performance é sensível e forte ao mesmo tempo refletindo a personalidade de Sharon Rivers, mulher e mãe de família negra proletária, que deve desdobrar-se em várias para cuidar e ajudar a sua família. As mulheres e mães negras brasileiras vão identificarem-se com ela.

Se a Rua Beale Falasse também tem os seus coadjuvantes de luxo: Diego Luna (Rogue One - Uma História Star Wars. Veja a crítica aqui) como Pedrocito, o simpático garçom de um restaurante e amigo de Fonny, e David Franco (franquia Vizinhos), como Levy, um jovem judeu dono de um imóvel que Fonny e Tish pretendem alugar e que sabe muito bem o que significa preconceito. A presença destes dois bons atores ajuda a dar mais brilho à produção.

Se a Rua Beale Falasse é um filme realista ao mostrar as agruras da comunidade afro-americana que, apesar de algumas conquistas civis, políticas e sociais obtidas de algumas décadas para cá, continuam até hoje. É sincero ao mostrar o cotidiano dessa comunidade com tudo de bom e ruim que tem. E é comovente sem necessidade de apelar para o dramalhão e a pieguice para com as dores e assim como para os amores e por mostrar que a esperança ainda existe.

Gostaria de finalizar reproduzindo a definição que o próprio James Baldwin fez a respeito da rua Beale e que aparece no começo do filme (tradução livre feita por mim):

"A rua Beale é uma rua de Nova Orleans, onde meu pai, Louis Armstrong e o Jazz nasceram.

Toda pessoa negra nascida na América nasceu na rua Beale, na vizinhança negra de alguma cidade americana (...). A rua Beale é o nosso legado. Este romance trata da impossibilidade e possibilidade, a necessidade absoluta para dar expressão a este legado.

A rua Beale é uma rua barulhenta. É deixado ao leitor discernir o significado da batida dos tambores".



FICHA TÉCNICA

  • Título Original: If Beale Street Could Talk
  • Direção: Barry Jenkins
  • Elenco: Kiki Lane (Clementine "Tish" Rivers), Stephan James (Alonzo "Fonny" Hunt), Regina King (Sharon Rivers), Teyonah  Parris (Ernestine Rivers), Colman Domingo (Joseph Rivers), Michael Beach (Frank Hunt), Aunjanue Ellis (Sra. Hunt), Emily Rios (Victoria Rogers), Diego Luna (Pedrocito), Dave Franco (Levy), Finn Wittrock (Hayward)
  • RoteiroBarry Jenkins (baseado no livro de James Baldwin)
  • Fotografia: James Laxton
  • Duração: 117 minutos
  • Ano: 2018
  • Lançamento comercial no Brasil: 07/02/2019

RESUMO DO FILME

Fonny e Tish amam-se desde a infância. Fonny é acusado de estupro, preso e Tish, grávida e com a ajuda de sua mãe, tenta libertar seu amado da cadeia.


COTAÇÃO
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Veja aqui o trailer oficial de Se a Rua Beale Falasse (legendado - HD):



Publicado no LinkedIn e no AdoroCinema em 04/05/2019.

sábado, 26 de janeiro de 2019

Crítica: Vice | O poder do quieto



OSCAR 2019: venceu na categoria de melhor maquiagem e cabelo.

Dick Chaney (Christian Bale, de Batman, o Cavaleiro das Trevas) é um típico sulista interiorano do estado de Wyoming, EUA: passa a maior parte de seu tempo bebendo, brigando e metendo-se em confusões, mesmo sendo um tipo calado, e tem um emprego modesto. Uma noite, sua esposa, Lynne (Amy Adams, de O Homem de Aço), após tirá-lo novamente da cadeia, dá-lhe um ultimato: ou endireita-se ou ela vai embora. Dick promete endireitar-se. Ele forma-se na universidade, vai para a capital estadunidense, Washington D. C., e lá conhece Donald Rumsfeld (Steve Carell, de Agente 86), político do conservador Partido Republicano, começa a trabalhar para ele e, assim, inicia sua própria carreira na política. 

Anos depois, quando já é um político conhecido e um próspero empresário, é convidado pelo então candidato presidencial, George W. Bush (Sam Rockwell, de Três Anúncios Para Um Crime), para ser o vice-presidente de sua chapa. Dick, a princípio, recusa, mas depois aceita o convite, em um decisão que irá mudar sua vida e a história dos EUA e do mundo.

Em 2012, a consultora de negócios e escritora Susan Cain, publicou um livro de auto-ajuda - mais um entre tantos outros, mas que fez sucesso em um mercado hipersaturado - intitulado O Poder dos Quietos: Como os tímidos e introvertidos podem mudar um mundo que não para de falar (título original Quiet: The power of introverts in a world that can't stop speaking), no qual, ao contrário do que muitas pessoas crêem, pessoas reservadas, tímidas e/ou introvertidas são pessoas altamente capazes e competentes em seus afazeres, profissões e relacionamentos sociais apesar de suas características pessoais ou, como a autora afirma categoricamente, graças a elas.

No prefácio da obra, escrito pelo tambem escritor e administrador de empresas Max Gehriger, há um trecho que diz:

"O introvertido e uma pessoa sensível que sente-se confortável tendo a si mesmo como companhia. Ele quer entender o que passa-se ao seu redor, mas não sente a necessidade de alardear seus pontos de vista. Entre um filósofo em causa própria e um alienado social, ele encaixa-se perfeitamente na primeira definição, mas a arbitrariedade das convenções tende a empurra-lo para a segunda. Porque, ao buscar líderes em seus quadros, a maioria das empresas parece confundir liderança com autopromoção e exuberância. O introvertido sabe que dificilmente será o general que sai brandindo a espada a frente de suas tropas, mas tem tudo para ser o estrategista cujo plano garantirá a vitória na batalha". 

Este trecho combina a perfeição com o provérbio que aparece nos primeiros minutos de Vice e que é fundamental para a compreensão da película: 

"Cuidado com o homem quieto. Enquanto os outros falam, ele observa. Enquanto os outros agem, ele planeja. E quando os outros finalmente descansam, ele ataca". 

Vice não é o primeiro filme a tratar do governo de George W. Bush. Anteriormente houve o filme W. (2008), do cineasta Oliver Stone (Snowden: Herói ou Traidor?), com Josh Brolin (Vingadores - Guerra Infinita) à frente do elenco. Também há o documentário Fahrenheit 11 de Setembro (2004), do polêmico e genial diretor e documentarista Michael Moore, vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes.

