Bem-Vindos a Panorama do Cinema"


Panorama do Cinema dá as boas-vindas aos seu leitores e amigos por meio deste vídeo gerado pela Inteligência Artificial (IA).

 

Editorial


Estamos de Volta!

Olá a todos! Depois de um longo hiato, Panorama do Cinema está de volta! Esta ausência deveu-se a motivos pessoais que impediram a continuidade do trabalho. Mas, agora estamos de volta no melhor estilo "a volta dos que não foram", com mais de 10 anos anos nas costas e com novidades. Vocês já devem ter reparado que a página teve uma "turbinada" que inclui este editorial, o vídeo de boas vindas feito com a Inteligência Artificial (IA) e atualizações das redes sociais e, em breve, novas edições de podcasts. Como estamos em plena Copa do Mundo, iniciamos o nosso retorno com posts sobre futebol tais como a Série Especial "Filmes sobre futebol para assistir antes da Copa do Mundo acabar" e a matéria "Veja os criativos, divertidos e irados animes e vídeos de IA da Copa do Mundo". Mas, não nos limitaremos apenas à paixão nacional. Logo voltaremos com mais artigos, matérias e críticas de filmes, que são a razão de ser deste espaço. E, neste retorno, nos comprometemos a fazer, pelo menos, um texto por mês. Não deu para não notar que, apesar da longa ausência, vocês nunca deixaram de nos visitar e ver nossos textos publicados anteriormente. Panorama do Cinema se comove e agradece de todo o coração pela sua fidelidade e gentileza. Panorama do Cinema espera que vocês apreciem esta nova fase e que continuem a nos visitar sempre. Boas leituras e boa diversão!
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sexta-feira, 6 de novembro de 2020

Crítica: Transtorno Explosivo | A Menina-Hulk


Benni (a atriz-mirim Helena Zengel, de Die Tochter) tem nove anos e sofre de uma doença que a faz ter grandes ataques de raiva - o que leva-a a agredir todos ao seu redor - a ponto de sua mãe, Bianca (Lisa Hagmeister, de Counterpart: Mundo Paralelo), ter medo de viver com ela, o que faz com que Benni passe por diversos tratamentos médicos e por vários lares adotivos, mas ela insiste em viver com a mãe. Sua assistente social, Sra. Bafané (Gabriela Maria Schmeide, de Henrique IV, o Grande Rei da França), faz todo o possível para ajudar a menina a viver novamente com sua mãe ou em um lar adotivo que aceite-a. O acompanhante escolar de Benni, Michael, apelidado Misha (Albrecht Schuch, de Berlin Alexanderplatz), é especializado em tratar de jovens delinquentes e tenta ajudar a criança levando-a para passar um tempo em uma cabana no campo.

O Transtorno Explosivo Intermitente (cuja sigla é TEI) é uma doença mental na qual uma pessoa, por pouca ou nenhuma razão aparente, tenha ataques de raiva imensos agredindo outras pessoas verbalmente, fisicamente ou de ambas as formas. Até o momento, a medicina não sabe com exatidão o que origina o TEI. O tratamento consiste de medicamentos apropriados e psicoterapia e quanto antes o problema for diagnosticado, melhor. Infelizmente, aqueles que sofrem de TEI geralmente procuram tratamento quando suas vidas familiar e profissional já estão arruinadas e/ou quando respondem a processos judiciais. O TEI é popularmente conhecido como “Síndrome do Hulk”, personagem de histórias em quadrinhos da Marvel conhecido por ter problemas em lidar com sua raiva. E, antes que algum engraçadinho de plantão pergunte, quem sofre de TEI não fica verde.

Nos últimos cinco anos, o cinema alemão passa por excelente fase com filmes que são sucesso de público e crítica tendo, inclusive, ganho o Prêmio da Crítica do Festival de Cannes com Toni Erdman (2016), que também foi indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro (que agora chama-se Melhor Filme Internacional). Transtorno Explosivo confirma essa fase e, com justiça, foi premiado em vários festivais de cinema dos quais participou. Em 2019, recebeu o Prêmio de Contribuição Artística do prestigioso Festival de Berlim e o Prêmio do Júri de Melhor Filme na 43ª Mostra de Cinema de São Paulo. Em 2020, Transtorno Explosivo foi consagrado na sua Alemanha natal com oito vitórias no festival Prêmios do Cinema Alemão, o mais importante do país: Melhor Filme, Diretor (Fingsheid), Atriz (Zegel), Ator (Schuch), Atriz Coadjuvante (Schmeide), Roteiro Original, Edição, Edição de Som.

