Bem-Vindos a Panorama do Cinema"


Panorama do Cinema dá as boas-vindas aos seu leitores e amigos por meio deste vídeo gerado pela Inteligência Artificial (IA).

 

Editorial


Estamos de Volta!

Olá a todos! Depois de um longo hiato, Panorama do Cinema está de volta! Esta ausência deveu-se a motivos pessoais que impediram a continuidade do trabalho. Mas, agora estamos de volta no melhor estilo "a volta dos que não foram", com mais de 10 anos anos nas costas e com novidades. Vocês já devem ter reparado que a página teve uma "turbinada" que inclui este editorial, o vídeo de boas vindas feito com a Inteligência Artificial (IA) e atualizações das redes sociais e, em breve, novas edições de podcasts. Como estamos em plena Copa do Mundo, iniciamos o nosso retorno com posts sobre futebol tais como a Série Especial "Filmes sobre futebol para assistir antes da Copa do Mundo acabar" e a matéria "Veja os criativos, divertidos e irados animes e vídeos de IA da Copa do Mundo". Mas, não nos limitaremos apenas à paixão nacional. Logo voltaremos com mais artigos, matérias e críticas de filmes, que são a razão de ser deste espaço. E, neste retorno, nos comprometemos a fazer, pelo menos, um texto por mês. Não deu para não notar que, apesar da longa ausência, vocês nunca deixaram de nos visitar e ver nossos textos publicados anteriormente. Panorama do Cinema se comove e agradece de todo o coração pela sua fidelidade e gentileza. Panorama do Cinema espera que vocês apreciem esta nova fase e que continuem a nos visitar sempre. Boas leituras e boa diversão!
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quarta-feira, 28 de julho de 2021

Filmes para ver durante os Jogos Olímpicos


Os Jogos Olímpicos surgiram na Antiga Grécia por volta do ano 776 a.C. na cidade de Olímpia. Os jogos eram realizados a cada quatro anos, duravam cinco dias durante os quais eram disputadas provas como corridas e lutas e eram realizados em honra de Zeus, o maior dos deuses gregos. 

Os Jogos Olímpicos continuaram a serem disputados mesmo depois da conquista da Grécia pelo Império Romano. Duraram até o ano de 393 d.C. quando o imperador romano Teodósio I, convertido ao Cristianismo, proibiu a sua realização por considerá-los uma manifestação do paganismo.

O interesse pelos Jogos Olímpicos voltaria somente no século XIX de nossa era quando um jovem aristocrata francês que também era pedagogo e historiador, viu que o interesse pelos Jogos Olímpicos aumentava à medida que eram encontradas mais ruínas arqueológicas na Grécia. 

Em um congresso realizado em Paris em 1894, o jovem propôs que se organizasse uma competição multidesportiva nos moldes dos antigos Jogos Olímpicos a serem realizadas a cada quatro anos em um país diferente. A proposta foi aceita e o local escolhido para a realização dos primeiros Jogos Olímpicos da era moderna foi o local de seu nascimento, a Grécia, no ano de 1896.

O aristocrata responsável pelo renascimento dos Jogos Olímpicos chamava-se Pierre de Frédy, mais conhecido pelo seu título de nobreza com o qual entrou para a história: Barão de Coubertin (1863-1937).

Panorama do Cinema fez, para esta época de Olimpíadas, uma seleção de filmes sobre os Jogos Olímpicos que, esperamos, acenda a chama do espírito olímpico dentro de todos nós. E como diz a famosa frase:

"O importante não é vencer, mas competir. E com dignidade"


Olympia (1938)


De todos os filmes de nossa lista Olympia é, disparado, o mais polêmico. E não é para menos, pois trata-se do documentário oficial das Olimpíadas de 1936, realizadas em Berlim, capital da Alemanha, na época governada pelo ditador nazista e maníaco Adolf Hitler (1889-1945). A direção coube à cineasta e documentarista Leni Riefenstahl (1902-2003) que, em 1935, já havia deslumbrado e assustado o mundo com outro documentário: O Triunfo da Vontade, que retratava o congresso do partido nazista em Nuremberg.

