Bem-Vindos a Panorama do Cinema"


Panorama do Cinema dá as boas-vindas aos seu leitores e amigos por meio deste vídeo gerado pela Inteligência Artificial (IA).

 

Editorial


Estamos de Volta!

Olá a todos! Depois de um longo hiato, Panorama do Cinema está de volta! Esta ausência deveu-se a motivos pessoais que impediram a continuidade do trabalho. Mas, agora estamos de volta no melhor estilo "a volta dos que não foram", com mais de 10 anos anos nas costas e com novidades. Vocês já devem ter reparado que a página teve uma "turbinada" que inclui este editorial, o vídeo de boas vindas feito com a Inteligência Artificial (IA) e atualizações das redes sociais e, em breve, novas edições de podcasts. Como estamos em plena Copa do Mundo, iniciamos o nosso retorno com posts sobre futebol tais como a Série Especial "Filmes sobre futebol para assistir antes da Copa do Mundo acabar" e a matéria "Veja os criativos, divertidos e irados animes e vídeos de IA da Copa do Mundo". Mas, não nos limitaremos apenas à paixão nacional. Logo voltaremos com mais artigos, matérias e críticas de filmes, que são a razão de ser deste espaço. E, neste retorno, nos comprometemos a fazer, pelo menos, um texto por mês. Não deu para não notar que, apesar da longa ausência, vocês nunca deixaram de nos visitar e ver nossos textos publicados anteriormente. Panorama do Cinema se comove e agradece de todo o coração pela sua fidelidade e gentileza. Panorama do Cinema espera que vocês apreciem esta nova fase e que continuem a nos visitar sempre. Boas leituras e boa diversão!

sábado, 26 de janeiro de 2019

Crítica: Vice | O poder do quieto



OSCAR 2019: venceu na categoria de melhor maquiagem e cabelo.

Dick Chaney (Christian Bale, de Batman, o Cavaleiro das Trevas) é um típico sulista interiorano do estado de Wyoming, EUA: passa a maior parte de seu tempo bebendo, brigando e metendo-se em confusões, mesmo sendo um tipo calado, e tem um emprego modesto. Uma noite, sua esposa, Lynne (Amy Adams, de O Homem de Aço), após tirá-lo novamente da cadeia, dá-lhe um ultimato: ou endireita-se ou ela vai embora. Dick promete endireitar-se. Ele forma-se na universidade, vai para a capital estadunidense, Washington D. C., e lá conhece Donald Rumsfeld (Steve Carell, de Agente 86), político do conservador Partido Republicano, começa a trabalhar para ele e, assim, inicia sua própria carreira na política. 

Anos depois, quando já é um político conhecido e um próspero empresário, é convidado pelo então candidato presidencial, George W. Bush (Sam Rockwell, de Três Anúncios Para Um Crime), para ser o vice-presidente de sua chapa. Dick, a princípio, recusa, mas depois aceita o convite, em um decisão que irá mudar sua vida e a história dos EUA e do mundo.

Em 2012, a consultora de negócios e escritora Susan Cain, publicou um livro de auto-ajuda - mais um entre tantos outros, mas que fez sucesso em um mercado hipersaturado - intitulado O Poder dos Quietos: Como os tímidos e introvertidos podem mudar um mundo que não para de falar (título original Quiet: The power of introverts in a world that can't stop speaking), no qual, ao contrário do que muitas pessoas crêem, pessoas reservadas, tímidas e/ou introvertidas são pessoas altamente capazes e competentes em seus afazeres, profissões e relacionamentos sociais apesar de suas características pessoais ou, como a autora afirma categoricamente, graças a elas.

No prefácio da obra, escrito pelo tambem escritor e administrador de empresas Max Gehriger, há um trecho que diz:

"O introvertido e uma pessoa sensível que sente-se confortável tendo a si mesmo como companhia. Ele quer entender o que passa-se ao seu redor, mas não sente a necessidade de alardear seus pontos de vista. Entre um filósofo em causa própria e um alienado social, ele encaixa-se perfeitamente na primeira definição, mas a arbitrariedade das convenções tende a empurra-lo para a segunda. Porque, ao buscar líderes em seus quadros, a maioria das empresas parece confundir liderança com autopromoção e exuberância. O introvertido sabe que dificilmente será o general que sai brandindo a espada a frente de suas tropas, mas tem tudo para ser o estrategista cujo plano garantirá a vitória na batalha". 

Este trecho combina a perfeição com o provérbio que aparece nos primeiros minutos de Vice e que é fundamental para a compreensão da película: 

"Cuidado com o homem quieto. Enquanto os outros falam, ele observa. Enquanto os outros agem, ele planeja. E quando os outros finalmente descansam, ele ataca". 

Vice não é o primeiro filme a tratar do governo de George W. Bush. Anteriormente houve o filme W. (2008), do cineasta Oliver Stone (Snowden: Herói ou Traidor?), com Josh Brolin (Vingadores - Guerra Infinita) à frente do elenco. Também há o documentário Fahrenheit 11 de Setembro (2004), do polêmico e genial diretor e documentarista Michael Moore, vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes.

A diferença está na ênfase dada a uma personagem tida como secundária - tanto nos filmes de Stone e Moore quanto na vida real. Dick Chaney concentrou em suas mãos um poder enorme que nenhum outro vice-presidente estadunidense teve antes nem depois dele.

Vice mostra o estilo Chaney de fazer política: cerebral, calculista, paciente, sem chamar a atenção até agir nos momentos certos e com precisão, fiel ao seu estilo quieto, reservado e introvertido. Um estilo que faz seus supostos superiores - primeiro Rumsfeld e depois Bush - serem meros peões em seu intrincado jogo de xadrez sem parecerem e sem ninguém perceber que são!