No cinema mundial, filmes sobre doenças físicas e/ou mentais tais como o estadunidense Sentimentos Que Curam (2014. Leia a crítica aqui) ou de jovens problemáticos como o francês De Cabeça Erguida (2015. Leia a crítica aqui), sempre tiveram a atenção do público, em particular do público brasileiro, que sempre assiste esses gêneros de filme com grande interesse, portanto Transtorno Explosivo é, com certeza, um filme que vai cair no gosto nacional.

A jovem e talentosa diretora Nora Fingscheid (de Boulevard’s End), que também é a autora do roteiro, fez com que todas as peças de Transtorno Explosivo encaixassem umas nas outras e funcionassem com perfeição. Sua direção é segura e precisa e faz com que as duas horas de filme fluam muitíssimo bem sem cansar o espectador. Fingscheid trata esse tema com a seriedade que merece e com emoção sem apelar para o dramalhão ou sentimentalismo apelativo. Seu trabalho com os intérpretes da película é igualmente excelente, no que é ajudada pelo ótimo elenco.

Albrecht Schuch e Gabriela Maria Schmeide estão muito bem em seus papéis de acompanhante escolar e de assistente social que tentam de todas as formas ajudar Benni e mostram que fizeram por merecer os prêmios que receberam. Gabriela, em particular, é responsável por uma das cenas mais comoventes de Transtorno Explosivo. Porém, sem dúvida alguma, é Helena Zengel a grande estrela do filme.

Helena Zengel tem apenas 12 anos de idade, mas já é uma veterana em atuação com um currículo de mais de 10 filmes para o cinema e a TV. Em Transtorno Explosivo, sua personagem, Benni, reflete com impressionante – e, por vezes, assustadora - exatidão o que é alguém que sofre de TEI. De criança fofa, engraçadinha, simpática e amorosa, passa, em um estalar de dedos, a uma criatura amedrontadora de fúria incontrolável, uma autêntica Menina-Hulk capaz de apavorar até mesmo os adultos mais experientes em lidar com crianças-problemas. Sua atuação é tão boa que chamou a atenção de Hollywood, que, sabendo que o público dos EUA ama uma criança precoce (basta lembrar de Shirley Temple e Macaulay Calkin), a escalou como protagonista principal ao lado de Tom Hanks (Forrest Gump) no Western Relatos do Mundo (2020). Se for bem guiada, Helena irá além de ser uma estrela-mirim e terá uma carreira longa e premiada tal como Jodie Foster (O Silêncio dos Inocentes) que teve um início de carreira semelhante.

Transtorno Explosivo lida muito bem com um tema difícil – como são, aliás, filmes sobre doenças e crianças e jovens raivosos. Quem for ao cinema assistir ao filme sairá da sala impressionado e alertado sobre esse problema mental, mas também consciente que viu um grande filme cujas imagens e sons ficarão sempre retidos em sua retina e memória.


FICHA TÉCNICA
  • Título Original: System Sprenger
  • Direção: Nora Fingsheid
  • Elenco: Helena Zengel (Benni), Albrecht Schuch (Misha), Gabriela Maria Schmeid (Sra. Bafané), Lisa Hagmeister (Bianca)
  • Roteiro: Nora Fingsheid
  • Música: John Gürtler
  • Fotografia: Yunus Roy Imer
  • Duração: 119 minutos
  • País: Alemanha
  • Ano: 2019
  • Lançamento comercial no Brasil: 05/11/2020

RESUMO DO FILME
Benni é uma menina de nove anos que sofre de uma doença que a faz ter terríveis ataques de raiva. Uma assistente social e um rapaz que trata de jovens delinquentes tentam ajudar Benni a controlar-se.

COTAÇÃO
✪✪✪✪✪

Veja abaixo o trailer oficial de Transtorno Explosivo (legendado - HD):



Publicado no AdoroCinema em 06/11/2020


#PanoramaDoCinema

#ForaBolsonaro

#BolsonaroOut


quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Crítica: A Esposa | A Hora e a Vez da Mulher Invisível


O ex-beatle John Lennon (1940-1980), em uma das várias entrevistas concedidas após a dissolução do grupo, disse que "Há sempre uma grande mulher atrás de cada idiota". Ao conhecer sua segunda esposa, a japonesa Yoko Ono (1933- ), o próprio John reconheceu que tornou-se mais feminista, pois Yoko abriu-lhe os olhos quanto ao machismo e a opressão que as mulheres sofrem em nossa sociedade até os dias de hoje, mesmo com as muitas conquistas obtidas por elas. Esse feminismo de Lennon está refletido na canção de autoria do casal, Woman is The Nigger of The World (A Mulher é o Negro do Mundo).