A diferença está na ênfase dada a uma personagem tida como secundária - tanto nos filmes de Stone e Moore quanto na vida real. Dick Chaney concentrou em suas mãos um poder enorme que nenhum outro vice-presidente estadunidense teve antes nem depois dele.

Vice mostra o estilo Chaney de fazer política: cerebral, calculista, paciente, sem chamar a atenção até agir nos momentos certos e com precisão, fiel ao seu estilo quieto, reservado e introvertido. Um estilo que faz seus supostos superiores - primeiro Rumsfeld e depois Bush - serem meros peões em seu intrincado jogo de xadrez sem parecerem e sem ninguém perceber que são!

Na recente premiação do Globo de Ouro, Vice concorreu na categoria "comédia ou musical". Não acho a definição correta. Embora tenha vários momentos de humor, o filme, definitivamente, não é uma comédia. Na verdade, é um filme de difícil classificação: um drama biográfico em estilo de documentário (com narrador incluso) com tons humorísticos.

Ao assistir Vice, constantemente lembrava-me dos já citados Oliver Stone e, principalmente, Michael Moore. Mas, o diretor Adam McKay (A Grande Aposta), também autor do roteiro, não fez um pastiche desses cineastas, longe disso. McKay realizou um trabalho de direção extremamente criativo, inventivo, irônico e provocativo. Esse trabalho valeu-lhe justas indicações de melhor diretor no Globo de Ouro e no Oscar, além de uma indicação de melhor roteiro original neste último e no Bafta (o Oscar britânico).

Christian Bale engordou 40 kg para encarnar Dick Chaney. Conseguiu quebrar o recorde de Robert De Niro, que engordou 25 kg para interpretar o boxeador Jake La Motta, já decadente, no filme Touro Indomável (1980). 

Sua interpretação do ex-vice-presidente estadunidense é esplêndida. Bale consegue reproduzir com perfeição Dick Chaney em todas as suas contradições: o falso bonachão conservador sempre na dele, mas de olhos e ouvidos atentos, que usa métodos legais, ilegais e maquiavélicos para atingir seus fins. Ama sua família, mas não hesita em machucar os sentimentos da filha lésbica, Mary (Alison Pill, de Meia-noite em Paris), para auxiliar a filha mais velha, Lizzie (Lily Rabe, da série American Horror Story), que inicia sua própria carreira política.

O "desabafo" de Dick Cheney quase ao final do filme é o ponto alto da performance de Bale em Vice. Sua fala mistura cinismo com sinceridade - ele acredita piamente no que diz - e soa tão arrogante e convincente que tem todas as chances de ser daquelas cenas para entrar para a história do cinema. O Oscar deste ano tem candidatos fortíssimos ao prêmio de melhor ator, mas, para mim, Bale (que já ganhou o Globo de Ouro deste ano) ainda tem um ligeiro favoritismo.

A interpretação de Lynne Chaney por Amy Adams também mostra as contradições da segunda-dama dos EUA: uma típica mulher sulista caseira, mas de personalidade forte e tão gananciosa e maquiavélica quanto o marido. Amy está ótima no papel, mas acho difícil tirar o prêmio de melhor atriz de Glenn Close em A Esposa (veja a crítica aqui). Porém, se tirar, não será de todo injusto.

Steve Carell está seguindo o mesmo caminho trilhado por Tom Hanks (Apolo 13): transformando-se de comediante em ator sério, mas sem perder o humor. O seu Donald Rumsfeld é o anti-Chaney: arrogante, exibido, barulhento e nada discreto, em uma atuação muito boa. A continuar assim, o Oscar será uma questão de tempo.

Sam Rockwell já tem a sua estatueta e tem todas as chances de conseguir mais uma com sua interpretação de George W. Bush, o ex-bêbado bronco que nada mais é que uma marionete manipulada por Dick Chaney a seu bel-prazer.

E não podemos esquecer Jesse Plemons (Aliança do Crime), muito bom em seu papel como Kurt, que narra a toda a história e representa a classe trabalhadora estadunidense que sofre diretamente as consequências do governo Chaney, isto é, Bush, e tem uma ligação surpreendente com o vice-presidente.

Assim como nos documentários de Michael Moore, Vice também mostra as falcatruas da administração Bush - e de Chaney, em particular - além da manipulação da opinião pública pela imprensa conservadora, principalmente o canal Fox News, símbolo dessa imprensa e dessa administração. Impagável é a cena, também no final, no qual um há um debate em grupo sobre o "viés liberal" do filme e a discussão entre dois debatedores, sendo um deles eleitor do atual e infame presidente dos EUA, Donald Trump.

Vice é um filme ousado, que cutuca feridas ainda não totalmente cicatrizadas e incomoda, por isso corre o risco de ser esnobado na cerimônia do Oscar que se aproxima. Porém, é daqueles filmes que, mesmo daqui a 100 anos, ainda continuará atual, pois sua premissa sobre "gurus" de presidentes da república não é, e nem nunca será, mera coincidência. Especialmente se for do tipo quieto...


FICHA TÉCNICA
  • Título Original: Vice
  • Direção: Adam McKay
  • Elenco: Christian Bale (Dick Cheney), Amy Adams (Lynne Chaney), Steve Carell (Donald Rumsfeld), Sam Rockwell (George W. Bush), Alison Pill (Mary Cheney), Lily Rabe (Liz Chaney), Jesse Plemons (Kurt, o narrador)
  • RoteiroAdam McKay
  • Fotografia: Greig Fraser
  • Duração: 132 minutos
  • Ano: 2018
  • Lançamento comercial no Brasil: 31/01/2019

RESUMO DO FILME
A trajetória de Dick Cheney que, de um bêbado brigão, tornou-se o mais poderoso vice-presidente da história dos EUA e como sua visão e decisões políticas afetaram o mundo durante o governo do presidente George W. Bush.

COTAÇÃO
✪✪✪✪✪

Veja aqui o trailer oficial de Vice (legendado - HD):


Publicado no LinkedIn em 30/01/2019 e no AdoroCinema em 31/01/2019.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Crítica: A Esposa | A Hora e a Vez da Mulher Invisível


O ex-beatle John Lennon (1940-1980), em uma das várias entrevistas concedidas após a dissolução do grupo, disse que "Há sempre uma grande mulher atrás de cada idiota". Ao conhecer sua segunda esposa, a japonesa Yoko Ono (1933- ), o próprio John reconheceu que tornou-se mais feminista, pois Yoko abriu-lhe os olhos quanto ao machismo e a opressão que as mulheres sofrem em nossa sociedade até os dias de hoje, mesmo com as muitas conquistas obtidas por elas. Esse feminismo de Lennon está refletido na canção de autoria do casal, Woman is The Nigger of The World (A Mulher é o Negro do Mundo).