Com cerca de três horas e quarenta e cinco minutos de duração, Olympia foi dividido em duas partes: a primeira chama-se "Fest der Völker" ("Festa dos Povos") e a segunda chama-se "Fest der Schönheit" ("Festa da Beleza"). Mostrava uma novidade que tornou-se uma tradição nas Olimpíadas seguintes: a condução da tocha olímpica para acender a pira do estádio. Mostrava também uma tradição que terminou: a saudação olímpica, que assemelhava-se demais com a saudação nazista e caiu em desuso.

Olympia é um filme que inovava em vários campos: foi a primeira vez que um competição esportiva era assunto de documentário, foram usadas técnicas avançadas de cinema inovadoras para a época (que depois tornariam-se padrão) tais como uso de ângulos de câmera inusitados, trilhos de filmagens para acompanhar corpos em movimento, câmera lenta, close-ups, cortes rápidos e câmeras subaquáticas que faziam imagens embaixo d'água.

É fato largamente conhecido que os nazistas usaram as Olimpíadas para propagandear sua odiosa doutrina. Olympia até hoje é objeto de discussão se, tal como O Triunfo da Vontade, seria uma obra de propaganda nazista. Embora apareça várias vezes a imagem de Hitler assistindo as provas disputadas no estádio, Leni tomou o cuidado de dar destaque igual tanto aos atletas alemães quanto aos estrangeiros, incluindo o negro estadunidense Jesse Owens (1913-1980), que conquistou quatro medalhas de ouro.

Ficaram famosas as brigas de Leni Riefenstahl com o infame ministro da propaganda nazista, Joseph Goebbels (1897-1945), que não queria que ela filmasse os atletas negros dos EUA, principalmente Jesse Owens. Mas, Leni ficou firme e não cedeu à pressão de Goebbels, no que fez muito bem, pois o mundo merecia e devia saber que a ideologia de superioridade de raças não passava de uma grandíssima estupidez.


Assista aqui um raro trailer de Olympia:




Carruagens de Fogo (1981)


A equipe de atletismo da Grã-Bretanha prepara-se para a disputa das Olimpíadas de 1924 em Paris, França. Entre os atletas, dois destacam-se: o escocês Eric Liddel (Ian Charleson, de Gandhi) e o inglês Harold Abrahams (Ben Cross, da saga Star Trek). Cada um tem os seus motivos para competir: Liddel, um cristão devoto, corre para a glória de Deus; enquanto Abrahams, um judeu, corre para superar o preconceito.

O nome Carruagens de Fogo foi baseado em uma frase do poeta inglês William Blake (1757-1827) que diz "Traga-me a carruagem de fogo" e de versículos da Bíblia Sagrada (2 Reis 2:11 e 6:17). 

O diretor Hugh Hudson (Greystoke, a Lenda de Tarzan) tem um grande trabalho de direção que gerou várias cenas poéticas e memoráveis dentre as quais destacam-se o discurso inspirador de Eric Liddel após uma corrida para um público composto de pessoas da classe trabalhadora (o ator Ian Charleson, morto precocemente aos 40 anos pela AIDS, estudou intensamente a Bíblia para preparar-se para o papel), Liddel sendo pressionado pelo comitê olímpico britânico e pelo Príncipe da Inglaterra para correr no domingo, o que não queria fazer por razões religiosas; o monólogo de Harold Abrahams no qual duvida de si mesmo antes de disputar a final dos 100 metros rasos e, por fim, a famosíssima cena dos atletas britânicos correndo descalços na praia.

Carruagens de Fogo conquistou quatro Oscars: Melhor Filme, Roteiro Original, Figurino e Trilha Sonora, composta pelo grego Vangelis, cujo tema do filme fez um sucesso tão grande que tornou-se um hino olímpico, tanto que foi executado na cerimônia de abertura das Olimpíadas de 2012, realizadas em Londres, Inglaterra.


Veja aqui o vídeo oficial da música-tema de Carruagens de Fogo executada por Vangelis e com cenas do filme: 




Voando Alto (2016) 


Desde criança Eddie Edwards (Taron Egerton, de Rocketman) tem o sonho de ser um atleta olímpico pela Grã-Bretanha. Após tentar vários esportes, opta pelo salto em esqui para disputar os Jogos Olímpicos de Inverno de 1988 em Calgary, Canadá. O problema é essa é uma modalidade na qual os britânicos não se classificam desde 1928. Para ajudá-lo a realizar seu sonho, Eddie pede ajuda ao ex-atleta dos EUA e alcoólatra Bronson Peary (Hugh Jackman, da franquia X-Men). 