Em um daqueles casos no qual a vida imita a arte, a frase de Lennon pode ser encaixada na premissa d' A Esposa.

Joan Castleman (Glenn Close, de Ligações Perigosas) é a esposa do afamado escritor Joe Castleman (Jonathan Pryce, da franquia Piratas do Caribe), que foi indicado ao Prêmio Nobel de Literatura. Joseph conquista o prêmio e ele, Joan e o filho, David (Max Irons, de Colheita Amarga - Veja a crítica aqui), viajam para a capital da Suécia, Estocolmo, para receber o prêmio. No mesmo avião, segue o jornalista Nathaniel Bone (Christian Slater, de Jovens Demais Para Morrer) que insiste em escrever uma biografia de Joseph. Ao chegarem ao seu destino, vários fatos que lá ocorrem fazem com que Joan comece a questionar e repensar a sua vida com Joseph desde quando conheceram-se até aquele momento.

Baseado no romance da escritora Meg Wolitzer, A Esposa é uma produção independente que retrata um tema ainda muito em voga nos tempos atuais: a mulher posta em situação de inferioridade em relação ao homem independente de sua cor, raça, credo, origem, condição intelectual, social e/ou financeira.

Uma cena que retrata bem esse tema é quando a jovem Joan (Annie Starke, de A Beira do Abismo) vai pedir conselhos com a escritora Elaine Mozell (Elizabeth McGovern, da série Downton Abbey) e esta a desencoraja,  pois, mesmo sendo ela mesma uma autora talentosa, respeitada e de opiniões firmes, foi posta em um patamar abaixo dos autores masculinos.

O diretor sueco Björn Runge é pouco conhecido fora de sua terra natal, mas tem uma sólida carreira tanto no cinema quanto na TV locais. Chamou atenção ao conquistar o prêmio "Blue Angel" no Festival de Berlim, em 2003, com o filme Ao Romper do Dia. A Esposa é a sua primeira produção internacional de destaque na qual trabalha com grandes astros e estrelas (embora já tenha feito vários filmes com a sua conterrânea Pernilla August, da saga Star Wars).

Runge tem uma mão experiente e segura em seu trabalho de direção e faz o filme fluir bem, inclusive na transição para as cenas de flashback. A Estocolmo que mostra ao público é bela e fria, mas não de uma frieza indiferente, mas que envolve e toca as emoções. Nisso é ajudado pela bonita fotografia de Ulf Brantas (de Nós Somos as Melhores!).

Ainda que sem nenhuma intenção deliberada, Runge insere o feminismo de John Lennon na trama para que todos - em particular os homens - possam tanto acompanhar como compreender o sacrifício e a submissão de Joan a Joe desde que esse era um jovem professor universitário (vivido por Harry Lloyd, da série Game of Thrones).

No início, Joan nos passa a impressão que é um mulher  tímida e decididamente caseira, dedicada ao lar, os filhos, o marido ("Já tomou o seu remédio?") o qual, com sua personalidade dominadora, sempre a deixa sob sua sombra, como uma medíocre "mulher invisível". 

Porém, à medida que o filme corre, pode-se perceber que Joan é realmente tímida, mas não é "invísivel" ou medíocre - embora pareça assim aos parentes e amigos. É muito inteligente e tem tanta nobreza dentro de si que está disposta a fazer os maiores sacrifícios, o que incluía uma possível carreira brilhante como escritora em sua juventude, para apoiar a do marido. Por amor, fica submissa.

Joe é o idiota ao qual se referia Lennon. Carreirista, mulherengo, cínico e ganancioso, é o perfeito estereótipo do macho bobo que, com sua dominação sobre a mulher aliado ao seu carisma pessoal, consegue disfarçar seus defeitos de caráter e adquirir fama, mas, no fundo, sabe que ele é o medíocre ao invés de Joan.