Na recente premiação do Globo de Ouro, Vice concorreu na categoria "comédia ou musical". Não acho a definição correta. Embora tenha vários momentos de humor, o filme, definitivamente, não é uma comédia. Na verdade, é um filme de difícil classificação: um drama biográfico em estilo de documentário (com narrador incluso) com tons humorísticos.

Ao assistir Vice, constantemente lembrava-me dos já citados Oliver Stone e, principalmente, Michael Moore. Mas, o diretor Adam McKay (A Grande Aposta), também autor do roteiro, não fez um pastiche desses cineastas, longe disso. McKay realizou um trabalho de direção extremamente criativo, inventivo, irônico e provocativo. Esse trabalho valeu-lhe justas indicações de melhor diretor no Globo de Ouro e no Oscar, além de uma indicação de melhor roteiro original neste último e no Bafta (o Oscar britânico).

Christian Bale engordou 40 kg para encarnar Dick Chaney. Conseguiu quebrar o recorde de Robert De Niro, que engordou 25 kg para interpretar o boxeador Jake La Motta, já decadente, no filme Touro Indomável (1980). 

Sua interpretação do ex-vice-presidente estadunidense é esplêndida. Bale consegue reproduzir com perfeição Dick Chaney em todas as suas contradições: o falso bonachão conservador sempre na dele, mas de olhos e ouvidos atentos, que usa métodos legais, ilegais e maquiavélicos para atingir seus fins. Ama sua família, mas não hesita em machucar os sentimentos da filha lésbica, Mary (Alison Pill, de Meia-noite em Paris), para auxiliar a filha mais velha, Lizzie (Lily Rabe, da série American Horror Story), que inicia sua própria carreira política.

O "desabafo" de Dick Cheney quase ao final do filme é o ponto alto da performance de Bale em Vice. Sua fala mistura cinismo com sinceridade - ele acredita piamente no que diz - e soa tão arrogante e convincente que tem todas as chances de ser daquelas cenas para entrar para a história do cinema. O Oscar deste ano tem candidatos fortíssimos ao prêmio de melhor ator, mas, para mim, Bale (que já ganhou o Globo de Ouro deste ano) ainda tem um ligeiro favoritismo.

A interpretação de Lynne Chaney por Amy Adams também mostra as contradições da segunda-dama dos EUA: uma típica mulher sulista caseira, mas de personalidade forte e tão gananciosa e maquiavélica quanto o marido. Amy está ótima no papel, mas acho difícil tirar o prêmio de melhor atriz de Glenn Close em A Esposa (veja a crítica aqui). Porém, se tirar, não será de todo injusto.

Steve Carell está seguindo o mesmo caminho trilhado por Tom Hanks (Apolo 13): transformando-se de comediante em ator sério, mas sem perder o humor. O seu Donald Rumsfeld é o anti-Chaney: arrogante, exibido, barulhento e nada discreto, em uma atuação muito boa. A continuar assim, o Oscar será uma questão de tempo.

Sam Rockwell já tem a sua estatueta e tem todas as chances de conseguir mais uma com sua interpretação de George W. Bush, o ex-bêbado bronco que nada mais é que uma marionete manipulada por Dick Chaney a seu bel-prazer.

E não podemos esquecer Jesse Plemons (Aliança do Crime), muito bom em seu papel como Kurt, que narra a toda a história e representa a classe trabalhadora estadunidense que sofre diretamente as consequências do governo Chaney, isto é, Bush, e tem uma ligação surpreendente com o vice-presidente.

Assim como nos documentários de Michael Moore, Vice também mostra as falcatruas da administração Bush - e de Chaney, em particular - além da manipulação da opinião pública pela imprensa conservadora, principalmente o canal Fox News, símbolo dessa imprensa e dessa administração. Impagável é a cena, também no final, no qual um há um debate em grupo sobre o "viés liberal" do filme e a discussão entre dois debatedores, sendo um deles eleitor do atual e infame presidente dos EUA, Donald Trump.

Vice é um filme ousado, que cutuca feridas ainda não totalmente cicatrizadas e incomoda, por isso corre o risco de ser esnobado na cerimônia do Oscar que se aproxima. Porém, é daqueles filmes que, mesmo daqui a 100 anos, ainda continuará atual, pois sua premissa sobre "gurus" de presidentes da república não é, e nem nunca será, mera coincidência. Especialmente se for do tipo quieto...


FICHA TÉCNICA
  • Título Original: Vice
  • Direção: Adam McKay
  • Elenco: Christian Bale (Dick Cheney), Amy Adams (Lynne Chaney), Steve Carell (Donald Rumsfeld), Sam Rockwell (George W. Bush), Alison Pill (Mary Cheney), Lily Rabe (Liz Chaney), Jesse Plemons (Kurt, o narrador)
  • Roteiro: Adam McKay
  • Fotografia: Greig Fraser
  • Duração: 132 minutos
  • Ano: 2018
  • Lançamento comercial no Brasil: 31/01/2019

RESUMO DO FILME
A trajetória de Dick Cheney que, de um bêbado brigão, tornou-se o mais poderoso vice-presidente da história dos EUA e como sua visão e decisões políticas afetaram o mundo durante o governo do presidente George W. Bush.

COTAÇÃO
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Veja aqui o trailer oficial de Vice (legendado - HD):


Publicado no LinkedIn em 30/01/2019 e no AdoroCinema em 31/01/2019.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Cinemateca de Cuba homenageia The Beatles


Entre 16 e 20 de janeiro a Cinemateca de Cuba fará uma homenagem ao grupo de Rock inglês The Beatles em razão do Dia Mundial The Beatles, data criada pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 16 de janeiro de 2013.

Cuba é um dos países latino-americanos que rende homenagem à banda formada por John Lennon (1940-1980), Paul McCartney (1942- ), George Harrison (1943-2001) e Ringo Starr (1940- ) que revolucionou a música, a cultura e os costumes na década de 1960 e cuja influência faz-se sentir até os dias de hoje.

