Bem-Vindos a Panorama do Cinema"


Panorama do Cinema dá as boas-vindas aos seu leitores e amigos por meio deste vídeo gerado pela Inteligência Artificial (IA).

 

Editorial


Estamos de Volta!

Olá a todos! Depois de um longo hiato, Panorama do Cinema está de volta! Esta ausência deveu-se a motivos pessoais que impediram a continuidade do trabalho. Mas, agora estamos de volta no melhor estilo "a volta dos que não foram", com mais de 10 anos anos nas costas e com novidades. Vocês já devem ter reparado que a página teve uma "turbinada" que inclui este editorial, o vídeo de boas vindas feito com a Inteligência Artificial (IA) e atualizações das redes sociais e, em breve, novas edições de podcasts. Como estamos em plena Copa do Mundo, iniciamos o nosso retorno com posts sobre futebol tais como a Série Especial "Filmes sobre futebol para assistir antes da Copa do Mundo acabar" e a matéria "Veja os criativos, divertidos e irados animes e vídeos de IA da Copa do Mundo". Mas, não nos limitaremos apenas à paixão nacional. Logo voltaremos com mais artigos, matérias e críticas de filmes, que são a razão de ser deste espaço. E, neste retorno, nos comprometemos a fazer, pelo menos, um texto por mês. Não deu para não notar que, apesar da longa ausência, vocês nunca deixaram de nos visitar e ver nossos textos publicados anteriormente. Panorama do Cinema se comove e agradece de todo o coração pela sua fidelidade e gentileza. Panorama do Cinema espera que vocês apreciem esta nova fase e que continuem a nos visitar sempre. Boas leituras e boa diversão!
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sábado, 3 de dezembro de 2016

Homenagem à Chapecoense | Filmes de Futebol


O trágico acidente aéreo do voo 2933 da companhia aérea Lamia ocorrido em Medellin, Colômbia, que vitimou os jogadores e comissão técnica da Associação Chapecoense de Futebol chocou o mundo e, particularmente, o Brasil. Infelizmente, não foi a primeira vez que algo assim ocorreu: em 1949, a equipe italiana Torino faleceu em um acidente aéreo que matou todos os seus atletas. Em homenagem às vítimas, o clube mais popular de São Paulo, o Corinthians, disputou uma partida vestindo uma camisa da cor grená, a mesma do clube do norte da Itália. Em 1958, a equipe inglesa Manchester United também sofreu uma queda de avião na qual quase todos os seus atletas morreram (um dos sobreviventes foi o supercraque Bobby Charlton que se tornaria campeão mundial pela Inglaterra na Copa do Mundo de 1966). Há outros casos semelhantes que são igualmente tristes.
A Chapecoense – ou Chape, como é carinhosamente chamada por seus torcedores e adeptos – é uma equipe fundada em 10 de maio de 1973 na pequena cidade de Chapecó, localizada no estado de Santa Catarina, no Brasil. Seus principais títulos são cinco Campeonatos Catarinenses (em 1977, 1996, 2007, 2011, 2016) e um vice-campeonato no Campeonato Brasileiro da Série B (2013). Foi o primeiro time catarinense a se classificar para disputar uma final de uma competição internacional – a Copa Sul-Americana de 2016. Até ocorrer o acidente, era considerado um time “emergente”, com boas perspectivas de crescimento (se alguém pensou no filme Quero Ser Grande, tenha certeza que não é mera coincidência).
A tragédia provocou comoção planetária. No Brasil, foi decretado luto oficial de três dias. A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) paralisou e adiou a final da Copa do Brasil e a última rodada do Campeonato Brasileiro. Em um ato de solidariedade, equipes do Brasil, Argentina e Paraguai ofereceram-se para emprestar jogadores à Chapecoense sem nenhum custo. Os times brasileiros pediram à CBF que, devido ao ocorrido, que a equipe catarinense não seja rebaixada para divisões inferiores pelos próximos três anos. E, em um ato de grande generosidade, o adversário da Chapecoense na final da Copa Sul-Americana, o time colombiano Atlético Nacional, fez um pedido oficial à Confederação Sul-Americana de Futebol (CONMEBOL) para que o time de Chapecó seja declarado o campeão da competição deste ano.
Panorama do Cinema envia seus mais sinceros pêsames aos familiares de todas as vítimas e fez uma seleção de filmes de vários países sobre futebol a qual é dedicada, como uma singela homenagem, aos jogadores e comissão técnica da Chapecoense e demais passageiros que pereceram no acidente. Que descansem em Paz.
Antes de ver a seleção de filmes, assista aqui um vídeo com os gols de uma das últimas partidas da Chapecoense: o primeiro jogo da semifinal da Copa Sul-Americana de 2016 na qual enfrentou a equipe do San Lorenzo, da Argentina (resultado final em 1x1. Narrado em português - HD):