Seu domínio tirânico atinge igualmente o filho, David que, apesar de estar a par de como o pai trata a ele e a mãe, quer desesperadamente seu amor e aprovação para que, assim, possa libertar-se da dominação paterna e ter sua própria vida e carreira.

Max Irons é daqueles atores que vão melhorando a cada filme e, em um curioso paralelo com seu personagem, deixa gradativamente de ser o filho de Jeremy Irons (Liga da Justiça) para ser um astro com brilho próprio. O mesmo vale para Annie Starke que - para aqueles que ainda não sabem - é filha de Glenn Close, e para Harry Lloyd, tetraneto (!) do escritor Charles Dickens (1812-1870).


Não é a primeira vez que Christian Slater interpreta um jornalista (fez um papel semelhante em Entrevista Com o Vampiro) que, aqui, é também uma mistura de biógrafo com paparazzo, doido para descobrir algum "podre" da família Castleman e incluí-lo no livro que quer escrever sobre Joe. Ele também é a ponte que leva o público a descobrir o segredo de Joe e Joan.

O inglês Jonathan Pryce foi uma ótima escolha para interpretar Joe Castleman. Mesmo fazendo bem o sotaque estadunidense (Joe é dessa nacionalidade), mantém a fleuma britânica, o que dá um toque blasé que aumenta a autenticidade do personagem interpretado.

Afinal, mas não por último, temos Glenn Close.

Atriz versátil e extremamente talentosa que interpreta com a mesma convicção personagens tão díspares como a psicopata sexy Alex Forrest, de Atração Fatal (1987); a rainha Gertrude, em Hamlet (1990); a primeira-dama dos EUA Marsha Dale, em Marte Ataca! (1996); e traveste-se em homem no filme Albert Nobbs (2011).

Em A Esposa, Glenn está na sua maturidade e no seu auge  como mulher e atriz em um trabalho magnífico de interpretação. Na cena em que Joe faz o discurso de agradecimento do Prêmio Nobel e o dedica a Joan, Glenn, sem dizer uma única palavra, consegue transmitir emoções tão fortes e conflitantes que é difícil não ficar impressionado e comovido.

Nesse conflito de emoções podemos perceber a grandeza da mulher que durante tantos anos acompanhou e apoiou um idiota e que, finalmente, liberta-se de sua "invisibilidade" e tem a sua hora e vez.

A atuação de Glenn já lhe valeu os prêmios de melhor atriz dramática no Satellite Awards, em 2018, e o Globo de Ouro deste ano, no qual derrotou a favorita Lady Gaga, de Nasce Uma Estrela (2018).

Falta o Oscar, prêmio para o qual já foi indicada seis vezes. Desta vez virá? Ainda é preciso aguardar as indicações, mas, se Glenn for indicada, atrevo-me a dizer que ela será a grande favorita ao prêmio. Porém, o Oscar é conhecido por suas injustiças...

A Esposa é um filme que leva a várias reflexoes sobre amor, casamento, solidão, machismo como intsrumento de opressão que atinge principalmente as mulheres, mas também minorias como a comunidade LGBT, afrodescendentes e os índios; e o feminismo como instrumento de compreensão das almas das mulheres.

Nesta era das trevas a qual vivemos atualmente e sob um governo fascista que quer destruir os direitos sociais que tão arduamente foram conquistados pelo povo, A Esposa é um filme que nos dá a certeza que a opressão e a tirania, por mais tempo que durem, inevitavelmente caem e nem mesmo uma "invisibilidade" imposta pode impedir essa queda.


FICHA TÉCNICA
  • Título Original: The Wife
  • Direção: Björn Runge
  • Elenco: Glenn Close (Joan Castleman), Jonathan Pryce (Joe Castleman), Christian Slater (Nathaniel Bone), Elizabeth McGovern (Elaine Mozell), Max Irons (David Castleman), Harry Lloyd (Joe Castleman jovem), Annie Starke (Joan Castleman jovem)
  • RoteiroJane Anderson (baseado no livro de Meg Wolitzer)
  • Fotografia: Ulf Brantas
  • Duração: 100 minutos
  • Ano: 2017
  • Lançamento comercial no Brasil: 10/01/2019

RESUMO DO FILME

Joan Castleman é a esposa do escritor Joe Castleman e, quando o marido ganha o Prêmio Nobel de literatura, Joan começa a fazer um balanço de sua vida.


COTAÇÃO
✪✪✪✪½

Veja aqui o trailer oficial de A Esposa (legendado):


Publicado no AdoroCinema e no LinkedIn em 10/01/2019.