Um nerd quatro-olhos, troncudo, desengonçado e atrapalhado pode ser um herói olímpico? Voando Alto mostra que sim e também que, independente de ganhar ou não uma medalha, pode-se superar preconceitos e esteriótipos. Taron Egerton pegou todos os trejeitos e maneirismos do verdadeiro Eddie e tem uma atuação simplesmrnte ótima!

Leia a crítica completa de Voando Alto aqui.


Veja aqui o trailer oficial de Voando Alto (legendado - HD):




4x100: Correndo Por Um Sonho (2021)


Adriana (Thalita Carauta, de S.O.S. Mulheres ao Mar 2. Veja a crítica aqui) e Maria Lúcia (Fernanda de Freitas, de Malu de Bicicleta) são duas atletas que correm na equipe brasileira de 4x100 metros rasos que chegou à final dessa prova nos Jogos Olímpicos de 2016 no Rio de Janeiro e com chance de ganhar uma medalha. Porém, durante a corrida o bastão cai e a equipe perde a prova. Após os jogos, Maria Lucia continua como destaque do atletismo nacional, enquanto uma frustrada Adriana faz bicos em lutas de MMA. Entretanto, as Olimpíadas de 2020 em Tóquio, Japão, se aproximam e surge uma nova chance para as atletas conquistarem a sonhada medalha e obterem a redenção.

Dramas esportivos são muito raros no cinema brasileiro - com exceção de filmes sobre futebol - o que faz de 4x100: Correndo por um sonho, uma grata surpresa. O cineasta Tomas Portella (Qualquer Gato Vira-Lata) faz um bom trabalho de direção fugindo do padrão televisivo que costuma predominar em produções recentes de nosso cinema. Thalita Carauta dá um show de interpretação e a química com Fernanda de Freitas funciona à perfeição. 4x100: Correndo Por Um Sonho é um filme que vale a pena conhecer!


Veja aqui o trailer oficial de 4x100: Correndo Por Um Sonho (HD):