Em um daqueles casos no qual a vida imita a arte, a frase de Lennon pode ser encaixada na premissa d' A Esposa.

Joan Castleman (Glenn Close, de Ligações Perigosas) é a esposa do afamado escritor Joe Castleman (Jonathan Pryce, da franquia Piratas do Caribe), que foi indicado ao Prêmio Nobel de Literatura. Joseph conquista o prêmio e ele, Joan e o filho, David (Max Irons, de Colheita Amarga - Veja a crítica aqui), viajam para a capital da Suécia, Estocolmo, para receber o prêmio. No mesmo avião, segue o jornalista Nathaniel Bone (Christian Slater, de Jovens Demais Para Morrer) que insiste em escrever uma biografia de Joseph. Ao chegarem ao seu destino, vários fatos que lá ocorrem fazem com que Joan comece a questionar e repensar a sua vida com Joseph desde quando conheceram-se até aquele momento.

Baseado no romance da escritora Meg Wolitzer, A Esposa é uma produção independente que retrata um tema ainda muito em voga nos tempos atuais: a mulher posta em situação de inferioridade em relação ao homem independente de sua cor, raça, credo, origem, condição intelectual, social e/ou financeira.

Uma cena que retrata bem esse tema é quando a jovem Joan (Annie Starke, de A Beira do Abismo) vai pedir conselhos com a escritora Elaine Mozell (Elizabeth McGovern, da série Downton Abbey) e esta a desencoraja,  pois, mesmo sendo ela mesma uma autora talentosa, respeitada e de opiniões firmes, foi posta em um patamar abaixo dos autores masculinos.

O diretor sueco Björn Runge é pouco conhecido fora de sua terra natal, mas tem uma sólida carreira tanto no cinema quanto na TV locais. Chamou atenção ao conquistar o prêmio "Blue Angel" no Festival de Berlim, em 2003, com o filme Ao Romper do Dia. A Esposa é a sua primeira produção internacional de destaque na qual trabalha com grandes astros e estrelas (embora já tenha feito vários filmes com a sua conterrânea Pernilla August, da saga Star Wars).

Runge tem uma mão experiente e segura em seu trabalho de direção e faz o filme fluir bem, inclusive na transição para as cenas de flashback. A Estocolmo que mostra ao público é bela e fria, mas não de uma frieza indiferente, mas que envolve e toca as emoções. Nisso é ajudado pela bonita fotografia de Ulf Brantas (de Nós Somos as Melhores!).

Ainda que sem nenhuma intenção deliberada, Runge insere o feminismo de John Lennon na trama para que todos - em particular os homens - possam tanto acompanhar como compreender o sacrifício e a submissão de Joan a Joe desde que esse era um jovem professor universitário (vivido por Harry Lloyd, da série Game of Thrones).

No início, Joan nos passa a impressão que é um mulher  tímida e decididamente caseira, dedicada ao lar, os filhos, o marido ("Já tomou o seu remédio?") o qual, com sua personalidade dominadora, sempre a deixa sob sua sombra, como uma medíocre "mulher invisível". 

Porém, à medida que o filme corre, pode-se perceber que Joan é realmente tímida, mas não é "invísivel" ou medíocre - embora pareça assim aos parentes e amigos. É muito inteligente e tem tanta nobreza dentro de si que está disposta a fazer os maiores sacrifícios, o que incluía uma possível carreira brilhante como escritora em sua juventude, para apoiar a do marido. Por amor, fica submissa.

Joe é o idiota ao qual se referia Lennon. Carreirista, mulherengo, cínico e ganancioso, é o perfeito estereótipo do macho bobo que, com sua dominação sobre a mulher aliado ao seu carisma pessoal, consegue disfarçar seus defeitos de caráter e adquirir fama, mas, no fundo, sabe que ele é o medíocre ao invés de Joan.

Seu domínio tirânico atinge igualmente o filho, David que, apesar de estar a par de como o pai trata a ele e a mãe, quer desesperadamente seu amor e aprovação para que, assim, possa libertar-se da dominação paterna e ter sua própria vida e carreira.

Max Irons é daqueles atores que vão melhorando a cada filme e, em um curioso paralelo com seu personagem, deixa gradativamente de ser o filho de Jeremy Irons (Liga da Justiça) para ser um astro com brilho próprio. O mesmo vale para Annie Starke que - para aqueles que ainda não sabem - é filha de Glenn Close, e para Harry Lloyd, tetraneto (!) do escritor Charles Dickens (1812-1870).


Não é a primeira vez que Christian Slater interpreta um jornalista (fez um papel semelhante em Entrevista Com o Vampiro) que, aqui, é também uma mistura de biógrafo com paparazzo, doido para descobrir algum "podre" da família Castleman e incluí-lo no livro que quer escrever sobre Joe. Ele também é a ponte que leva o público a descobrir o segredo de Joe e Joan.

O inglês Jonathan Pryce foi uma ótima escolha para interpretar Joe Castleman. Mesmo fazendo bem o sotaque estadunidense (Joe é dessa nacionalidade), mantém a fleuma britânica, o que dá um toque blasé que aumenta a autenticidade do personagem interpretado.

Afinal, mas não por último, temos Glenn Close.

Atriz versátil e extremamente talentosa que interpreta com a mesma convicção personagens tão díspares como a psicopata sexy Alex Forrest, de Atração Fatal (1987); a rainha Gertrude, em Hamlet (1990); a primeira-dama dos EUA Marsha Dale, em Marte Ataca! (1996); e traveste-se em homem no filme Albert Nobbs (2011).

Em A Esposa, Glenn está na sua maturidade e no seu auge  como mulher e atriz em um trabalho magnífico de interpretação. Na cena em que Joe faz o discurso de agradecimento do Prêmio Nobel e o dedica a Joan, Glenn, sem dizer uma única palavra, consegue transmitir emoções tão fortes e conflitantes que é difícil não ficar impressionado e comovido.

Nesse conflito de emoções podemos perceber a grandeza da mulher que durante tantos anos acompanhou e apoiou um idiota e que, finalmente, liberta-se de sua "invisibilidade" e tem a sua hora e vez.

A atuação de Glenn já lhe valeu os prêmios de melhor atriz dramática no Satellite Awards, em 2018, e o Globo de Ouro deste ano, no qual derrotou a favorita Lady Gaga, de Nasce Uma Estrela (2018).