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Crítica: O Jovem Karl Marx | O Manifesto de Jovens Comunistas



A juventude é um período decisivo na formação de uma pessoa, pois é durante esse mesmo período no qual a infância já foi deixada para trás e, após o período turbulento - mas, inevitável e necessário - da adolescência, no qual tudo e todos são questionados, começa a transição para a fase adulta, que irá ocupar e dominar o restante da vida de homens e mulheres. É o amadurecimento de ideias, conceitos e atitudes acumuladas e refletidas anteriormente e se torna a bússola a ser seguida daí por diante. Os homens e mulheres que estão nesse período são chamados de jovens adultos. 

Há vários exemplos de como esses jovens adultos podem sacudir o mundo com essas mesmas atitudes, conceitos e ideias. Nos esportes, podemos citar o futebolista brasileiro Pelé, campeão mundial com apenas 17 anos de idade; na esfera musical, a banda de Rock britânica The Beatles que, ao atingirem o sucesso global e mudarem completamente a música popular, tinham uma idade média de 20 anos; e, no cinema, o cineasta estadunidense Steven Spielberg que, aos 29 anos, inaugurou a era dos "Blockbusters" ("Arrasa-Quarteirões") com o filme campeão de bilheteria e vencedor de três Oscars, Tubarão (1975).

Os exemplos se estendem à política, sociologia, filosofia e economia com a publicação d' O Manifesto do Partido Comunista, de autoria do então jovem alemão Karl Marx (1818-1883) e do igualmente alemão e jovem Friedrich Engels (1820-1895). É sobre esses jovens adultos germânicos que o filme O Jovem Karl Marx irá contar. 

Karl Marx (o alemão August Diehl, de Trem Noturno para Lisboa) é um jovem jornalista de 26 anos que trabalha para o jornal Gazeta Renana que, devido aos seus incisivos artigos contra o governo da então Prússia (que, posteriormente, integraria a Alemanha), é preso pelas autoridades e exilado em Paris junto com a sua esposa, Jenny  von Westphalen (a atriz de Luxemburgo, Vicky Krieps, de Amor e Revolução). 

Friedrich Engels (o também alemão Stefan Konarske, de Valerian e a Cidade dos Mil Planetas), de 24 anos, é o filho de um rico industrial e reside na cidade de Manchester, Inglaterra, onde também está a fábrica de seu pai. Friedrich está impressionado com a miséria em que vivem os operários e não concorda com o modo como são tratados pelos patrões, principalmente quando uma operária irlandesa, Mary Burns (a britânica Hannah Steele, de O Destino de Uma Nação), é demitida por protestar contra esses mal tratos. Friedrich vai a procura de Mary para pedir ajuda para um livro que está escrevendo e nasce um romance entre ambos.

Engels vai a Paris e lá conhece Marx, com quem tem uma afinidade intelectual imediata. A partir daí, nasce uma grande amizade e ambos irão, com todas as suas forças, dedicarem-se à causa dos trabalhadores explorados pelos ricos e na construção do movimento comunista internacional.

Durante a ditadura militar que tiranizou e infernizou o Brasil por mais de 20 anos, Karl Marx e Friedrich Engels eram vistos pelos militares como dois demônios comunistas, enquanto a oposição os via como duas figuras míticas - o jornalista, escritor e político Fernando Gabeira chegou a dizer uma vez que Marx era "como Papai Noel". Seu livros eram terminantemente proibidos e, simultaneamente, avidamente procurados.  

Foi nessa época - eu tinha por volta de 15 anos - que tive meu primeiro contato com uma obra de Marx. Um colega de escola, com muita coragem e correndo um grande risco, trouxe para nós, da turma, vermos (escondidos, claro) nada mais nada menos que o primeiro volume de O Capital. Todo mundo ficou de queixo caído em ver o livro proibido e, como ato de desobediência civil, pedi emprestado para ler. Li a primeira página e parei. Não entendi nada.

Entretanto, a ditadura acabou, saiu pela porta dos fundos, e os livros de Marx e Engels, assim como de outros autores socialistas, deixaram de ser proibidos. Adquiri O Manifesto, li e, desta vez, entendi. Logo percebi algo: Engels e Marx não eram nem demônio, nem Papai Noel, mas dois grandes escritores intelectuais cuja obra não só resiste ao tempo como permanecem atuais, especialmente nesta época de feroz neoliberalismo econômico e político com retirada de direitos sociais e trabalhistas.