#PanoramaDoCinema

#ForaBolsonaro

#BolsonaroGenocida

quarta-feira, 29 de junho de 2016

O Legado de Bud Spencer, o Rei das Comédias de Pancadaria


Morreu 28/06/2016, aos 86 anos de idade, o ator, diretor, músico, nadador e advogado italiano Bud Spencer, famoso por seus filmes de comédia de pancadaria dentre os quais os que fez com Terence Hill. Segundo seus familiares a causa da morte foi pneumonia.
Bud Spencer nasceu com o nome de Carlo Pedersoli em 31 de outubro de 1929 em Nápoles, Itália. Aos 18 anos, em 1947, Carlo veio ao Brasil para trabalhar no consulado da Itália, em Recife, onde ficou até 1949, e aprendeu a falar português fluentemente (também falava inglês, francês, espanhol e alemão). Foi campeão de natação, tendo sido o primeiro nadador italiano a nadar os 100 metros em menos de um minuto e participou pelo seu país dos Jogos Olímpicos de 1952 (disputados em Helsinque, na Finlândia) e 1956 (Melbourne, Austrália). Também foi jogador da seleção italiana de polo aquático. Em 2005, foi homenageado pela federação italiana de natação por sua contribuição a esse esporte.
Sua carreira no cinema começou em 1949, na comédia Quel Fantasma di mio Marito. Além de filmes na Itália, participou de produções internacionais tais como Quo Vadis? (1951), Adeus Ás Armas (1957) e Aníbal, o Conquistador (1959), quando conheceu o ator Mario Girotti, que ficou conhecido como Terence Hill, e se tornaria seu grande amigo e parceiro em filmes. A partir daí Carlo começou a usar o nome artístico de Bud Spencer que, segundo ele, foi uma homenagem à sua marca de cerveja favorita, Budweiser, e ao ator estadunidense Spencer Tracy (de Adivinhe Quem Vem Para Jantar?).
Seu primeiro filme com Terence Hill foi em 1967 em Deus Perdoa… Eu, Não!, um “Western Spaghetti” (filme de faroeste de produção italiana), gênero bastante em voga naquela época. O primeiro grande sucesso do duo Hill-Spencer foi em 1970 com Meu Nome é Trinity, outro “Western Spaghetti”, mas desta vez uma comédia com cenas de grandes pancadarias, que se tornaria uma especialidade da dupla.
Os filmes feitos por Bud Spencer e Terence Hill eram produções bem baratas com roteiros muito simples – às vezes simplórios – mas com um grande apelo popular, possuíam um humor pastelão que parecia uma mistura de O Gordo & O Magro com Os Três Patetas e que rendiam bem. Dentre os filmes feitos pelos dois destacam-se Trinity Ainda é Meu Nome (1971), A Dupla Explosiva (1974), Dois Tiras Fora de Ordem (1977), Nós Jogamos Com Os Hipopótamos (1979), Quem Encontra Um Amigo, Encontra Um Tesouro (1981), Os Dois Super-Tiras em Miami (1985) e A Volta de Trinity (1994, também conhecido como Os Encrenqueiros), sendo que este foi o seu último trabalho conjunto e que teve a direção do próprio Hill. Bud e Terence realizaram mais de 20 filmes juntos.
Já entre seus filmes solo destacam-se Uma Razão Para Viver, Uma Razão Para Morrer (1972, no qual dividia os holofotes com os atores estadunidenses James Coburn e Telly Savalas), Os Anjos Também Comem Feijão (1973, quando atuou com outro grande astro do cinema italiano, Giuliano Gemma), Charleston – O Super-Vigarista (1977), Bulldozer (1978), O Xerife e o Pequeno Extraterrestre (1979), Banana Joe (1982) e Aladin (1986). 
Bud Spencer e Terence Hill eram muito populares no Brasil, tanto que, em 1984, eles realizaram um filme inteiramente em território tupiniquim chamado Eu, Você, Ele e os Outros no qual a dupla aparece em… dose dupla! O filme contava a história de dois pares de irmãos gêmeos que causam a maior confusão. E, como não poderia deixar de ser, as cenas de pancadaria se fazem presente.
Nos seus últimos anos de vida, Bud Spencer dedicou-se mais a séries e filmes feitos para a televisão. Em 2010, recebeu junto com Terence o prêmio David di Donatello, um dos mais importantes do cinema italiano, pelo conjunto de sua obra. Seu último trabalho foi o curta-metragem de animação Zoe, no qual dublava um dos personagens, e que ainda estava em processo de filmagem. Em sua carreira, Bud Spencer realizou um total de 78 filmes.
Além de ator e esportista, Bud Spencer também era advogado, músico, piloto de avião e helicóptero (chegou a ter sua própria companhia aérea) e criador de patentes. Em 2005, tentou iniciar uma carreira na política pelo partido de centro-direita Forza Italia (do polêmico empresário e ex-primeiro-ministro Silvio Berlusconi). Bud justificou o motivo dessa decisão:
Em minha vida, fiz de tudo. As únicas três coisas que não fiz foi ser bailarino, jóquei e político. Como as duas primeiras estão fora de questão, atirei-me na política”.

Entretanto, apesar de dedicar-se bastante na campanha, não foi eleito. 
Bud Spencer viveu uma vida plena e, ao partir, estava cercado de sua amada família: a esposa Maria (com quem era casado desde 1960), três filhos, cinco netos e seis bisnetos. Os cinéfilos do mundo inteiro vão sentir – e muito! - falta daquele grandalhão (tinha 1,92 m) barbudo, gorducho e bonachão que fez a delícia tanto das matinês do cinema quanto da televisão. Que ele descanse em paz.

Veja aqui uma entrevista concedida por Bud Spencer e Terence Hill no programa de TV do quarteto cômico brasileiro Os Trapalhões, em 1984:



Veja aqui, na íntegra, o filme Eu, Você, Ele e os Outros (dublado):



Publicado no LinkedIn em 29/06/2016.