Em 2017, em Havana, foi realizado um concerto sinfônico ao ar livre que executou as músicas do álbum Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band (1967), considerado a obra-prima do grupo, cujo cinquentenário de seu lançamento era celebrado naquele ano. E, na capital da ilha, há uma praça chamada John Lennon com uma estátua em honra do artista.

Durante "A Semana The Beatles" - nome do evento - vão ser exibidos os filmes A Hard Day's Night (1964, leia sobre o filme nesta matéria), Help! (1965) e, para o deleite das crianças, o desenho animado Submarino Amarelo (1968, que, por ocasião dos 50 anos de seu lançamento, foi novamente exibido nos cinemas. Veja aqui). Além disso, estarão à venda discos, CDs, DVDs, livros, camisetas, bottons e mais uma gama de produtos relacionados aos quatro meninos de Liverpool.

Veja aqui o trailer oficial de A Hard Day's Night (original em inglês - HD):


Veja aqui o trailer oficial de Help! (original em inglês):




Veja aqui o trailer oficial de Submarino Amarelo (original em inglês):



quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Bat in The Sun, a produtora dos crossovers mais irados da internet!


Crossover (literalmente cruzamento) é uma técnica literária na qual personagens de mídias diferentes - Histórias em Quadrinhos (HQs), filmes (cinema ou TV), literatura - são transportados de seus respectivos universos para um outro no qual convivem - nem sempre harmoniosamente, diga-se de passagem. O primeiro grande crossover deu-se em 1976 com a HQ Super-Homem vs Homem-Aranha, na qual o Homem de Aço e O Amigão da Vizinhança se uniram para salvar o mundo dos vilões Lex Luthor e Dr. Octopus. A partir daí, vários outros vieram tais como Batman vs Hulk, X-men vs Novos Titãs e, em 1996, talvez o mais famoso de todos, DC vs Marvel, na qual os personagens de ambas as editoras lutam para salvar o universo.

Então, um novo universo entrou em cena para modificar os crossovers: a internet.

Em 2001, o produtor Sean Schoenke, juntamente com seu filho o também produtor, além de cineasta, roteirista e ator, Aaron Schoenke, tiveram a ideia de criar uma produtora para fazer Fan Films, que são filmes, quase todos de curta-metragem, relacionados a obras existentes como as próprias HQs e filmes como as sagas Star Wars e Star Trek. São uma forma de artistas se expressarem e fazerem filmes que gostam sem fins lucrativos em sua maioria e que ganham cada vez mais espaço na internet. Nascia, então, a produtora Bat in The Sun (Morcego ao Sol, em tradução livre).

A estreia deu-se em 2003, com o filme Batman Beyond: Year One (Batman do Futuro: Ano Um), seguindo-se os elogiados Patient J (Paciente J, de 2005, que mostra o Coringa sendo entrevistado por um psicólogo), City of Scars (Cidade das Cicatrizes, 2010) e Seeds of Arkham (Sementes do Arkham, 2011), entre outros. Juntamente com a qualidade artística, esses Fan Films chamaram a atenção pela qualidade de produção e criação, mesmo com poucos recursos.

Em 2012, a Bat in The Sun lançou um filme chamado Super Power Beat Down, no qual aparecia um duelo inusitado: uma corrida entre o Batmóvel da série Batman, de 1966, e o Batmóvel do filme de 1989 para o cinema. O filme desse duelo "bombou" no YouTube e tornou-se um sucesso tão grande, que Aaron e seu pai decidiram criar uma série mostrando outros duelos.

Inspirados nos crossovers das HQs, os Schoenke fizeram filmes com os personagens da DC Comics enfrentando os da Marvel, combates esses que os fãs, até então só viram em revistas ou em sua imaginação. Personagens de filmes de cinema, TV e video games também foram fonte de inspiração. 

Surgiram filmes como Batman vs Wolverine, Asa Notuna vs Gambit, Ranger Branco vs Scorpion, Kick Ass vs Casey Jones, Homem de Ferro vs Optimus Prime e muitos outros. O resultado das lutas eram decididos pelos fãs em votação online. Se o resultado fosse muito apertado, surgiam os filmes com finais alternativos. 

Em Super Power Beat Down, temos a oportunidade de conhecer nomes novos e ainda pouco conhecidos tais como o ator Kevin Porter (série General Hospital), que já interpretou Batman e o Justiceiro; e a atriz e modelo russa radicada nos EUA Tatiana Dekhtyar (Tales of Frankenstein), que já interpretou a Mulher-Maravilha e Dominó. O próprio Aaron Schoenke ocasionalmente aparece como Asa Noturna ou o Coringa.

Panorama do Cinema fez uma seleção de vídeos da série Super Power Beat Down produzidos pela Bat in The Sun para que vocês, amantes do cinema, possam ver e apreciar esses Fan Films. Boa diversão!

Veja aqui o vídeo dos Batmobiles Racing (original em inglês - HD):


Veja aqui o vídeo de Super Power Beat Down Gandalf vs Darth Vader (legendado - HD):




Veja aqui o vídeo de Super Power Beat Down Superman vs Thor (legendado - HD):




Veja aqui o vídeo de Super Power Beat Down Justiceiro vs Capuz Vermelho (dublado - HD):




Veja aqui o vídeo de Super Power Beat Down Batman vs Darth Vader (legendado - HD):



Veja aqui o vídeo de Super Power Beat Down Mulher-Maravilha vs Wolverine (dublado - HD):




Veja aqui o vídeo de Super Power Beat Down Coringa & Arlequina vs Deadpool & Dominó (legendado):




Publicado no LinkedIn em 16/01/2019.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Crítica: A Esposa | A Hora e a Vez da Mulher Invisível


O ex-beatle John Lennon (1940-1980), em uma das várias entrevistas concedidas após a dissolução do grupo, disse que "Há sempre uma grande mulher atrás de cada idiota". Ao conhecer sua segunda esposa, a japonesa Yoko Ono (1933- ), o próprio John reconheceu que tornou-se mais feminista, pois Yoko abriu-lhe os olhos quanto ao machismo e a opressão que as mulheres sofrem em nossa sociedade até os dias de hoje, mesmo com as muitas conquistas obtidas por elas. Esse feminismo de Lennon está refletido na canção de autoria do casal, Woman is The Nigger of The World (A Mulher é o Negro do Mundo).