Fuga Para a Vitória (EUA - 1981)

Em um campo de prisioneiros de guerra durante a Segunda Guerra Mundial, o ex-futebolista e general das forças alemãs, Karl Von Steiner (o sueco Max Von Sidow, de Star Wars: O Despertar da Força), propõe a um prisioneiro, o capitão britânico John Colby (o inglês Michael Caine, de Kingsman – Serviço Secreto), também ele um ex-jogador, realizar uma partida de futebol entre seus soldados e os outros prisioneiros. De modo relutante, Colby aceita e começa a formar a sua equipe que conta, entre outros, com o cabo Luiz Hernandez (o ex-futebolista brasileiro Pelé). O alto comando nazista que usar a partida para fazer propaganda do regime. O capitão e agente secreto dos EUA, Robert Hatch (o estadunidense Sylvester Stallone, das franquias Rocky e Rambo) quer entrar no time e aproveitar a oportunidade para ajudar os prisioneiros a fugirem.
Fuga Para a Vitória foi inspirado em um fato real: o jogo de futebol que ficou conhecido como “A Partida da Morte”. No ano de 1942, em plena guerra, os nazistas organizaram um jogo de futebol entre a equipe da Luftwaffe (a aviação militar da época), um dos melhores times das forças armadas alemãs, e o Dínamo de Kiev, principal equipe da Ucrânia que, naquele tempo, fazia parte da União Soviética (URSS). O juiz da partida era um oficial da Gestapo, a temida polícia secreta nazista.
Os jogadores do Dínamo sabiam que, se vencessem, os nazistas não os perdoariam e ajustariam as contas. Mas, decidiram, assim mesmo, jogar para ganhar. No início, os alemães, com melhor preparação física e mais bem nutridos, levaram a melhor e abriram uma vantagem de 2x0. Porém, com muita garra, raça e técnica, os valentes futebolistas soviéticos conseguiram virar o placar e vencer a partida por 3x2! A reação nazista não se fez esperar: a equipe do Dínamo de Kiev foi executada. Esses valorosos jogadores perderam a vida (com exceção de uns poucos que se salvaram por milagre), mas entraram para a história.
Além do elenco de astros, o diretor John Houston (A Honra do Poderoso Prizzi) contou também com grandes craques para a realização do filme. Além de Pelé, estavam presentes o inglês Bobby Moore (campeão mundial em 1966), o polonês Kazimierz Deyna (campeão olímpico em 1972) e o argentino Osvaldo Ardiles (campeão mundial em 1978), que ajudaram nas filmagens das cenas da bola em jogo. Embora seja considerado um trabalho menor de Houston e tenha recebido críticas mornas, Fuga Para a Vitória teve uma boa recepção por parte do público e foi indicado ao prêmio de Melhor Filme no Festival de Moscou daquele ano.
Para encerrar, uma historinha de bastidores: durante um intervalo das filmagens, o elenco decidiu disputar uma pelada. Sylvester Stallone jogava como goleiro (tal como seu personagem no filme). Pelé mandou uma “bomba” em direção ao gol. Sly defendeu, mas o chute foi tão forte que o ator teve um dos dedos deslocado!
Veja aqui o trailer de Fuga Para a Vitória (original em inglês):

Boleiros: Era Uma Vez o Futebol (Brasil - 1998)