quarta-feira, 30 de março de 2016

Crítica: Voando Alto | Um Nerd nas Alturas


Atualizado em 28/07/2021
Em pleno século XXI as pessoas tidas como estranhas ou diferentes ainda sofrem preconceito de nossa sociedade, sendo rotuladas como idiotas, fracassadas ou incapazes. Na época atual, na qual está havendo um triste renascimento de ideologias fascistas e/ou de extrema-direita no mundo – notoriamente no Brasil – esse preconceito, infelizmente, ainda está muito alto. Entretanto, sempre há pessoas que ousam – às vezes sem se darem conta disso – desafiar esse preconceito e aqueles que o alimentam. É o que podemos ver no filme Voando Alto.
Michael Edwards, mais conhecido como Eddie Edwards (interpretado pelo galês Taron Egerton, de Kingsman – Serviço Secreto), desde criança (interpretado pelos irmãos iniciantes Tom e Jack Costello) tem o sonho de tornar-se um atleta olímpico, mesmo sendo um garoto míope, desengonçado e com problemas em seu joelho. Eddie é sempre incentivado por sua mãe, Janette (a simpática Jo Hartley, de Vingança Redentora), mas, por outro lado, é sempre desencorajado pelo seu pai, Terry (Keith Allen, de Trainspotting – Sem Limites), que prefere que o filho seja um operário da construção civil.
Tendo tentado todos os tipos de esporte, Eddie opta pelo Downhill (em português é chamado de descida livre), uma modalidade de esqui na neve. Porém, após uma apresentação desastrosa diante de patrocinadores, Eddie é cortado da equipe olímpica de esqui da Grã-Bretanha. Desolado, Eddie até pensa em desistir de ser atleta, mas ao ver uma foto de salto de esqui, muda de ideia e de modalidade e decide ir até a Alemanha para começar a treinar. Lá, encontra o ex-atleta da equipe olímpica de esqui dos EUA, Bronson Peary (o australiano Hugh Jackman, de Os Miseráveis), que, agora, ganha a vida limpando pistas de esqui e é alcoólatra.
Eddie pede a Peary que o treine para que possa competir nos Jogos Olímpicos de Inverno, mas o estadunidense recusa por não acreditar no potencial de Eddie. Porém, ao ver a determinação inabalável do jovem, mesmo este tendo recebido todo tipo de desencorajamentos e sofrido várias quedas e fraturas, Peary resolve ajudar o desastrado esquiador inglês.  Apesar da oposição e dos obstáculos impostos pelo Comitê Olímpico Britânico, Eddie consegue se classificar para as Olimpíadas de Inverno onde fará história – mas de um jeito diferente dos grandes campeões olímpicos.
Os Jogos Olímpicos de Inverno de 1988, realizados na cidade de Calgary, Canadá, sempre serão lembrados por três coisas que ocorreram durante a sua realização: foi a última vez que a União Soviética (URSS), enquanto nação, competiu; a participação pioneira da equipe de bobsled - uma espécie de trenó – da Jamaica (que foi retratada no filme Jamaica Abaixo de Zero, em 1993, e sobre a qual há uma breve menção em Voando Alto) e da também participação de Eddie Edwards, que ganhou o apelido de “The Eagle” (“A Águia”) nessa competição.
Em todos os anos – ou próximo deles - nos quais são realizados os Jogos Olímpicos, sejam de inverno ou de verão, os cinemas são inundados com filmes sobre atletas e suas façanhas. Em 2012, ano dos últimos Jogos Olímpicos de verão, realizados em Londres, foi lançado o filme britânico Fast Girls, um filme sobre atletismo que tinha à frente de seu elenco as inglesas Lenora Crichlow (série Being Human) e Lily James (Orgulho e Preconceito e Zumbis). Em 1981, outro filme da Grã-Bretanha, Carruagens de Fogo, que contava a história da equipe britânica de atletismo dos Jogos Olímpicos de 1924, conquistou quatro Oscars – inclusive o de Melhor Filme – e a música-tema composta pelo grego Vangelis ficou tão famosa que acabou por se tornar um hino extra-oficial de todas as competições olímpicas desde então.
Estes são apenas alguns exemplos, há vários outros. Mas, de um modo geral, eles transmitem as (manjadas) mensagens do tipo “nunca desista”, “vá atrás de seu sonho”, “dedique-se e vencerá”. Na maioria desse tipo de filme, aquele que transmite e personifica essa mensagem, o atleta, é ao mesmo tempo um herói e tem um aspecto igualmente heroico. Em nossa atual sociedade neoliberal (de forte parentesco com o fascismo), essa figura do atleta-herói é extremamente valorizada por ser sinônimo de vencedor e é uma apologia à chamada meritocracia (conquistar algo pelo mérito), ideologia muito apreciada pelos coxinhas sejam estes atletas ou não. 