Em um daqueles casos no qual a vida imita a arte, a frase de Lennon pode ser encaixada na premissa d' A Esposa.

Joan Castleman (Glenn Close, de Ligações Perigosas) é a esposa do afamado escritor Joe Castleman (Jonathan Pryce, da franquia Piratas do Caribe), que foi indicado ao Prêmio Nobel de Literatura. Joseph conquista o prêmio e ele, Joan e o filho, David (Max Irons, de Colheita Amarga - Veja a crítica aqui), viajam para a capital da Suécia, Estocolmo, para receber o prêmio. No mesmo avião, segue o jornalista Nathaniel Bone (Christian Slater, de Jovens Demais Para Morrer) que insiste em escrever uma biografia de Joseph. Ao chegarem ao seu destino, vários fatos que lá ocorrem fazem com que Joan comece a questionar e repensar a sua vida com Joseph desde quando conheceram-se até aquele momento.

Baseado no romance da escritora Meg Wolitzer, A Esposa é uma produção independente que retrata um tema ainda muito em voga nos tempos atuais: a mulher posta em situação de inferioridade em relação ao homem independente de sua cor, raça, credo, origem, condição intelectual, social e/ou financeira.

Uma cena que retrata bem esse tema é quando a jovem Joan (Annie Starke, de A Beira do Abismo) vai pedir conselhos com a escritora Elaine Mozell (Elizabeth McGovern, da série Downton Abbey) e esta a desencoraja,  pois, mesmo sendo ela mesma uma autora talentosa, respeitada e de opiniões firmes, foi posta em um patamar abaixo dos autores masculinos.

O diretor sueco Björn Runge é pouco conhecido fora de sua terra natal, mas tem uma sólida carreira tanto no cinema quanto na TV locais. Chamou atenção ao conquistar o prêmio "Blue Angel" no Festival de Berlim, em 2003, com o filme Ao Romper do Dia. A Esposa é a sua primeira produção internacional de destaque na qual trabalha com grandes astros e estrelas (embora já tenha feito vários filmes com a sua conterrânea Pernilla August, da saga Star Wars).

Runge tem uma mão experiente e segura em seu trabalho de direção e faz o filme fluir bem, inclusive na transição para as cenas de flashback. A Estocolmo que mostra ao público é bela e fria, mas não de uma frieza indiferente, mas que envolve e toca as emoções. Nisso é ajudado pela bonita fotografia de Ulf Brantas (de Nós Somos as Melhores!).

Ainda que sem nenhuma intenção deliberada, Runge insere o feminismo de John Lennon na trama para que todos - em particular os homens - possam tanto acompanhar como compreender o sacrifício e a submissão de Joan a Joe desde que esse era um jovem professor universitário (vivido por Harry Lloyd, da série Game of Thrones).

No início, Joan nos passa a impressão que é um mulher  tímida e decididamente caseira, dedicada ao lar, os filhos, o marido ("Já tomou o seu remédio?") o qual, com sua personalidade dominadora, sempre a deixa sob sua sombra, como uma medíocre "mulher invisível". 

Porém, à medida que o filme corre, pode-se perceber que Joan é realmente tímida, mas não é "invísivel" ou medíocre - embora pareça assim aos parentes e amigos. É muito inteligente e tem tanta nobreza dentro de si que está disposta a fazer os maiores sacrifícios, o que incluía uma possível carreira brilhante como escritora em sua juventude, para apoiar a do marido. Por amor, fica submissa.

Joe é o idiota ao qual se referia Lennon. Carreirista, mulherengo, cínico e ganancioso, é o perfeito estereótipo do macho bobo que, com sua dominação sobre a mulher aliado ao seu carisma pessoal, consegue disfarçar seus defeitos de caráter e adquirir fama, mas, no fundo, sabe que ele é o medíocre ao invés de Joan.

Seu domínio tirânico atinge igualmente o filho, David que, apesar de estar a par de como o pai trata a ele e a mãe, quer desesperadamente seu amor e aprovação para que, assim, possa libertar-se da dominação paterna e ter sua própria vida e carreira.

Max Irons é daqueles atores que vão melhorando a cada filme e, em um curioso paralelo com seu personagem, deixa gradativamente de ser o filho de Jeremy Irons (Liga da Justiça) para ser um astro com brilho próprio. O mesmo vale para Annie Starke que - para aqueles que ainda não sabem - é filha de Glenn Close, e para Harry Lloyd, tetraneto (!) do escritor Charles Dickens (1812-1870).


Não é a primeira vez que Christian Slater interpreta um jornalista (fez um papel semelhante em Entrevista Com o Vampiro) que, aqui, é também uma mistura de biógrafo com paparazzo, doido para descobrir algum "podre" da família Castleman e incluí-lo no livro que quer escrever sobre Joe. Ele também é a ponte que leva o público a descobrir o segredo de Joe e Joan.

O inglês Jonathan Pryce foi uma ótima escolha para interpretar Joe Castleman. Mesmo fazendo bem o sotaque estadunidense (Joe é dessa nacionalidade), mantém a fleuma britânica, o que dá um toque blasé que aumenta a autenticidade do personagem interpretado.

Afinal, mas não por último, temos Glenn Close.