Um grupo de amigos (composta por Adriano Stuart, Flávio Migliaccio, Rogério Cardoso, João Acaibe, Oswaldo Campozana, e César Negro) – quase todos ex-futebolistas – se reúne regularmente em um bar para beber umas cervejinhas e fazer aquilo que mais gostam: contarem, uns para os outros, histórias de futebol.
O diretor Ugo Giorgetti (de Sábado) se utilizou desse hábito muito comum em países – particularmente o Brasil - onde o futebol é um esporte popular para realizar esta produção e acertou na mosca, pois o filme é bastante divertido. Todo o mundo do futebol é mostrado: do juiz ladrão (Otávio Augusto, hilário), passando pelo pai-de-santo (André Abujamra, igualmente hilário) para curar lesões, a “Maria Chuteira” (Marisa Orth, sexy) sempre a correr atrás de jogadores, até os programas de mesa redonda nos quais os jornalistas (Claudio Curi e Serginho Leite) querem aparecer mais que os craques convidados.
Embora tenha sido considerado “paulista demais” (principalmente pelos cariocas) ao retratar equipes de São Paulo, Boleiros conquistou o Prêmio Especial do Júri no Festival de D’Amiens (França) e o prêmio de Melhor Roteiro da Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA). O filme teve uma sequência em 2006 chamada Boleiros 2: Vencedores e Vencidos.
Veja aqui o trailer de Boleiros: Era Uma Vez o Futebol (original em português):

A Copa (Butão - 1999)

Em um mosteiro budista na Índia, onde vivem monges tibetanos refugiados, um pequeno noviço fanático por futebol convence seus colegas a alugarem uma televisão para assistirem a final da Copa do Mundo de 1998.
Por esta ninguém esperava: um filme vindo do Butão, pequeno país asiático que, até então, nunca havia produzido uma película sequer. E surpreendeu a todo o mundo do cinema com um filme original, de qualidade, muito bem dirigido por Khyentse Norbu (que também é um Lama, isto é, um guia espiritual do Budismo tibetano), com boas atuações de seu elenco e roteiro bem estruturado com humor, mas sem esquecer a crítica social e política (a invasão do Tibete pela China). A Copa foi, merecidamente, um grande sucesso e, como recompensa, foi indicado para o Prêmio do Cinema Europeu de Melhor Filme Estrangeiro.
Veja aqui o trailer de A Copa (narrado e legendado em inglês):

O Milagre de Berna (Alemanha - 2003)

Alemanha, 1954. Nove anos após o fim da Segunda Guerra Mundial, o país está dividido e em reconstrução. Esse também é o ano da Copa do Mundo de Futebol, a ser realizada na Suíça. O pequeno Matthias Lubanski (Louis Klamroth) vive com sua família na cidade industrial de Essen e, como todo menino de sua idade, ama o futebol. Ele é amigo do futebolista Helmut Rahn (Sacha Gopel, de Aceleração Máxima), que foi convocado pelo técnico da seleção alemã, Josef “Sepp” Herberger (Peter Franke, de Prisioneiro do Amor) para disputar o campeonato mundial. A grande favorita para conquistar o título é a seleção da Hungria. Nesse meio tempo, o pai de Matthias, Richard (Peter Lohmeyer, de A Jovem Rainha), um ex-soldado que ficou muitos anos como prisioneiro de guerra na URSS, retorna para casa, mas tem muitas dificuldades de readaptação à vida civil. Paralelamente, Paul Ackermann (Lucas Gregorowicz, da minissérie Os Filhos da Guerra), um jornalista esportivo recém-casado com Annete (Katharina Wackernagel, de O Grupo Baader Meinhoff), é forçado a adiar sua lua-de-mel para fazer a cobertura da Copa. Annete, que nunca foi entusiasta de futebol, decide ir com ele.
Após viver o pesadelo nazista, os alemães tinham que reconstruir mais do que uma nação arrasada pela guerra, tinham também que reconstruir seu orgulho e amor-próprio. Embora já estivessem em plena recuperação econômica, foi a épica vitória na Copa do Mundo sobre os Magiares Mágicos (alcunha da seleção húngara, uma equipe que, além de ter sido campeã olímpica em 1952, não perdia uma partida há quatro anos e meio e que, na primeira fase da Copa, havia vencido a mesma Alemanha por 8x3!) que trouxe de volta esses sentimentos ao país, mostrando que não havia nada de errado em ser alemão e amar a Alemanha - mesmo estando separada em um lado capitalista e outro comunista - e foi também o pontapé inicial ao período do país conhecido como “Milagre Econômico”.
O diretor Sönke Wortmann (de A Papisa Joana) reproduziu com precisão esse momento decisivo da história alemã mostrando tanto o reerguimento das cidades (que inclui o surgimento de usinas nucleares) quanto do povo com a aparição de líderes muito diferentes dos nazistas como o capitão da seleção, Fritz Walter (interpretado por Knut Hartwig, em sua estreia no cinema), que comandava pelo exemplo ao invés da força. As cenas de jogo são muito bem filmadas e bastante emocionantes, provavelmente, as melhores do tipo já feitas pelo cinema.
O Milagre de Berna conquistou o Deutscher Filmpreis (principal premiação de cinema da Alemanha) de Filme Alemão do Ano, entre outros prêmios, e mostrou que o milagre do futebol também pode ser o milagre da vida.
Veja aqui o trailer de O Milagre de Berna (original em alemão):