O verdadeiro Eddie "A Águia" Edwards

Eddie Edwards é mais parecido com um nerd, é um quatro-olhos troncudo, com uma aparência nem um pouco heroica, é o tipo de pessoa pela qual ninguém daria nada e que os coxinhas desprezam. Em outras palavras, Eddie é um anti-herói e é aí que está a grande sacada do filme.
Dá para acreditar que alguém como Eddie, um esquisitão desengonçado e atrapalhado, possa fazer algo de relevante?  O próprio público do cinema tampouco acredita nisso ao tomar contato com ele, mas, no decorrer do filme, este mesmo público percebe que, sim, este sujeito diferente e estranho, por quem ninguém tem a menor consideração, pode, por si só, fazer a diferença, mesmo que de um modo heterodoxo, completamente oposto ao modo ortodoxo do atleta-herói dos coxinhas.
O britânico Dexter Fletcher iniciou sua longa carreira de ator ainda na infância (sua estreia foi em Bugsy Malone – Quando As Metralhadoras Cospem, do diretor Alan Parker, em 1976). Sua estreia na direção deu-se em 2011 com o drama Wild Bill, que foi bem recebido pela crítica inglesa. Voando Alto é o seu terceiro filme e Fletcher mostra que tem uma mão firme e uma direção muito segura. Fletcher consegue com maestria associar o filme com o treinamento de Eddie: a princípio, parece que não vai dar em nada, mas à medida que o filme avança, o progresso deste é o progresso de Eddie, que melhora a cada momento até chegar ao seu ápice.
O jovem ator do País de Gales, Taron Egerton, é um astro em ascensão na Grã-Bretanha. Sua carreira é curta, mas de sucesso: começou em 2013, na televisão (nas séries Lewis e The Smoke), e explodiu em 2015 com o filme Kingsman: Serviço Secreto, o sucesso-surpresa daquele ano. Sua atuação lhe valeu o prêmio da prestigiosa revista de cinema Empire de Melhor Ator Novo.
Em Voando Alto, ele mostra que é, de fato, um ator muito competente. De objeto de desejo das adolescentes em Kingsman, ele passa a objeto de repulsa das mesmas, pois Eddie Edwards não é exatamente alguém atraente. Mas o trabalho de Egerton vai além da aparência obtida com figurino, penteado e maquiagem: ele pegou com perfeição todos os trejeitos e maneirismos do verdadeiro Eddie Edwards e, apesar de toda a esquisitice do personagem, faz com que a plateia torça loucamente por ele.
Hugh Jackman já é há muito tempo um ator consagrado, com atuações sempre boas e convincentes. Em Voando Alto, Hugh tem mais uma boa performance como o alcoólatra, cínico e amargurado Bronson Peary, inclusive com boas cenas de humor. Porém, apesar de seu bom trabalho, dá para perceber que Hugh ainda leva neste filme muitas características de seu personagem mais icônico, Wolverine: a barba por fazer, o gosto por uma boa cerveja – que toma em demasia - e o (mau) hábito de fumar. Será que na vida real Jackman fuma tanto assim?

 Bronson Peary (Hugh Jackman) e Eddie Edwards (Taron Egerton)