Atriz versátil e extremamente talentosa que interpreta com a mesma convicção personagens tão díspares como a psicopata sexy Alex Forrest, de Atração Fatal (1987); a rainha Gertrude, em Hamlet (1990); a primeira-dama dos EUA Marsha Dale, em Marte Ataca! (1996); e traveste-se em homem no filme Albert Nobbs (2011).

Em A Esposa, Glenn está na sua maturidade e no seu auge  como mulher e atriz em um trabalho magnífico de interpretação. Na cena em que Joe faz o discurso de agradecimento do Prêmio Nobel e o dedica a Joan, Glenn, sem dizer uma única palavra, consegue transmitir emoções tão fortes e conflitantes que é difícil não ficar impressionado e comovido.

Nesse conflito de emoções podemos perceber a grandeza da mulher que durante tantos anos acompanhou e apoiou um idiota e que, finalmente, liberta-se de sua "invisibilidade" e tem a sua hora e vez.

A atuação de Glenn já lhe valeu os prêmios de melhor atriz dramática no Satellite Awards, em 2018, e o Globo de Ouro deste ano, no qual derrotou a favorita Lady Gaga, de Nasce Uma Estrela (2018).

Falta o Oscar, prêmio para o qual já foi indicada seis vezes. Desta vez virá? Ainda é preciso aguardar as indicações, mas, se Glenn for indicada, atrevo-me a dizer que ela será a grande favorita ao prêmio. Porém, o Oscar é conhecido por suas injustiças...

A Esposa é um filme que leva a várias reflexoes sobre amor, casamento, solidão, machismo como intsrumento de opressão que atinge principalmente as mulheres, mas também minorias como a comunidade LGBT, afrodescendentes e os índios; e o feminismo como instrumento de compreensão das almas das mulheres.

Nesta era das trevas a qual vivemos atualmente e sob um governo fascista que quer destruir os direitos sociais que tão arduamente foram conquistados pelo povo, A Esposa é um filme que nos dá a certeza que a opressão e a tirania, por mais tempo que durem, inevitavelmente caem e nem mesmo uma "invisibilidade" imposta pode impedir essa queda.


FICHA TÉCNICA
  • Título Original: The Wife
  • Direção: Björn Runge
  • Elenco: Glenn Close (Joan Castleman), Jonathan Pryce (Joe Castleman), Christian Slater (Nathaniel Bone), Elizabeth McGovern (Elaine Mozell), Max Irons (David Castleman), Harry Lloyd (Joe Castleman jovem), Annie Starke (Joan Castleman jovem)
  • Roteiro: Jane Anderson (baseado no livro de Meg Wolitzer)
  • Fotografia: Ulf Brantas
  • Duração: 100 minutos
  • Ano: 2017
  • Lançamento comercial no Brasil: 10/01/2019

RESUMO DO FILME

Joan Castleman é a esposa do escritor Joe Castleman e, quando o marido ganha o Prêmio Nobel de literatura, Joan começa a fazer um balanço de sua vida.


COTAÇÃO
✪✪✪✪½

Veja aqui o trailer oficial de A Esposa (legendado):


Publicado no AdoroCinema e no LinkedIn em 10/01/2019.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

terça-feira, 18 de dezembro de 2018

Dica de Leitura | Por Tutatis e por Belenos! Veja as homenagens feitas ao cinema por Asterix e Obelix!


Atualizado em 16/07/2021.

Panorama do Cinema retorna com mais uma Dica de Leitura, na qual indicamos livros, revistas e artigos sobre cinema.

E a nossa dica de hoje vai para três livros de histórias em quadrinhos (HQs) dos irredutíveis gauleses (antepassados dos franceses) Asterix e Obelix, criações do desenhista francês Albert Uderzo (1927-2020) e de seu conterrâneo, o roteirista René Goscinny (1926-1977), um sucesso monumental traduzido, até o momento, em 83 línguas e 29 dialetos e que, ainda por cima, rendeu um parque temático (concorrente direto da Eurodisney) e, claro, 13 filmes para o cinema, sendo nove desenhos animados e quatro filmes em live-action com a participação de grandes artistas internacionais tais como Christian Clavier, Clovis Cornillac e Édoard Bauer (como Asterix), Gérard Depardieu (Obelix), Alain Delon (Júlio César), Monica Bellucci (Cleópatra) e Roberto Benigni (Detritus).

As histórias passam-se na antiguidade, mais precisamente no ano 50 a.C. quando toda a Gália (onde atualmente é a França) foi conquistada pela então República de Roma. Toda? Não. Uma pequena aldeia resiste, agora e sempre, ao invasor. Essa resistência vem da poção mágica preparada pelo druida Panoramix que dá uma força sobre-humana a quem a bebe e permite aos gauleses enfrentarem de igual para igual as legiões romanas. O conquistador romano Júlio César (100 a.C. - 44 a.C.) está sempre quebrando a cabeça em como submeter essa aldeia de loucos ao poder de Roma.


Criados em 1959 para a revista Pilote, que dava oportunidade a novos talentos das HQs, Asterix e Obelix eram, a princípio, uma sátira crítica ao nacionalismo francês, mas, vejam só, tornaram-se eles mesmos símbolos desse mesmo nacionalismo, tendo batizado um satélite artificial e foram tese de doutorado de um estudante da prestigiosa Universidade de Sorbonne.

Ainda assim, as histórias dos gauleses sempre apresentavam algum tipo de crítica bem humorada da sociedade ocidental, seja sobre o imperialismo, a guerra fria, a especulação imobiliária, o charlatanismo, os conflitos no Oriente Médio, o consumismo e o neoliberalismo.

Após a morte de Goscinny, em 1977, Uderzo assumiu, a partir de 1980, a autoria dos roteiros, pois achava que seria um insulto à memória do amigo René contratar um substituto. Porém, com o passar do tempo, a idade pesou e, Albert percebeu que já era hora de aposentar-se. Reviu sua posição e contratou não um, mas dois substitutos: Jean-Yves Ferri para os roteiros e Didier Conrad para os desenhos. A nova dupla iniciou seu trabalho em 2013, já produziu três álbuns e teve aprovação dos fãs.