Um Time Show de Bola (Argentina - 2013)

Amadeo é um menino que mora em uma pequena cidade do interior e gosta de sua amiga Laura. Amadeo é “fera” no pebolim e vence, de virada, uma partida contra seu rival, Ezequiel, que é um bom futebolista. Furioso, Ezequiel deixa a cidade e retorna anos depois, já como um craque consagrado, para construir um mega-estádio de futebol no local e, para isso, terá que demolir todas as construções. Amadeo tenta impedir e é desafiado por Ezequiel para um jogo de futebol no qual o vencedor ganha tudo. Para vencer seu adversário, Amadeo terá ajuda dos bonequinhos de pebolim, que ganharam vida.
O diretor Juan José Campanella (de O Segredo de Seus Olhos) se inspirou no conto Memorias de Un Wing Derecho (Memórias de Um Ponta-Direita, em tradução livre), do escritor Roberto Fontanarrosa e se utilizou de duas paixões populares neste desenho animado argentino produzido junto com a Espanha: o futebol e sua versão de mesa, o pebolim (Metegol, em espanhol, que também é o nome original do filme). Os Hermanos fizeram uma animação competente e divertida com os bonecos de pebolim caracterizados como jogadores de verdade, cada um com sua respectiva personalidade (o capitão mandão, o vaidoso, etc.).
Um Time Show de Bola foi um grande sucesso de bilheteria na Argentina – também foi bem no Brasil – e conquistou o Prêmio Goya (o Oscar espanhol) de Melhor Filme de Animação e o Prêmio Sur (o Oscar argentino) de Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Fotografia, Melhor Canção e Melhor Som.
Veja aqui o trailer de Um Time Show de Bola (dublado):


ESTE TEXTO É DEDICADO AOS JOGADORES E COMISSÃO TÉCNICA DA ASSOCIAÇÃO CHAPECOENSE DE FUTEBOL E DEMAIS PASSAGEIROS DO VOO 2933 DA LAMIA PARA MEDELLIN, COLÔMBIA, FALECIDOS EM 29/11/2016.