Falta o Oscar, prêmio para o qual já foi indicada seis vezes. Desta vez virá? Ainda é preciso aguardar as indicações, mas, se Glenn for indicada, atrevo-me a dizer que ela será a grande favorita ao prêmio. Porém, o Oscar é conhecido por suas injustiças...

A Esposa é um filme que leva a várias reflexoes sobre amor, casamento, solidão, machismo como intsrumento de opressão que atinge principalmente as mulheres, mas também minorias como a comunidade LGBT, afrodescendentes e os índios; e o feminismo como instrumento de compreensão das almas das mulheres.

Nesta era das trevas a qual vivemos atualmente e sob um governo fascista que quer destruir os direitos sociais que tão arduamente foram conquistados pelo povo, A Esposa é um filme que nos dá a certeza que a opressão e a tirania, por mais tempo que durem, inevitavelmente caem e nem mesmo uma "invisibilidade" imposta pode impedir essa queda.


FICHA TÉCNICA
  • Título Original: The Wife
  • Direção: Björn Runge
  • Elenco: Glenn Close (Joan Castleman), Jonathan Pryce (Joe Castleman), Christian Slater (Nathaniel Bone), Elizabeth McGovern (Elaine Mozell), Max Irons (David Castleman), Harry Lloyd (Joe Castleman jovem), Annie Starke (Joan Castleman jovem)
  • RoteiroJane Anderson (baseado no livro de Meg Wolitzer)
  • Fotografia: Ulf Brantas
  • Duração: 100 minutos
  • Ano: 2017
  • Lançamento comercial no Brasil: 10/01/2019

RESUMO DO FILME

Joan Castleman é a esposa do escritor Joe Castleman e, quando o marido ganha o Prêmio Nobel de literatura, Joan começa a fazer um balanço de sua vida.


COTAÇÃO
✪✪✪✪½

Veja aqui o trailer oficial de A Esposa (legendado):


Publicado no AdoroCinema e no LinkedIn em 10/01/2019.

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Kirk Douglas emociona o mundo na premiação do Globo de Ouro 2018


O ator estadunidense Kirk Douglas é uma verdadeira lenda viva do cinema. Não só por ter completado, no último dia 9 de dezembro, 101 anos de idade (!), mas também por ter feito alguns dos maiores sucessos do cinema tais como 20.000 Léguas Submarinas (1954), A Vida Apaixonada de Van Gogh (1956, que lhe valeu o Globo de Ouro de Melhor Ator) e o clássico Spartacus (1960). Também trabalhou com grandes nomes da Sétima Arte como o diretor Stanley Kubrick (De Olhos Bem Fechados), atores como seu amigo Burt Lancaster (Atlantic City), com quem realizou sete filmes; e atrizes como Laureen Bacall (O Fã - Obsessão Cega), que o ajudou no início de sua carreira. 

Além disso, trouxe ao mundo um dos mais talentosos atores de sua geração, o filho Michael Douglas (franquia Wall Street), que não deixou de homenagear o pai em seu aniversário postando uma foto de ambos em sua página no Facebook.


Michael Douglas (esq.) e Kirk Douglas

Kirk foi a grande surpresa da cerimônia do Globo de Ouro 2018, ao aparecer, juntamente com sua nora, a atriz britânica Catherine Zeta-Jones (Chicago), para entregar o prêmio de Melhor Roteiro (vencido por Três Anúncios Para Um Crime). A platéia não se conteve e aplaudiu o veterano e grande astro em pé.

Kirk Douglas não só é um grande ator, mas também é um grande sobrevivente ao passar por tragédias como a morte de seu outro filho, o também ator e comediante Eric Douglas (O Rapto do Menino Dourado), por intoxicação de uma mistura de álcool, analgésicos e medicamentos com apenas 46 anos; o terrível acidente de helicóptero que queimou todo o seu corpo, além do derrame que sofreu em 1996 e que afetou sua capacidade de falar - mais tarde recuperada graças ao tratamento com uma fonoaudióloga. Tudo superado com muita garra e determinação.

Como não admirar esse homem e artista? Apesar das sequelas físicas, ele parece ser feito de ferro, sem nunca se dobrar perante os infortúnios da vida. E suas atuações ficarão para sempre na memória coletiva de todo o mundo, o que lhe garante a imortalidade, mesmo quando vier a morte física - que, esperemos, ainda demore.

Um viva ao grande e imortal Kirk Douglas!


Veja aqui momentos selecionados do Globo de Ouro 2018, que inclui a participação de Kirk Douglas (original em inglês):



Veja aqui o trailer restaurado de Spartacus (original em inglês - HD):


Publicado no LinkedIn em 09/01/2018.

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Legado | Jonathan Demme, o Cineasta do Incomum


Faleceu, em 26 de abril último, na cidade de Nova York, o diretor estadunidense Jonathan Demme, devido a um câncer de esôfago, doença da qual sofria já há algum tempo. Cineasta respeitado, conquistou, em 1991, o Oscar de Melhor Diretor com o filme O Silêncio dos Inocentes.

Robert Jonathan Demme nasceu em 22 de fevereiro de 1944, nos EUA, na pequena comunidade de Baldwin, no estado de Nova York (não confundir com a cidade), filho de um executivo de relações públicas e uma dona-de-casa. No início de sua adolescência, mudou-se com a família para Miami, onde cursou o Ensino Médio local e, depois, a Universidade da Flórida, onde estudou jornalismo. Escrevia críticas de filmes no jornal da faculdade e chamou a atenção do produtor de filmes Joseph E. Levine (Uma Ponte Longe Demais), que o contratou como redator publicitário.

Em 1971, Demme conheceu o cineasta, produtor e roteirista Roger Corman (A Queda da Casa de Usher), o rei dos filmes B, que já havia revelado talentos como Peter Bogdanovich (A Última Sessão de Cinema), Francis Ford Coppola (saga O Poderoso Chefão) e Jack Nicholson (Um Estranho no Ninho). Jonathan começou a trabalhar como roteirista para Corman, que acabou por se tornar seu mentor cinematográfico.

Seu primeiro trabalho para Corman foi nesse mesmo ano com o roteiro de Angels Hard as They Come, um filme de motoqueiros que era levemente baseado no clássico Rashomon, do cineasta japonês Akira Kurosawa (Dersu Uzala). No ano seguinte, escreveu o roteiro de The Hot Box e, em 1973, foi o autor da história do filme Black Mama, White Mama, um Blaxploitation (produções voltadas para o público negro) estrelado por Pam Grier (Jackie Brown). O filme chamou a atenção por, de forma pioneira, tratar de temas como o empoderamento das mulheres e do "Black Power" (literalmente "Poder Negro", movimento político criado pelo partido político Panteras Negras).