A seguir, conheça os álbuns nos quais esses divertidíssimos gauleses fazem sua homenagem ao cinema:

Obelix & Companhia (1976)

Como não conseguem vencer os gauleses pela força, os romanos tentam vencer pelo ouro, atiçando a ganância e o consumismo na pequena aldeia de nossos heróis. Para isso, começam a comprar os menires produzidos por Obelix e a revendê-los com sucesso em Roma. Este volume tem a participação especialíssima de Stan Laurel (1890-1965) e Oliver Hardy (1892-1957), mais conhecidos como O Gordo & O Magro (em Portugal, Bucha & Estica), como dois legionários atrapalhados, como não poderia deixar de ser.
 

A Odisseia de Asterix (1981)

No segundo álbum totalmente produzido por Uderzo, Asterix e Obelix devem ir ao Oriente Médio buscar um ingrediente imprescindível para a preparação da poção mágica que permite que sua aldeia resista aos romanos. São acompanhados pelo druida Zerozerosix - que tem esse nome por ter tentado sem sucesso por seis vezes o curso de druida. A escola acabou por se cansar e o mandou embora - que, como os leitores já devem ter adivinhado, é uma caricatura do ator escocês Sean Connery (Os Intocáveis) em uma sátira ao seu eterno papel de James Bond que, curiosamente, aqui aparece como vilão.


A Galera de Obelix (2001)

Como caiu no caldeirão do druida Panoramix quando era pequeno, Obelix não pode tomar a poção mágica, o que o deixa frustrado e irritado. Um dia, ele entra escondido na casa do druida, bebe um caldeirão inteiro de poção e transforma-se em pedra. Panoramix tenta desesperadamente encontrar um antídoto e, ao dá-lo a Obelix, este, de fato, não está mais transformado em pedra, mas voltou a ser criança! Há somente um lugar onde pode-se encontrar uma cura para Obelix pode voltar ao normal: Atlântida. Para chegar nessa ilha distante, os gauleses terão ajuda de escravos fugitivos em uma galera guiada pelo grego Spartakis que, como os leitores também adivinharam, é uma caracterização do ator estadunidense Kirk Douglas (Os Últimos Durões) no seu papel de Spartacus. Este álbum, aliás, é dedicado a este grande ator.


Asterix e Latraviata (2001)

Asterix e Obelix fazem aniversário e suas mães vem até a sua aldeia com dois presentes: uma espada e um elmo romanos. O que ninguém sabe é que essas armas pertencem a Pompeu (106 a.C. - 48 a.C.), rival de Júlio César e que deseja governar Roma. Para recuperar os artefatos, envia a atriz Latraviata disfarçada de Falbalá, uma linda gaulesa por quem Obelix é apaixonado. Sem o disfarce Latraviata parece-se com a atriz austríaca Romy Schneider (trilogia Sissi), já falecida, mas ainda muito popular na França. Pelo seu desempenho, Latraviata recebe de Asterix uma pequena estátua de Júlio César - menção ao Prêmio César, o Oscar francês - o que deixa o conquistador atônito: "Um César para uma atriz?".

As aventuras de Asterix e Obelix são publicadas em Portugal pelas Edições ASA e, no Brasil, pela Editora Record. As edições brasileiras tem preços que variam de R$ 34,90 a R$ 44,90 (valores de julho/2021, de acordo com o site oficial da Record). 

Por Tutatis e por Belenos! O que estão esperando para curtir as divertidas aventuras desses irredutíveis gauleses?

Veja aqui o trailer do desenho animado Asterix e o Domínio dos Deuses (dublado - HD):



Veja aqui o trailer do filme Asterix e Obelix a Serviço de Sua Majestade (legendado):

  
Publicado no LinkedIn em 18/12/2018.

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

Oscar 2019 | Conheça o candidato brasileiro ao maior prêmio de Hollywood


A Academia Brasileira de Cinema já escolheu o filme que será o candidato brasileiro para uma indicação ao Oscar na categoria de Melhor Filme Estrangeiro. Trata-se d'O Grande Circo Místico, com direção de Cacá Diegues (Bye-Bye Brasil). 

Com roteiro do próprio Diegues e baseado no poema homônimo do escritor Jorge de Lima (1893-1953), que já havia servido de inspiração a um espetáculo de dança criado por Naum Alves de Souza com trilha sonora de Chico Buarque e Edu Lobo, O Grande Circo Místico conta de forma poética, por meio do mestre de cerimônias Celaví (Jesuíta Barbosa, de Jonas), que nunca envelhece, a história de cinco gerações da família Knieps desde 1910 até os dias de hoje.

O Grande Circo Místico teve a sua première mundial no Festival de Cannes deste ano (exibido fora de competição). Com locações em Portugal, tem no seu elenco nomes como Bruna Linzmeyer (O Filme da Minha Vida) e os franceses Catherine Mouche (Marvin) e Vincent Cassel (Cisne Negro).

A lista dos filmes indicados ao prêmio será anunciada em em 22 de janeiro de 2019. A premiação será no dia 24 de fevereiro de 2019.

O Grande Circo Místico tem estréia comercial no Brasil prevista para 15 de novembro de 2018.

Assista aqui o trailer oficial d'O Grande Circo Místico (original em português - HD):


Publicado no LinkedIn em 13/09/2018.

terça-feira, 11 de setembro de 2018

Festival de Veneza | Filme sobre Pepe Mujica ganha prêmio da UNESCO


O documentário El Pepe, Una Vida Suprema (ainda sem título em português), dirigido pelo cineasta sérvio Emir Kusturica (Quando Meu Pai Saiu em Viagem de Negócios), que expõe as ideias, convicções políticas e éticas e visão de mundo do ex-presidente e atual senador do Uruguai, José "Pepe" Mujica, recebeu no Festival de Veneza o prêmio CICT-UNESCO Enrico Fulchignoni. 