quarta-feira, 30 de março de 2016

Crítica: Voando Alto | Um Nerd nas Alturas


Atualizado em 28/07/2021
Em pleno século XXI as pessoas tidas como estranhas ou diferentes ainda sofrem preconceito de nossa sociedade, sendo rotuladas como idiotas, fracassadas ou incapazes. Na época atual, na qual está havendo um triste renascimento de ideologias fascistas e/ou de extrema-direita no mundo – notoriamente no Brasil – esse preconceito, infelizmente, ainda está muito alto. Entretanto, sempre há pessoas que ousam – às vezes sem se darem conta disso – desafiar esse preconceito e aqueles que o alimentam. É o que podemos ver no filme Voando Alto.
Michael Edwards, mais conhecido como Eddie Edwards (interpretado pelo galês Taron Egerton, de Kingsman – Serviço Secreto), desde criança (interpretado pelos irmãos iniciantes Tom e Jack Costello) tem o sonho de tornar-se um atleta olímpico, mesmo sendo um garoto míope, desengonçado e com problemas em seu joelho. Eddie é sempre incentivado por sua mãe, Janette (a simpática Jo Hartley, de Vingança Redentora), mas, por outro lado, é sempre desencorajado pelo seu pai, Terry (Keith Allen, de Trainspotting – Sem Limites), que prefere que o filho seja um operário da construção civil.
Tendo tentado todos os tipos de esporte, Eddie opta pelo Downhill (em português é chamado de descida livre), uma modalidade de esqui na neve. Porém, após uma apresentação desastrosa diante de patrocinadores, Eddie é cortado da equipe olímpica de esqui da Grã-Bretanha. Desolado, Eddie até pensa em desistir de ser atleta, mas ao ver uma foto de salto de esqui, muda de ideia e de modalidade e decide ir até a Alemanha para começar a treinar. Lá, encontra o ex-atleta da equipe olímpica de esqui dos EUA, Bronson Peary (o australiano Hugh Jackman, de Os Miseráveis), que, agora, ganha a vida limpando pistas de esqui e é alcoólatra.
Eddie pede a Peary que o treine para que possa competir nos Jogos Olímpicos de Inverno, mas o estadunidense recusa por não acreditar no potencial de Eddie. Porém, ao ver a determinação inabalável do jovem, mesmo este tendo recebido todo tipo de desencorajamentos e sofrido várias quedas e fraturas, Peary resolve ajudar o desastrado esquiador inglês.  Apesar da oposição e dos obstáculos impostos pelo Comitê Olímpico Britânico, Eddie consegue se classificar para as Olimpíadas de Inverno onde fará história – mas de um jeito diferente dos grandes campeões olímpicos.
Os Jogos Olímpicos de Inverno de 1988, realizados na cidade de Calgary, Canadá, sempre serão lembrados por três coisas que ocorreram durante a sua realização: foi a última vez que a União Soviética (URSS), enquanto nação, competiu; a participação pioneira da equipe de bobsled - uma espécie de trenó – da Jamaica (que foi retratada no filme Jamaica Abaixo de Zero, em 1993, e sobre a qual há uma breve menção em Voando Alto) e da também participação de Eddie Edwards, que ganhou o apelido de “The Eagle” (“A Águia”) nessa competição.
Em todos os anos – ou próximo deles - nos quais são realizados os Jogos Olímpicos, sejam de inverno ou de verão, os cinemas são inundados com filmes sobre atletas e suas façanhas. Em 2012, ano dos últimos Jogos Olímpicos de verão, realizados em Londres, foi lançado o filme britânico Fast Girls, um filme sobre atletismo que tinha à frente de seu elenco as inglesas Lenora Crichlow (série Being Human) e Lily James (Orgulho e Preconceito e Zumbis). Em 1981, outro filme da Grã-Bretanha, Carruagens de Fogo, que contava a história da equipe britânica de atletismo dos Jogos Olímpicos de 1924, conquistou quatro Oscars – inclusive o de Melhor Filme – e a música-tema composta pelo grego Vangelis ficou tão famosa que acabou por se tornar um hino extra-oficial de todas as competições olímpicas desde então.
Estes são apenas alguns exemplos, há vários outros. Mas, de um modo geral, eles transmitem as (manjadas) mensagens do tipo “nunca desista”, “vá atrás de seu sonho”, “dedique-se e vencerá”. Na maioria desse tipo de filme, aquele que transmite e personifica essa mensagem, o atleta, é ao mesmo tempo um herói e tem um aspecto igualmente heroico. Em nossa atual sociedade neoliberal (de forte parentesco com o fascismo), essa figura do atleta-herói é extremamente valorizada por ser sinônimo de vencedor e é uma apologia à chamada meritocracia (conquistar algo pelo mérito), ideologia muito apreciada pelos coxinhas sejam estes atletas ou não. 