A estréia de Jonathan Demme na direção deu-se em 1974 com o filme Celas em Chamas, um filme do gênero "mulheres na prisão", com muita nudez, sexo e violência, bastante popular na época - principalmente entre os adolescentes. A seguir, vieram mais duas direções em outras típicas produções B de Corman: o filme de gansters Loucura da Mamãe (1975, sequência de A Mulher da Metralhadora, feito no ano anterior) e Pelos Meus Direitos (1976), estrelado por Peter Fonda (Sem Destino), que conta a história de um pequeno fazendeiro que usa táticas e métodos de guerrilha para combater latifundiários corruptos.

Os temas incomuns tratados nesses filmes B por Demme - alguns até mesmo considerados de vanguarda - fez com que, em 1977, ele tivesse a sua primeira chance em um grande estúdio de Hollywood. A Paramout Pictures chamou-o para dirigir a comédia Nas Ondas do Rádio, que conta a história de amigos que são usuários fanáticos de rádio-amador, outro tema pouco comum. O filme fracassou nas bilheterias, mas foi bem recebido pelos críticos, dentre estes, Pauline Kael, do jornal The New York Times, considerada extremamente exigente e azeda, que comparou Demme ao cineasta francês Jean Renoir (Semente do Ódio).

Em 1979, dirigiu o suspense O Abraço da Morte, no qual fez uma ponta como um passageiro de um trem. No ano seguinte, dirigiu a comédia Melvin e Howard, que conta a história de um operário sem sorte que, um dia, dá uma carona a um desconhecido que afirma ser o milionário recluso Howard Hughes. Desta vez, o sucesso de público veio com o de crítica e o filme foi premiado com os Oscars de Melhor Roteiro Original e Melhor Atriz Coadjuvante (para Mary Steenburgen, da franquia De Volta Para o Futuro), enquanto Demme conquistou o prêmio de Melhor Diretor do New York Critics Circle.

Jonathan voltou a dirigir um filme para o cinema somente em 1984, no drama romântico Armas e Amores, estrelado pelo casal - nas telas e na vida real - Goldie Hawn (Clube das Desquitadas) e Kurt Russel (Os Oito Odiados). Demme teve divergências com Hawn e Russel. Ambos queriam que fosse um filme mais leve, enquanto o diretor queria fazer um trabalho mais sério. O resultado foi um filme irregular mas, ainda assim, valeu uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante para Christine Lahti (do seriado de TV Lista Negra).

Essa pequena frustração foi compensada com o sucesso, nesse mesmo ano, de Stop Making Sense, um inovativo documentário no qual Demme registrou o show minimalista e vibrante da banda de Rock The Talking Heads (veja aqui). O filme mostrava o entrosamento perfeito entre arte popular e de vanguarda, duas características que o diretor e a banda tinham em comum. Sucesso absoluto de público e crítica que conquistou o prêmio de Melhor Documentário do National Society of Film Critics.


Poster do filme Filadélfia

Aliás, Jonathan Demme sempre foi um fanático por música, Além dos Talking Heads, dirigiu três documentários sobre o músico de Country-Rock canadense Neil Young, que muito apreciava; um sobre o astro pop estadunidense Justin Timberlake, além de vídeos clips de artistas como a banda Pós-Punk New Order e o cantor Bruce Springsteen. É claro que um filme sobre Rock 'N' Roll não podia faltar em sua filmografia: em 2015, dirigiu Rick and The Flash: De Volta Para Casa uma comédia dramática tendo Meryl Streep (A Dama de Ferro) no papel principal e com roteiro de Diablo Cody (Juno).

A década de 1980 viu ainda duas grandes comédias dirigidas por Demme sobre mulheres muito agitadas e de personalidades marcantes: o primeiro é Totalmente Selvagem (1986), na qual Melanie Griffith (A Fogueira das Vaidades) leva à loucura o yuppie Jeff Daniels (A Rosa Púrpura do Cairo) e faz Ray Liotta (Sin City 2: A Dama Fatal), o ex-marido presidiário, ficar repleto de ciúmes.O filme recebeu três indicações para o Globo de Ouro, sendo  de Melhores Ator e Atriz em Musical ou Comédia para Daniels e Griffith e Melhor Ator Coadjuvante para Liotta e ganhou um status de Cult Movie.

O segundo é De Caso Com a Máfia (1988), em que um agente do FBI (Matthew Modine, de Short Cuts - Cenas da Vida) apaixona-se pela bela viúva (Michelle Pfeiffer, de Sombras da Noite) de um chefão da Máfia (Alec Baldwin, da franquia Missão Impossível), que foi assassinado por um rival (Dean Stockwell, da série Jag - Ases Invencíveis). Stockwell foi indicado o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante e Michelle para o Globo de Ouro de Melhor Atriz em Musical ou Comédia.

O início da década de 1990 trouxe a consagração para Jonathan Demme. Somente ele poderia dirigir um tema tão inusitado, sombrio e pesado como o canibalismo que compõe a adaptação do romance do escritor Thomas Harris, O Silêncio dos Inocentes (1991).

A princípio, a resposta do público foi modesta, mas, à medida que os comentários boca-a-boca aumentavam, progressivamente aumentavam as filas do cinema. Atualmente, são poucos os que nunca ouviram falar da historia da agente do FBI Clarice Starling (interpretada por Jodie Foster, de Taxi Driver) que vai a um manicômio pedir ajuda ao insano e canibal psiquiatra Hannibal Lecter (interpretado por Anthony Hopkins, da franquia Thor) para capturar um serial killer.

Foi nesse filme que ficou consagrada uma técnica simples muito utilizada por Demme em seus filmes, de grande impacto ensinada por Roger Corman (que faz um pequeno papel no filme como chefe do FBI): os close-ups dramáticos dos personagens olhando diretamente mente para a câmera em momentos cruciais dos filmes. Nas cenas em que Lecter analisa Clarice psicologicamente, é impossível não sentir um calafrio na espinha com o olhar ao mesmo tempo fixo, frio, e aterrador do psicopata. "Mantenha os olhos do público estimulados", dizia o mestre ao seu discípulo, que aprendeu bem a lição.

Na cerimônia do Oscar, O Silêncio dos Inocentes superou as expectativas e conquistou cinco Oscars, justamente os chamados "cinco grandes": Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator, Melhor Atriz, Melhor Roteiro Adaptado. Um feito que, até então, somente dois outros filmes alcançaram: Aconteceu Naquela Noite (1934) e Um Estranho no Ninho (1975). Não se podia desejar mais.