O veterano Christopher Walken tem uma pequena, mas importante, participação em Voando Alto como Warren Sharp, o ex-técnico de Bronson Peary. Com uma aparência bem envelhecida, o personagem interpretado por Walken consegue transmitir ao público tanto a fragilidade de sua saúde física quanto da sua saúde emocional, devido à decepção tida com seu antigo pupilo.
A fotografia de George Richmond é muito boa, principalmente ao mostrar as lindíssimas paisagens das montanhas nevadas da Áustria e da Alemanha, onde parte do filme foi feito. Já a música de Matthew Margeson não tem nada demais, embora não seja ruim. Isso é compensado pelas canções da época que são tocadas, com destaque para Jump (saltar ou pular, em inglês), da banda de Hard Rock estadunidense Van Halen.
Eu só faço três restrições a Voando Alto. A primeira é quanto às cenas de salto de esqui. Elas estão muito boas, especialmente as que foram feitas com uma câmera no capacete, mas, estranhamente, não aparecem tanto quanto deviam. Parece que Dexter Fletcher ficou com medo de por mais cenas por achar que poderia exagerar. Mas, no melhor estilo Eddie Edwards, acabou exagerando, sim, mas de modo contrário: ao invés de ser demais, foi de menos.
A segunda restrição é sobre o vestuário de Hugh Jackman no filme. Enquanto todos estão com agasalhos pesados e, mesmo assim, morrendo de frio, Hugh, frequentemente, aparece vestido apenas com uma camisa social ou, no máximo com um agasalho leve. Tem-se a impressão que os produtores fizeram isso – mostrar a boa forma do astro - numa tentativa de atrair mais público feminino. Por favor, me poupem...
A terceira restrição que faço, como os leitores de minhas críticas já devem ter percebido, é, de novo, quanto ao horrível título nacional do filme. O título original em inglês é “Eddie, The Eagle”, que significa, literalmente, “Eddie, a Águia”. Porém, nossos brilhantes tradutores resolveram colocar o mesmo título de uma comédia chinfrim de 2003 estrelada por Gwyneth Paltrow (Homem de Ferro) e dirigida pelo brasileiro Bruno Barreto (Crô – O Filme). Isso vai, com certeza, causar confusão. Dá vontade de pegar esses mesmos tradutores, colocá-los no topo de uma rampa de 90 metros e empurrá-los para baixo sem os esquis.
Na vida real assim como no filme, Eddie Edwards lutava contra tudo e contra todos, mas, na maior parte das vezes, nem se tocava. Ele não ganhou nenhuma medalha nas Olimpíadas de Calgary – aliás, ficou em último lugar nas duas categorias nas quais competiu. Porém, pouquíssimos atletas encarnaram o ideal olímpico tão bem como ele. Isso leva a um dos méritos de Voando Alto, que é a sua mensagem edificante: para vencer não é necessário chegar em primeiro lugar ou conquistar uma medalha. Se acreditar em si mesmo e fizer o seu melhor, já será uma vitória e o reconhecimento, inevitavelmente, virá.
Voando Alto será um candidato ao Oscar? É cedo para dizer, mas eu acho muito difícil. Embora tenha a distribuição de grandes estúdios como a Fox e a Lionsgate, esta é uma produção independente. Sua premiére se deu no Festival de Sundance, o maior festival do cinema independente do mundo. E o seu primeiro prêmio foi conquistado em outro festival independente realizado nos EUA, o Heartland Film. Voando Alto conquistou o prêmio de Melhor Filme baseados em fatos reais dividido com Horas Decisivas (veja a crítica aqui).
  Voando Alto é daqueles filmes que conquistam corações e mentes, tal como seu protagonista. O seu exemplo sempre irá remeter ao já citado ideal olímpico. Para aqueles que não sabem, ele é assim:
“O mais importante nos Jogos Olímpicos não é vencer, mas competir. O mais importante na vida não é conquistar, mas lutar com dignidade”.
Nesta época em que vivemos, na qual vencer, conquistar e derrotar o “outro” (diferente em aparência, modo, crença, pensamento), seja nos esportes, negócios e/ou política, é tudo, este ideal olímpico está mais atual e é mais necessário do que nunca.

P.S.: No Brasil são poucos os que sabem, mas essas Olimpíadas de Inverno foram registradas no documentário oficial do Comitê Olímpico Internacional (COI) chamado Calgary’ 88 – 16 Days of Glory (Calgary’ 88 – 16 Dias de Glória), e que tem a direção do premiado documentarista esportivo estadunidense Bud Greenspan (Wilma). Esse documentário de mais de três horas de duração pode ser encontrado na íntegra no site de vídeos YouTube

FICHA TÉCNICA
  • Título Original: Eddie, The Eagle
  • Direção: Dexter Fletcher
  • Elenco: Taron Egerton (Eddie Edwards), Hugh Jackman (Bronson Peary), Christopher Walken (Warren Sharp)
  • Música: Matthew Margeson
  • Fotografia: George Richmond
  • Duração: 105 minutos
  • Ano: 2016

RESUMO DO FILME

Baseado na história real do inglês Eddie “A Águia” Edwards, representante da Grã-Bretanha no salto em esquis nos Jogos Olímpicos de Inverno de 1988.

COTAÇÃO
✪✪✪✪½


ESTE TEXTO É RESPEITOSAMENTE DEDICADO À MEMÓRIA DE RUBENS EWALD FILHO (1945-2019).
           

Veja aqui um dos saltos do verdadeiro Eddie “A Águia” Edwards durante os Jogos Olímpicos de Inverno de 1988 (narração em sérvio):





 Veja aqui o trailer oficial de Voando Alto (Legendado - HD):


Publicado no Observatório do Cinema e no LinkedIn, em 30/03/2016.