O verdadeiro Eddie "A Águia" Edwards

Eddie Edwards é mais parecido com um nerd, é um quatro-olhos troncudo, com uma aparência nem um pouco heroica, é o tipo de pessoa pela qual ninguém daria nada e que os coxinhas desprezam. Em outras palavras, Eddie é um anti-herói e é aí que está a grande sacada do filme.
Dá para acreditar que alguém como Eddie, um esquisitão desengonçado e atrapalhado, possa fazer algo de relevante?  O próprio público do cinema tampouco acredita nisso ao tomar contato com ele, mas, no decorrer do filme, este mesmo público percebe que, sim, este sujeito diferente e estranho, por quem ninguém tem a menor consideração, pode, por si só, fazer a diferença, mesmo que de um modo heterodoxo, completamente oposto ao modo ortodoxo do atleta-herói dos coxinhas.
O britânico Dexter Fletcher iniciou sua longa carreira de ator ainda na infância (sua estreia foi em Bugsy Malone – Quando As Metralhadoras Cospem, do diretor Alan Parker, em 1976). Sua estreia na direção deu-se em 2011 com o drama Wild Bill, que foi bem recebido pela crítica inglesa. Voando Alto é o seu terceiro filme e Fletcher mostra que tem uma mão firme e uma direção muito segura. Fletcher consegue com maestria associar o filme com o treinamento de Eddie: a princípio, parece que não vai dar em nada, mas à medida que o filme avança, o progresso deste é o progresso de Eddie, que melhora a cada momento até chegar ao seu ápice.
O jovem ator do País de Gales, Taron Egerton, é um astro em ascensão na Grã-Bretanha. Sua carreira é curta, mas de sucesso: começou em 2013, na televisão (nas séries Lewis e The Smoke), e explodiu em 2015 com o filme Kingsman: Serviço Secreto, o sucesso-surpresa daquele ano. Sua atuação lhe valeu o prêmio da prestigiosa revista de cinema Empire de Melhor Ator Novo.
Em Voando Alto, ele mostra que é, de fato, um ator muito competente. De objeto de desejo das adolescentes em Kingsman, ele passa a objeto de repulsa das mesmas, pois Eddie Edwards não é exatamente alguém atraente. Mas o trabalho de Egerton vai além da aparência obtida com figurino, penteado e maquiagem: ele pegou com perfeição todos os trejeitos e maneirismos do verdadeiro Eddie Edwards e, apesar de toda a esquisitice do personagem, faz com que a plateia torça loucamente por ele.
Hugh Jackman já é há muito tempo um ator consagrado, com atuações sempre boas e convincentes. Em Voando Alto, Hugh tem mais uma boa performance como o alcoólatra, cínico e amargurado Bronson Peary, inclusive com boas cenas de humor. Porém, apesar de seu bom trabalho, dá para perceber que Hugh ainda leva neste filme muitas características de seu personagem mais icônico, Wolverine: a barba por fazer, o gosto por uma boa cerveja – que toma em demasia - e o (mau) hábito de fumar. Será que na vida real Jackman fuma tanto assim?

 Bronson Peary (Hugh Jackman) e Eddie Edwards (Taron Egerton)