Alçado ao patamar do primeiro time de Hollywood, Demme usou sua recém-adquirida influência para realizar um projeto que há um bom tempo vinha acalentando: um filme sobre AIDS, homossexualismo e homofobia - novamente temas pouco comuns. O resultado foi Filadélfia, lançado em 1993. O filme contava a história de um advogado (Tom Hanks, de Forrest Gump) que foi despedido da firma onde trabalhava quando descobriram que ele era portador do vírus HIV e que contrata outro advogado (Denzel Washington, de Malcolm X) para processar a empresa.

Em um tempo no qual a AIDS era ainda tratada com sensacionalismo pela imprensa, com preconceito pelas pessoas (que viam essa doença como "peste gay") e com Hollywood seguindo essas tendências, Filadélfia foi um divisor de águas e tratou do assunto tal como deve ser: com seriedade, mas sem cair no pieguismo, e mostrando a comunidade LGBT - que, apesar de importantes conquistas sociais, ainda  era vista no cinema de forma estereotipada - com a dignidade e o respeito devidos.

Filadélfia foi muito recebido por crítica e público e conquistou, entre outros prêmios, os Oscars e os Globos de Ouro de Melhor Ator para Hanks, e Melhor Canção para Streets of Philadelphia, composta e interpretada pelo cantor estadunidense Bruce Springsteen (cujo vídeo foi dirigido por Jonathan em conjunto com seu sobrinho, Ted Demme, morto prematuramente, em 2002).

 Poster do documentário Man From Plains

A seguir, veio o filme de horror Bem-Amada (1998), estrelado por Oprah Winfrey (A Cor Púrpura) e Danny Glover (franquia Máquina Mortífera), baseado no romance de mesmo nome da escritora vencedora do Prêmio Nobel Toni Morrison, que conta a história de um ex-escravo que é assombrado por um poltergeist ao mesmo tempo em que recebe a visita da reencarnação da sua filha, a quem tinha matado para quem não se tornasse uma escrava. Mais uma vez Demme mostrava a sua preferência pelos temas incomuns. O filme foi bem recebido pela crítica, mas foi mal de bilheteria.

Em 2002, foi a vez de O Segredo de Charlie, uma refilmagem do clássico Charada (1963), estrelado por Mark Whalberg (Boogie Nights) e com participação do grande cantor francês Charles Aznavour. Se Bem-Amada foi considerado um meio-fracasso, O Segredo de Charlie foi um fiasco completo: nem público nem crítica gostaram.

Sob o Domínio do Mal, em 2004, com Denzel Washington e Meryl Streep no elenco, foi uma refilmagem do suspense de mesmo nome, de 1962, com o cantor Frank Sinatra (A Um Passo da Eternidade) e a atriz Janet Leigh (Psicose) nos papéis principais. O filme foi muito bem recebido, deu novo fôlego a Demme e uma indicação ao Globo de Ouro de Melhor Atriz Coadjuvante para Meryl Streep.

Em 2008, veio O Casamento de Rachel, que conta a história de uma dependente química (Anne Hathaway, de Batman, O Cavaleiro das Trevas Ressurge) que sai de sua clínica de reabilitação por alguns dias para ir ao casamento de sua irmã (Rosemarie DeWitt, de La La Land) e que carrega consigo muitos conflitos pessoais e familiares, que inclui, além do uso de drogas, o alcoolismo e assassinato. E nesse cenário bizarro, ainda aparece uma mulata brasileira sambando!

Novamente, Demme apelou para métodos nada comuns: ao invés das usuais câmeras de filmar, foram usadas aparelhos portáteis semelhantes às camcorders, câmeras de vídeo muito populares na década de 1980. Com isso, as filmagens duraram apenas 33 dias e resultou no que Jonathan definiu como "O mais belo filme caseiro já feito".

A crítica aclamou o filme, que foi considerado o melhor trabalho do diretor desde O Silêncio dos Inocentes e ainda valeu a Anne Hathaway sua primeira indicação ao Oscar de Melhor Atriz.

Em 2013, Demme voltou a surpreender com o filme The Master Buider. Nesta adaptação da peça Solness, o Contrutor; do dramaturgo norueguês Henrik Ibsen (Casa de Bonecas), foi escalado um elenco do chamado "baixo clero" de Hollywood - em fama, não em talento - em que destacam-se Wallace Shawn (de A Era do Rádio, também autor do roteiro e com uma excepcional atuação) e Julie Hagerty (franquia Apertem os Cintos, o Piloto Sumiu). Outro trabalho fora do comum e bastante elogiado.

Jonathan Demme era muito envolvido em ativismo político. Entre os seus trabalhos de maior destaque estão o vídeo da canção Sun City, de 1985, dirigido em conjunto com os diretores Lol Creme e Kevin Godley, para o grupo Artists United Against Apartheid, que protestava contra o odioso regime racista que, na época, vigorava na África do Sul, e mais dois documentários: The Agronomist (2003), sobre o defensor dos direitos humanos do Haiti, Jean Dominique, e Man From Plains (2007), sobre o ex-presidente dos EUA e vencedor do Prêmio Nobel da Paz, Jimmy Carter, e que conquistou os Prêmios PRESCI, EIUC e Biografilm do Festival de Veneza.

Jonathan Demme também trabalhou bastante na televisão. Dentre os trabalhos realizados para a telinha, destacam-se um episódio do seriado de TV Columbo, em 1978; entre 1980 e 1986 dirigiu três episódios do prestigioso programa humorístico Saturday Night Live. Em 2017, dirigiu um episódio da série Shots Fired, estrelado por Richard Dreyfuss (Contatos Imediatos do Terceiro Grau) e Helen Hunt (Melhor Impossível). Foi o seu último trabalho que, em uma triste coincidência, foi transmitido no dia de sua morte.

Jonathan Demme sempre teve um profundo senso de concienciosidade e comunidade, sempre tendo um profundo cuidado com que colocava e mostrava em seus filmes. Em uma entrevista concedida em 2004, disse que "Esse é um dos melhores aspectos do trabalho e também sinto que é parte da minha responsabilidade como cineasta. Você deve lembrar que o comportamento que você visualiza na tela será testemunhado por milhares ou milhões de pessoas e, em última análise, dirá alguma coisa sobre nós como espécie".

Assim era Jonathan Demme, o cineasta para quem o incomum não era algo destinado aos párias ou os desprezados pela sociedade conservadora, capitalista e neoliberal na qual vivemos atualmente, mas uma característica que todos partilhamos e que faz parte de nossa humanidade. Que ele descanse em paz.