Quem for assistir O Jovem Karl Marx, deve achar que irá ver um filme panfletário, principalmente levando-se em conta que o cineasta haitiano Raoul Peck é um conhecido ativista político. Não deixa de ser verdade, pois o tom do filme é, decididamente, de esquerda. Porém, Peck teve o cuidado de não transformar a película em uma peça de propaganda de um partido e/ou governo embora seja, sem dúvida, uma obra ideológica. 

O Jovem Karl Marx procura mostrar as ideias que movimentam os personagens e como elas se aplicam na realidade cotidiana. Isso pode ser visto logo nas cenas iniciais nas quais Marx narra um conceito de propriedade enquanto, em terra alheia, camponeses pobres catam galhos de árvores do chão para usar como lenha e são punidos como criminosos ou, mais adiante, quando cita sua famosa frase "Os filósofos limitam-se a interpretar o mundo. O mais importante é transformá-lo".

Um mérito do filme é mostrar os personagens não apenas como homens e mulheres, mas, acima de tudo, como humanos, com qualidades, defeitos e manias, sem endeusá-los nem endemoniá-los. Eu mesmo fiquei surpreso ao constatar que Engels e Marx eram apreciadores de um bom charuto, algo que, de fato, não sabia.

Outro mérito do filme é o de dar a Friedrich Engels o seu devido valor. Explico: mesmo entre alguns militantes de esquerda, Engels sempre teve um papel coadjuvante em relação a Marx. Karl era um grande gênio e Friedrich, o seu amigo, mas pouco além disso, o que é uma grande injustiça. 

O filme demonstra que a influência de Engels sobre Marx foi decisiva tal como é visto na cena na qual aconselha o amigo a estudar os grandes economistas ingleses como, por exemplo, David Ricardo (1772-1823). E sempre vale a pena lembrar que Engels também é o autor de grandes obras econômicas, políticas e filosóficas tais como Do Socialismo Utópico ao Socialismo Científico (1880); A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado (1884), e A Situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra (1845), que foi o livro que chamou a atenção de Marx - que o considerava um trabalho colossal - sobre seu amigo mais novo.

Mais um mérito do filme: o de mostrar as contradições e injustiças do sistema capitalista e a hipocrisia da classe burguesa para com o proletariado sem nenhum tipo de moralismo vulgar e barato. Uma cena que demonstra isso é quando Marx e Engels discutem com um típico industrial inglês sobre o trabalho de crianças nas fábricas. Logo percebe-se que qualquer semelhança daquela época com os dias de hoje, seja com crianças ou adultos, não é mera coincidência... 

E, além disso há a ingenuidade e arrogância dos socialistas utópicos e anarquistas, tendo estes como seu principal nome Pierre Proudhon (o francês Olivier Gourmet, de O Filho), que, ao invés de fazerem análises e estudos científicos da política e economia, ficam a construir castelos no ar.  

Raoul Peck tornou-se conhecido pelo grande público na cerimônia do Oscar deste ano, com o seu filme Eu Não Sou Seu Negro (2016), sobre o escritor negro estadunidense James Baldwin (1924-1987), que concorreu ao prêmio de Melhor Documentário. Mas, sua carreira em filmes para o cinema e a TV já tem quase 40 anos, com conquista de prêmios em vários festivais de cinema ao redor do mundo. 

Outros trabalhos seus que se destacam são Lumumba (2000), sobre o ex-primeiro-ministro e líder da independência da República do Congo (atualmente República Democrática do Congo), Patrice Lumumba (1925-1961); e Abril Sangrento (2005), filme feito para o canal de TV a cabo HBO sobre o genocídio em Ruanda, com Idris Elba (Thor: Ragnarok) e Debra Winger (Laços de Ternura) no elenco.

Peck tem uma direção firme e segura, principalmente na direção de atores, conforme veremos mais adiante. É um grande cineasta político e de denúncias ao nível de um Costa-Gavras (Desaparecido, Um Grande Mistério. Veja aqui uma entrevista dele). Porém ainda tem a mão um pouco dura para o humor como, por exemplo, em uma cena em que Marx, com pouco dinheiro, vai comprar charutos baratos. Poderia ter feito algo mais engraçado. Mas, apesar disso, para mim, é uma questão de tempo Peck ser, no mínimo, indicado ao Oscar de Melhor Diretor.