O veterano Christopher Walken tem uma pequena, mas importante, participação em Voando Alto como Warren Sharp, o ex-técnico de Bronson Peary. Com uma aparência bem envelhecida, o personagem interpretado por Walken consegue transmitir ao público tanto a fragilidade de sua saúde física quanto da sua saúde emocional, devido à decepção tida com seu antigo pupilo.
A fotografia de George Richmond é muito boa, principalmente ao mostrar as lindíssimas paisagens das montanhas nevadas da Áustria e da Alemanha, onde parte do filme foi feito. Já a música de Matthew Margeson não tem nada demais, embora não seja ruim. Isso é compensado pelas canções da época que são tocadas, com destaque para Jump (saltar ou pular, em inglês), da banda de Hard Rock estadunidense Van Halen.
Eu só faço três restrições a Voando Alto. A primeira é quanto às cenas de salto de esqui. Elas estão muito boas, especialmente as que foram feitas com uma câmera no capacete, mas, estranhamente, não aparecem tanto quanto deviam. Parece que Dexter Fletcher ficou com medo de por mais cenas por achar que poderia exagerar. Mas, no melhor estilo Eddie Edwards, acabou exagerando, sim, mas de modo contrário: ao invés de ser demais, foi de menos.
A segunda restrição é sobre o vestuário de Hugh Jackman no filme. Enquanto todos estão com agasalhos pesados e, mesmo assim, morrendo de frio, Hugh, frequentemente, aparece vestido apenas com uma camisa social ou, no máximo com um agasalho leve. Tem-se a impressão que os produtores fizeram isso – mostrar a boa forma do astro - numa tentativa de atrair mais público feminino. Por favor, me poupem...
A terceira restrição que faço, como os leitores de minhas críticas já devem ter percebido, é, de novo, quanto ao horrível título nacional do filme. O título original em inglês é “Eddie, The Eagle”, que significa, literalmente, “Eddie, a Águia”. Porém, nossos brilhantes tradutores resolveram colocar o mesmo título de uma comédia chinfrim de 2003 estrelada por Gwyneth Paltrow (Homem de Ferro) e dirigida pelo brasileiro Bruno Barreto (Crô – O Filme). Isso vai, com certeza, causar confusão. Dá vontade de pegar esses mesmos tradutores, colocá-los no topo de uma rampa de 90 metros e empurrá-los para baixo sem os esquis.
Na vida real assim como no filme, Eddie Edwards lutava contra tudo e contra todos, mas, na maior parte das vezes, nem se tocava. Ele não ganhou nenhuma medalha nas Olimpíadas de Calgary – aliás, ficou em último lugar nas duas categorias nas quais competiu. Porém, pouquíssimos atletas encarnaram o ideal olímpico tão bem como ele. Isso leva a um dos méritos de Voando Alto, que é a sua mensagem edificante: para vencer não é necessário chegar em primeiro lugar ou conquistar uma medalha. Se acreditar em si mesmo e fizer o seu melhor, já será uma vitória e o reconhecimento, inevitavelmente, virá.
Voando Alto será um candidato ao Oscar? É cedo para dizer, mas eu acho muito difícil. Embora tenha a distribuição de grandes estúdios como a Fox e a Lionsgate, esta é uma produção independente. Sua premiére se deu no Festival de Sundance, o maior festival do cinema independente do mundo. E o seu primeiro prêmio foi conquistado em outro festival independente realizado nos EUA, o Heartland Film. Voando Alto conquistou o prêmio de Melhor Filme baseados em fatos reais dividido com Horas Decisivas (veja a crítica aqui).
  Voando Alto é daqueles filmes que conquistam corações e mentes, tal como seu protagonista. O seu exemplo sempre irá remeter ao já citado ideal olímpico. Para aqueles que não sabem, ele é assim:
“O mais importante nos Jogos Olímpicos não é vencer, mas competir. O mais importante na vida não é conquistar, mas lutar com dignidade”.
Nesta época em que vivemos, na qual vencer, conquistar e derrotar o “outro” (diferente em aparência, modo, crença, pensamento), seja nos esportes, negócios e/ou política, é tudo, este ideal olímpico está mais atual e é mais necessário do que nunca.

P.S.: No Brasil são poucos os que sabem, mas essas Olimpíadas de Inverno foram registradas no documentário oficial do Comitê Olímpico Internacional (COI) chamado Calgary’ 88 – 16 Days of Glory (Calgary’ 88 – 16 Dias de Glória), e que tem a direção do premiado documentarista esportivo estadunidense Bud Greenspan (Wilma). Esse documentário de mais de três horas de duração pode ser encontrado na íntegra no site de vídeos YouTube

FICHA TÉCNICA
  • Título Original: Eddie, The Eagle
  • Direção: Dexter Fletcher
  • Elenco: Taron Egerton (Eddie Edwards), Hugh Jackman (Bronson Peary), Christopher Walken (Warren Sharp)
  • Música: Matthew Margeson
  • Fotografia: George Richmond
  • Duração: 105 minutos
  • Ano: 2016

RESUMO DO FILME

Baseado na história real do inglês Eddie “A Águia” Edwards, representante da Grã-Bretanha no salto em esquis nos Jogos Olímpicos de Inverno de 1988.

COTAÇÃO
✪✪✪✪½


ESTE TEXTO É RESPEITOSAMENTE DEDICADO À MEMÓRIA DE RUBENS EWALD FILHO (1945-2019).
           

Veja aqui um dos saltos do verdadeiro Eddie “A Águia” Edwards durante os Jogos Olímpicos de Inverno de 1988 (narração em sérvio):





 Veja aqui o trailer oficial de Voando Alto (Legendado - HD):


Publicado no Observatório do Cinema e no LinkedIn, em 30/03/2016.