Veja aqui o trailer de Stop Making Sense (original em inglês):

Veja aqui o trailer de O Silêncio dos Inocentes (original em inglês - HD):

Veja aqui o trailer de O Casamento de Rachel (original em inglês -HD):




Publicado no LinkedIn em 22/05/2017.


sexta-feira, 24 de junho de 2016

Kris Kristorfferson comemora seus 80 anos com um novo faroeste


Se há alguém que é um verdadeiro ícone tanto na música quanto no cinema, esse alguém é o cantor e ator estadunidense Kris Kristofferson

Nascido em 1936, em Browsville, no estado do Texas, EUA, filho de um militar, Kris Kristofferson também serviu o exército logo após graduar-se em Litertura Inglesa no Pomona College. Porém, a paixão pela música falou mais alto e ele mudou-se para Nashville, considerada a capital estadunidense da música country, onde iniciou sua carreira. Ao longo dos anos Kris já cantou e compôs com os maiores nomes desse estilo musical.

Sua estreia no cinema foi em 1971 com o drama O Último Filme, dirigido e estrelado por Dennis Hopper (Sem Destino). A partir daí, Kris não parou mais, tendo atuado em grandes sucessos como Nasce Uma Estrela (pelo qual conquistou o Globo de Ouro de Melhor Ator em Comédia e/ou Musical), Pat Garret e Billy The Kid e Comboio. A geração mais nova o conhece pelo papel de Abraham Whistler nos filmes da franquia Blade. Kris já atuou até o momento em 113 filmes para o cinema e a televisão e fez a trilha sonora de 119! Em 2014, conquistou um prêmio Grammy - considerado o Oscar da música - pelo conjunto de sua obra.

Em 2016, comemorando 80 anos de idade, Kris Kristofferson retorna à tela grande em um novo filme, no gênero em que mais atuou: o faroeste. Trata-se de Traded (ainda sem título em português).

Dirigido pelo ator e diretor Timothy Woodward Jr. (As 7 Faces de Jack, o Estripador), Traded conta a história de um cowboy (Michael Paré, de Ruas de Fogo) que abandona o seu rancho para resgatar sua filha que foi raptada por um antigo inimigo. Kris Kristofferson atua no papel do barman do saloon da cidade. 

"Sempre gostei de atuar em faroestes porque ando a cavalo desde pequeno. Gostei do roteiro do filme. Foi divertido", conta Kris.

Desde a sua estreia em 10 de junho último, nos EUA, Traded recebeu boas críticas. Como todo filme de faroeste que se preze, tem muitos tiros, muitas brigas, mulheres bonitas e uma perseguição em uma locomotiva em movimento. A diversão é garantida para todos. 

Ainda não há uma data prevista para a estreia do filme no Brasil.

Veja aqui o trailer oficial de Traded (original em inglês - HD):



E,em homenagem aos 80 anos de Kris Kristofferson, veja aqui o vídeo clip de um de seus grandes sucessos musicais, This Old Road:


quarta-feira, 8 de junho de 2016

Cinco Filmes Românticos Para Assistir no Dia dos Namorados


Ouça o podcast desta matéria nas plataformas Anchor, Castbox, Deezer, Google Podcasts, Spotify e Spreaker.

Atualizado em 20/06/2020.

O Dia dos Namorados está chegando e é uma época ótima para se assistir um filme romântico, principalmente se for a dois... Aqui temos uma seleção de cinco filmes para assistir abraçadinho(a) com seu amor. Então, ponha as flores no jarro, traga as pipocas e os bombons e tenha uma boa – e romântica – diversão!

Um Homem, Uma Mulher (Un Homme et Une Femme – 1966)


Anne Gauthier (interpretada por Anouk Aimée, de Prét-à-Porter) é uma revisora de roteiros de cinema e Jean-Louis Duroc (Jean-Louis Trintignant, de Z e Amor) é um piloto de carros de corridas. Ambos são viúvos e encontram-se por caso quando vão buscar seus respectivos filhos que estudam em um colégio interno. Um dia, Anne perde o trem e Jean-Louis oferece-lhe uma carona. A partir daí começa uma amizade que vai se transformar em amor.

O diretor Claude Lelouch, um dos nomes surgidos durante o movimento Nouvelle Vague do cinema francês das décadas de 1950-1960, dirigiu este romance entre esse casal maduro que marcou época no cinema e fez bater vários corações apaixonados com sua história bem elaborada, que fez com que muitos pessoas se identificassem com esse mesmo romance mostrado na tela. A influência da Nouvelle Vague faz-se notar na alternância de cenas coloridas com cenas em preto e branco simbolizando, respectivamente, o passado e o presente. A música-tema composta por Francis Lai tornou-se um hino romântico e há até uma menção honrosa ao Brasil com a execução da versão francesa da canção Saravá, de Baden Powell e Vinícius de Moraes.

O filme ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes, o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e Melhor Roteiro Original e o Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro e de Melhor Atriz para Anouk Aimée.Teve duas sequências com o mesmo diretor e mesmo casal central: Um Homem, Uma Mulher Vinte Anos Depois (Un Homme et Une Femme 20 Ans Déjà), em 1986; e Os Melhores Anos de Uma Vida (Les Plus Belles Années d'une Vie), em 2019. Mas, o original continua insuperável!

Trailer do filme Um Homem, Uma Mulher com música de Francis Lai:



Melody, Quando Brota o Amor (Melody – 1971)


Este filme anda meio esquecido do grande público, mas foi um campeão de bilheteria nos cinemas do Brasil e de reprises na TV brasileira na década de 1970. Aqui vemos a história de amor do menino rico Daniel Lattimer (Mark Lester, de Oliver!) com a menina pobre Melody Perkins (Tracy Hyde, na época, modelo infantil). Ambos estudam no mesmo colégio, apaixonam-se e decidem se casar. O problema é que ambos têm 10 anos de idade e não querem esperar até tornarem-se adultos, querem se casar o quanto antes. Os pais e professores, claro, não aprovam essa ideia e tentam convencê-los a desistir disso, mas eles estão dispostos a unirem-se em matrimônio e contam com a ajuda do melhor amigo de Daniel, Ornshaw (Jack Wilde, que trabalhou junto com Lester em Oliver!).