A honraria premia filmes e produções audiovisuais de alto nível e que permite a livre circulação de informações. O nome Enrico Fulchignoni é uma homenagem ao antigo diretor de criação artística e literária da UNESCO, organização das Nações Unidas (ONU) para educação, ciência e cultura. 

No mesmo festival, foi exibido o filme Uma Noite de 12 anos, do diretor uruguaio Alvaro Brechner (Sr. Kaplan), que conta, de modo dramatizado, o período em que Mujica passou na prisão com dois companheiros e os horrores que lá sofreram (veja aqui).

Ao saber da premiação, Pepe Mujica, com sua conhecida modéstia e seu igualmente conhecido senso de humor maroto disse:

"Eu não sou uma estrela, nasci estrelado. Eu estou aqui [Festival de Veneza] exclusivamente por um amigo, um amigo que se chama Kusturica. Meu mundo é outro. Não sei se melhor ou pior, mas outro".

El Pepe, Una Vida Suprema ainda não tem previsão de estréia no Brasil.

Veja aqui o programa Un Mundo de Cine, do YouTube, apresentado pela jornalista espanhola Alejandra Musi, que fala sobre o documentário El Pepe, Una Vida Suprema (original em espanhol):



Publicado no LinkedIn em 11/09/2018.

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

Memória | A morte e a morte de Paul Newman


Em 26 de setembro de 2008, após uma longa batalha contra o câncer, morreu aos 83 anos de idade Paul Leonard Newman, conhecido internacionalmente como Paul Newman, um dos maiores atores já surgidos em Hollywood em todos os tempos. O falecimento de Newman vai um pouco além da perda de um artista extraordinário. Porém, antes de nos aprofundarmos nesse assunto, vamos fazer uma breve retrospectiva da carreira cinematográfica desse grande astro.

Filho de um próspero comerciante, Newman começou atuar em peças teatrais em sua escola. Serviu na marinha durante a Segunda Guerra Mundial. Após obter a dispensa do serviço militar, obteve uma bolsa de estudos e foi estudar no Kennyon College, uma faculdade de artes liberais ligada à Igreja Episcopal. 

Logo após se formar, foi estudar arte dramática na Universidade de Yale e, um ano depois, entrou para o famoso Actor’s Studio, considerada a melhor e mais prestigiosa escola de dramaturgia dos Estados Unidos e dirigida pelo grande professor de dramaturgia Lee Strasberg, mestre de uma geração de grandes atores e atrizes estadunidenses tais como Marlon Brando, James Dean, Marilyn Monroe, Jane Fonda, Geraldine Page, Al Pacino, Robert de Niro e Dustin Hoffman.

Fez sua estréia como ator profissional em um espetáculo da Broadway chamado Picnic, o que lhe valeu um convite para trabalhar em um grande stúdio de cinema, a Warner Brothers. Seu primeiro filme foi O Cálice Sagrado, em 1954. Newman, um eterno perfeccionista, considerou sua atuação tão ruim que chegou a publicar um anúncio de página inteira em um jornal pedindo desculpas ao público. 

Porém, em 1956, arrancou elogios da crítica por sua performance como o boxeador Rocky Graziano no filme Marcado pela sarjeta. Em 1958, as pessoas começaram a perceber que aquele ator de olhos azuis era mais do que apenas um rosto bonito: além de outro grande sucesso em Gata em teto de zinco quente (no qual atuou com a diva Elizabeth Taylor e teve sua primeira indicação ao Oscar), ganhou seu primeiro grande prêmio como intérprete, o de melhor ator no Festival de Cannes pelo filme O Mercador de Almas.

É na década de 1960 que Newman se estabeleceu de vez como um dos grandes nomes do cinema estadunidense, tanto em prestígio como em bilheteria. São dessa época filmes como Desafio à corrupção, de 1961 (no qual fez o papel do jogador de snooker “fast” Eddie Felson, que repetiria anos depois em A cor do dinheiro); O Indomado, em 1963; Cortina Rasgada, em 1966 (quando trabalhou com o mestre do suspense Alfred Hitchcock); Rebeldia Indomável, em 1967; Rachel, Rachel, em 1968 (sua estréia na direção trabalhando com sua esposa por mais de 50 anos, Joanne Woodward, e pelo qual ganhou o Globo de Ouro como diretor) e, principalmente, Butch Cassidy & Sundance Kid, em 1969, filme-ícone de uma época que marcou uma geração inteira.

Em 1973, um outro sucesso espetacular, Golpe de Mestre, no qual trabalhou com seus amigos, o ator Robert Redford e o diretor George Roy Hill (que também estavam em Butch Cassidy) e que faturou sete Oscars. No ano seguinte atuou junto a outro grande astro, Steve McQueen, no filme que inaugurou a era do “cinema-catástrofe”, Inferno na Torre.

A década de 1980 começou com Ausência de malícia, em 1981 e com O Veredicto, no qual Newman teve uma atuação magnífica como o advogado alcoólatra Frank Galvin.

Em 1986, a redenção: após várias indicações, Paul Newman finalmente conquista o Oscar de melhor ator por A cor do dinheiro (no qual foi dirigido pelo diretor Martin Scorsese e atuou com o então jovem astro campeão de bilheteria Tom Cruise).

Na década de 1990, já não atua com a mesma freqüência, mas ainda conquista mais um prêmio, o Urso de Prata no Festival de Berlim como melhor ator no filme O Indomável – assim é minha vida.