O elenco de O Jovem Karl Marx está particularmente muito bem na fita.

August Diehl tem uma ótima atuação como Marx e o interpreta tal como as pessoas imaginam que o Revolucionário era: polemista implacável, em particular com Proudhon, mas um marido e pai amoroso, com um grande senso de honra (se incomoda em ficar pedindo dinheiro emprestado); bem humorado e bastante sarcástico. Alguns críticos de cinema disseram que é uma visão estereotipada, mas quem ler uma de suas obras como, por exemplo Crítica ao Programa de Gotha (1875), ficará surpreso em ver esse sarcasmo em um texto político.

Stefan Konarske tem a sua carreira mais centrada na televisão alemã, principalmente em séries. No cinema, é um nome ainda novo (O Jovem Karl Marx é o seu terceiro filme), mas tem a postura de um veterano. Sua atuação está no mesmo nível de Diehl, e interpreta um Engels altruísta, irônico, romântico, mas tão Revolucionário quanto Marx. O entrosamento dos dois atores é simplesmente perfeito, tal como era o de Marx e Engels.

Vicky Krieps e Hannah Steele estão igualmente ótimas como Jenny  e Mary, as esposas de Karl e Friedrich. Ambas convencem na sua interpretação de mulheres de personalidade, nada  caseiras, insubmissas e emancipadas (algo inimaginável no século XIX), com Jenny sendo mais refinada devido a sua educação aristocrática, enquanto Mary já é mais dura por causa de sua vida como proletária. Mas, são os opostos que se atraem tanto na amizade das duas quanto no casamento com seus respectivos maridos. Mérito das intérpretes.

Sou de opinião que o filme deveria se chamar Os Jovens Karl Marx e Friedrich Engels, visto que é impossível falar de um sem falar de outro. E flui tão bem na tela que mal se sente o tempo passar. Talvez não devesse focar apenas na juventude dos personagens, deveria ter ido além, até a velhice. Vai ver não havia capital suficiente...

O Jovem Karl Marx é falado em inglês, francês e alemão, para atingir os principais pólos de cinema do mundo e, além do mais, o uso desses idiomas dá um caráter internacionalista ao filme.

A perfeita reprodução de época aliada à bela fotografia do alemão Kolja Brandt (Hector e a Procura da Felicidade) e a grandiosa trilha sonora do russo Alexei Aigui (Algo de Bom), fazem de O Jovem Karl Marx um espetáculo de primeiríssima linha, tanto que já começa a colher os frutos de sua produção impecável. 

O filme teve sua Première Mundial no prestigioso Festival de Berlim (exibido fora de competição). Na França, conquistou os prêmios de Melhor Filme e Melhor Roteiro (de autoria de Raoul Peck junto com Pascal Bonitzer, de Gemma Bovery) no Festival Internacional du Film de Fiction Historique, dedicado a filmes históricos; e, nos EUA,  conquistou o Grande Prêmio Founders no Festival de Traverse City, dedicado ao cinema independente, e que tem, como um de seus fundadores e atual presidente, o polêmico e genial cineasta e documentarista estadunidense Michael Moore (Fahrenheit 11 de Setembro). 

A "grande mídia" brasileira ficou meses em silêncio sobre O Jovem Karl Marx. Se não fosse por algumas pessoas que fizeram o upload do filme nas redes sociais, teria passado completamente em branco. Sete meses após o seu lançamento no exterior, foi exibido na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, e finalmente, começaram a aparecer as primeiras matérias e críticas da obra por aqui, embora fosse possível perceber uma certa má vontade. E o lançamento comercial está ocorrendo somente agora, prestes a entrarmos em 2018! 

Boicote? Se lembrarmos que o que ocorreu com o grande filme brasileiro Aquarius, preterido pelo atual governo brasileiro - tido por milhões de pessoas como golpista - para ser o candidato do país ao Oscar de Filme Estrangeiro devido ao protesto de equipe e elenco contra o impeachment de Dilma Rouseff durante o Festival de Cannes de 2016, não é uma ideia descabida.  