Contado como uma fábula, falando do amor infantil, considerado o mais puro que existe, o filme tem roteiro do futuro diretor Alan Parker (de Evita), em seu primeiro trabalho para o cinema. A cena da sala de música, na qual Melody e David fazem uma improvisação musical tocando a tradicional canção francesa Frère Jacques (no Brasil, há uma versão dessa canção conhecida como Os Dedinhos), é inesquecível. A química entre Mark Lester e Tracy Hyde funciona com perfeição e o filme mostra que amar e ser criança são coisas totalmente compatíveis uma com a outra.

A trilha sonora é do grupo Pop australiano Bee Gees e também tem a canção Teach Your Children, do grupo de Country-Rock estadunidense Crosby, Stills, Nash & Young. Com todos esses ingredientes e protagonizado por um casal tão fofo, é simplesmente impossível resistir...

Trailer de Melody, Quando Brota o Amor (original em inglês):




Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (Annie Hall – 1977)


Quem disse que amor não combina com humor? O diretor, ator, músico e comediante Woody Allen (de A Rosa Púrpura do Cairo) prova neste filme que eles combinam, sim. Alvy Singer (Allen) é um humorista judeu permanentemente de pé atrás com o mundo que conta sua história de amor com Annie Hall (Diane Keaton, de O Poderoso Chefão e companheira de Allen naquela época), uma bonita cantora em início de carreira e com uma cabeça bem complicada. Eles se conhecem em um jogo de tênis, se apaixonam e decidem morar juntos. Mas será que o seu amor irá resistir às suas personalidades tão complexas? 

Esse é o filme que consagrou tanto Allen quanto Keaton. Conquistou quatro Oscars: Filme, diretor, atriz e roteiro original (que Allen dividiu com Marshall Brickham), além de vários prêmios internacionais. Apesar do título brasileiro horroroso (eles não ficam noivos e, no filme, ele é que é nervoso e ela é que é neurótica), o filme tem um senso de humor refinado, mas que não o afasta do grande público e rende boas gargalhadas. Como em vários outros filmes de Allen, aqui, há muito de autobiográfico como por exemplo, sua origem judaica e novaiorquina e também ironiza o jeito de ser dos habitantes da “Big Apple” (“A Grande Maça”, como a cidade de Nova York é conhecida) com suas intelectualidades e pseudo-intelectualidades, neuroses e manias. O figurino que Diane Keaton usou no filme (eram suas próprias roupas) tornou-se moda no mundo inteiro.

Foi igualmente a partir deste filme que Allen mostra o seu lado romântico, tanto com a pessoa amada quanto com a cidade amada. A trilha sonora tem canções interpretadas pela própria Diane Keaton, que, diga-se de passagem, não faz feio. Resumindo, este é um filme no qual pode-se amar e rir simultaneamente.

Trailler de Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (original em inglês):



Em Algum Lugar do Passado (Somewhere in Time – 1980)


Este filme também foi um campeão de bilheteria nos cinemas e de reprise nas TVs do Brasil. Em 1972, o jovem e iniciante autor teatral Richard Collier (Christopher Reeve, de Superman, o Filme), durante a sua formatura na universidade, recebe de presente um relógio de bolso de uma velha senhora, que diz a ele: “Volte para mim”. Oito anos depois, já consagrado, Richard passa por uma crise pessoal e profissional e decide viajar para espairecer. Hospeda-se em um belo hotel no interior e lá vê um retrato de uma linda atriz da década de 1910 (Jane Seymour, da série de TV Dra. Quinn), apaixona-se pela deslumbrante imagem e descobre que é a mesma senhora que lhe presenteou o relógio. Obcecado com todos esses acontecimentos, Richard descobre em como fazer uma viagem no tempo para encontrar-se com sua amada.

O irregular diretor francês Jeannot Szwarc (de Tubarão 2) desta vez acertou a mão: desde o bonito casal central até o roteiro do escritor Richard Matheson (baseado em seu romance, Bid Time Return. Matheson também é o autor de I Am Legend, adaptado duas vezes para o cinema), passando pelo figurino (indicado para o Oscar), a bela fotografia e a trilha sonora de John Barry (autor da trilha sonora de vários filmes de James Bond e que foi indicado para o Globo de Ouro), tudo funciona.

Os temas de ficção-científica e fantasia da história original fundiram-se naturalmente com a história de amor e fez com que o filme recebesse o prêmio da crítica no Festival de Cinema Fantástico de Avoriaz (França). O filme é tão bonito e tão romântico que não dá para não se comover nem segurar as lágrimas...

Trailer do filme Em Algum Lugar do Passado (original em inglês):



Nunca Te Vi, Sempre Te Amei (84 Charing Cross Road – 1987)



Este é outro filme que anda meio sumido tanto da tela grande quanto da pequena. A escritora estadunidense Helene Hanff (Anne Bancroft, de A Primeira Noite de Um Homem) é uma ávida colecionadora de edições raras de literatura britânica, que são muito difíceis de serem encontradas em Nova York. Então, envia uma carta para livraria Marks & Co., especializada em edições antigas e raras, em Londres, Inglaterra, cujo endereço é em 84 Charing Cross Road. O gerente da livraria, Frank Doel (Anthony Hopkins, de O Silêncio dos Inocentes), atende seus pedidos e responde suas cartas. O relacionamento escrito, no príncipio, é tenso. Porém, ao longo de 20 anos de correspondências, vai nascendo uma terna amizade que acaba se transformando em terno amor. Helene, por várias vezes, adia a sua viagem à Inglaterra para encontrar-se com Frank. Quando finalmente vai, chegará a tempo?

Este é um curioso caso no qual o título do filme no Brasil não tem e, ao mesmo tempo, tem tudo a ver com o filme. O título original, em inglês, é o endereço da livraria, entretanto, o título brasileiro resume a história. O filme é uma adaptação da peça teatral de mesmo nome escrita por James Roose-Evans que, por sua vez, baseia-se nas memórias de Helene Hanff. O diretor David Hughes Jones (de, A Confissão) faz um trabalho de direção preciso e trata com sensibilidade o tema da solidão, tanto individual quanto coletiva. O público acompanha com grande interesse o relacionamento de Helene e Frank por cartas e, apesar de saber como tudo vai terminar, ainda torce para que os dois fiquem juntos.

Anne Bancroft e Anthony Hopkins, o casal central que nunca se encontra, dão um show de interpretação. Bancroft conquistou o Bafta (o Oscar britânico) de melhor atriz, enquanto Hopkins ganhou o prêmio de melhor ator no Festival Internacional de Cinema de Moscou. Este é um filme tanto para amantes de livros como para amantes de verdade, e mostra que o amor verdadeiro não precisa, obrigatoriamente, ser físico.

Trailer de Nunca Te Vi, Sempre Te Amei (original em inglês):