Foi-se o homem, fica o mito. Mas, qual mito? O de um ator brilhante detentor dos prêmios mais importantes? O de um apaixonado por carros e por automobilismo? O de um marido dedicado? O de um pai que perdeu seu filho para as drogas e passou a lutar contra esse flagelo? O de um filantropo que usava sua fama e prestígio para a caridade? O de um liberal que apoiava as causas justas? Ou simplesmente de um amigo fiel?

É tudo isso, mas vai além. Para as gerações mais novas, que têm como ídolos verdadeiros símbolos do materialismo que são indiferentes ao seu próximo, pode ser um pouco difícil entender a morte de Paul Newman. Newman pode ser definido como um “último dos moicanos”, um tipo de ser humano cada vez mais raro em nossa sociedade atual. Alguém que era um exemplo para as pessoas, mas um exemplo no melhor sentido dessa palavra. Era alguém que acreditava sinceramente na humanidade e no jeito correto de se fazerem as coisas sem ser hipócrita ou moralista. 

Era generoso, mas sem ser vaidoso. Ao contrário de várias estrelas hollywoodianas atuais, não usava a caridade e a filantropia para a autopromoção, preferia ser discreto. Não hesitava em apoiar as causas políticas liberais, a ponto de o ex-presidente dos EUA, Richard Nixon, colocá-lo em sua “lista negra” como um de seus piores inimigos. Para um liberal como Newman, não poderia ter havido honra maior!

Quando aparecia nas corridas automobilísticas – primeiro como piloto e, posteriormente, como dono de equipe – o fazia como mais um participante, como um verdadeiro esportista. Teve um casamento exemplar com sua segunda esposa, Joanne Woodward, uma atriz e uma pessoa de grandeza igual à de seu marido, e era um excelente pai, a ponto de sentir no mais profundo de sua alma a morte de seu filho do primeiro casamento, Scott Newman, por overdose de drogas. 

Era o tipo de amigo que jamais esquecia o aniversário de alguém e que estava sempre à disposição para uma cervejinha com seus chapas (e ainda fazia questão de pagar tudo!).

É claro que não era perfeito. Bebia e fumava muito (aliás, foi por meio do tabagismo que adquiriu o cãncer que o matou), mas era aquele espécie de gente cujas qualidades superavam quaisquer defeitos de caráter que possuísse.

Em resumo, Paul Newman era um astro na verdadeira acepção do termo. Embora já estivesse com 83 anos, é o tipo de pessoa que, quando parte, vai cedo demais. Ele vai fazer falta e como!

Para encerrar, foi selecionado um vídeo: a inesquecível “cena da bicicleta” do filme Butch Cassidy & Sundance Kid no qual contracena com com a bela Katherine Ross. Que esta pequena amostra sirva para mostrar a todos - e em especial aos mais jovens - a grandeza desse homem que o mundo perdeu.



Publicado no Centro de Mídia Independente (CMI) e no LinkedIn em 11/09/2018.

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

Festival de Veneza | Dupla homenagem para Pepe Mujica


Um dos mais prestigiosos festivais de cinema do mundo, o Festival de Veneza, realizado anualmente na cidade italiana de mesmo nome, apresenta na sua edição de 2018 uma dupla homenagem ao ex-presidente e atual senador do Uruguai, José "Pepe" Mujica. 

Tratam-se do filme Uma Noite de 12 Anos, do diretor, roteirista e produtor uruguaio Alvaro Brechner (Sr. Kaplan) e com o ator espanhol Antonio de la Torre (Volver), no papel de Mujica; e o documentário El Pepe, Una Vida Suprema (ainda sem título em português), do diretor sérvio Emir Kusturica (Quando Meu Pai Saiu em Viagem de Negócios). 

O primeiro, que compete na seção "Horizontes", conta o período em que Mujica - então um guerrilheiro que combatia a ditadura militar que tiranizava o Uruguai - e mais dois de seus companheiros passaram na prisão e todos os horrores que lá sofreram.

O segundo é o documentário, exibido fora de competição, no qual Mujica expõe sua visão de mundo e convicções políticas e éticas. Nas palavras do diretor Kusturica: 

"Penso que [Mujica] é uma pessoa única, que enriquece nossos sentimentos, mas também as nossas experiências. Estou confiante que um dia será uma inspiração para os que estão a perder o amor em acreditar no Socialismo".

Por sua vez o veterano político disse sobre o cineasta:

"Não conhecia Kusturica e também não sou um homem do cinema. Não entendo nada de cinema. Ao conhecê-lo, tornamo-nos amigos".

Pepe Mujica tornou-se internacionalmente conhecido por sua simplicidade. Mora em uma pequena chácara nos arredores de Montevidéu onde planta flores e hortaliças. Ao invés de um carro do ano, tem um velho fusca de cor azul-celeste. Do salário que ganha - primeiro como presidente e, depois, como senador - doa quase 70% para o seu partido  (Frente Ampla) e para um fundo de construção de moradias e se sustenta com o restante. Costuma dizer com bom humor:

"Por sorte, por enquanto tenho a minha esposa (com quem está junto desde a década de 1970, mas casaram-se somente em 2005. Uma mera formalidade...) que banca as despesas".

Mujica também tornou-se conhecido por ter aprovadas durante seu governo leis de cunho progressistas tais como a descriminalização do aborto, o matrimônio igualitário (entre pessoas do mesmo sexo) e, a mais polêmica de todas: a legalização do mercado da maconha para consumo pessoal e cuja produção, distribuição e venda ficam a cargo do governo.

Uma Noite de 12 anos tem estréia prevista para o próximo dia 27 de setembro.

El Pepe, Una Vida Suprema ainda não tem previsão de estréia no Brasil.


Veja aqui o trailer oficial de Uma Noite de 12 anos (legendado - HD):



Veja aqui reportagem do canal do YouTube  LoftCinema, apresentado pelo jornalista mexicano Sal Franco, sobre o documentário El Pepe, Una Vida Suprema (original em espanhol - HD):




Publicado no LinkedIn em 11/09/2018.