O Jovem Karl Marx é um filme muito bom, esclarecedor, desmistificador, necessário, inspirador e que chegou na hora certa, em um momento em que grupos autodenominados "democráticos e liberais" fazem  campanha, pressão e censura contra exposições de arte; "humoristas" fazem programas de TV e filmes para o cinema com piadas de mau gosto, racistas, homofóbicas, misóginas, gordofóbicas e, quem não gosta ou não concorda, deve ser "enquadrado"; igrejas "cristãs" com tolerância zero para quem ousa ter outra crença; e "reformas" educacionais, trabalhistas e previdenciárias que reduzem as pessoas à condição de mão-de-obra barata e massa de manobra.

Tem razão Jenny quando diz no filme que felicidade requer rebelião e, numa época na qual a humanidade parece estar indo para atrás em todos os aspectos, mesmo com o grande desenvolvimento tecnológico atual, é preciso, mais do que nunca, rebelar-se contra estes tempos sombrios para se obter a felicidade de uma vida digna. E sempre vale a pena relembrar as palavras de ordem do Manifesto dos jovens comunistas Marx e Engels:


TRABALHADORES DE TODOS OS PAÍSES, UNI-VOS!


FICHA TÉCNICA
  • Título Original: Le Jeune Karl Marx
  • Direção: Raoul Peck
  • Elenco: August Diehl (Karl Marx), Stefan Konarske (Friedrich Engels), Vicky Krieps (Jenny von Westphalen), Olivier Gourmet (Pierre Proudhon), Hannah Steele (Mary Burns)
  • Roteiro: Raoul Peck e Pascal Bonitzer
  • Música: Alexei Aigui
  • Fotografia: Kolja Brandt
  • Duração: 118 minutos
  • Ano: 2017
  • Lançamento comercial no Brasil: 28/12/2017

RESUMO DO FILME
Conta a juventude de Karl Marx, período no qual ele luta para expor sua ideologia, o início de seu casamento com Jenny von Westphalen e a sua amizade com Friedrich Engels.
COTAÇÃO
              ⭐⭐⭐⭐½

Veja o trailer oficial de O Jovem Karl Marx (legendado - HD):


Publicado no LinkedIn, em 29/12/2017, e no Adoro Cinema, 03/01/2018.

domingo, 19 de junho de 2016

Michal Moore fala sobre seu novo filme, Donald Trump e UE


O polêmico e genial diretor e documentarista vencedor do Oscar e da Palma de Ouro do Festival de Cannes, o estadunidense Michael Moore (Capitalismo, Uma História de Amor), esteve recentemente em Londres, Inglaterra, para o lançamento de seu mais recente filme, Quem Vamos Invadir Agora?, que, recentemente, ganhou o Prêmio do Público de Melhor documentário no Festival Internacional de Cinema de Chicago (EUA).

Quem Vamos Invadir Agora? fala da política de invasões dos EUA a vários países nos últimos anos e, por meio de uma comparação com oito países europeus e um árabe, vê os aspectos positivos de cada cultura que poderiam melhorar o estilo de vida do povo estadunidense:

“Os EUA têm sido uma força invasora nos últimos quinze anos ou mais. Porque não invadir países, de forma não violenta, para aprender algo lá fora e aplicá-lo em casa? É essa a explicação para o título do filme”, disse o cineasta durante a coletiva de imprensa.

Moore, que apoiou publicamente o candidato socialista do Partido Democrata, Bernie Sanders, para a presidência dos EUA (veja aqui), não perdeu a oportunidade para falar sobre o  candidato do Partido Republicano, o magnata Donald Trump:

“Penso que ele é exímio na utilização dos meios de comunicação e estes por seu lado não param de lhe dar atenção. Ele não é tão estúpido como parece. Devemos levá-lo a sério. A manipulação que está a acontecer e a utilização da propaganda é excelente no sentido em que ele é que sai a se beneficiar”.

Michael Moore é a favor da permanência da Grã-Bretanha na União Europeia (UE) e apelou aos britânicos para votarem pelo "sim" no referendo a ser realizado em 23 de junho próximo:

“Qual é a justificação para deixar a União Europeia? Os britânicos salvaram a Europa. A UE existe em larga medida por causa das pessoas que se sacrificaram e sofreram nos anos 30 e 40 para salvar a Europa. Porque razão deveriam abandoná-la?”, questionou.

Após ser exibido em vários festivais de cinema (Incluindo os Festivais de Berlim e Toronto), Quem Vamos Invadir Agora? teve seu lançamento comercial em 12 de fevereiro último, no EUA. No Brasil, ainda não há uma data definida para a estreia do filme. 

Veja o trailer oficial de Quem Vamos Invadir Agora? (legendado em Português Europeu):