Bem-Vindos a Panorama do Cinema"


Panorama do Cinema dá as boas-vindas aos seu leitores e amigos por meio deste vídeo gerado pela Inteligência Artificial (IA).

 

Editorial


Estamos de Volta!

Olá a todos! Depois de um longo hiato, Panorama do Cinema está de volta! Esta ausência deveu-se a motivos pessoais que impediram a continuidade do trabalho. Mas, agora estamos de volta no melhor estilo "a volta dos que não foram", com mais de 10 anos anos nas costas e com novidades. Vocês já devem ter reparado que a página teve uma "turbinada" que inclui este editorial, o vídeo de boas vindas feito com a Inteligência Artificial (IA) e atualizações das redes sociais e, em breve, novas edições de podcasts. Como estamos em plena Copa do Mundo, iniciamos o nosso retorno com posts sobre futebol tais como a Série Especial "Filmes sobre futebol para assistir antes da Copa do Mundo acabar" e a matéria "Veja os criativos, divertidos e irados animes e vídeos de IA da Copa do Mundo". Mas, não nos limitaremos apenas à paixão nacional. Logo voltaremos com mais artigos, matérias e críticas de filmes, que são a razão de ser deste espaço. E, neste retorno, nos comprometemos a fazer, pelo menos, um texto por mês. Não deu para não notar que, apesar da longa ausência, vocês nunca deixaram de nos visitar e ver nossos textos publicados anteriormente. Panorama do Cinema se comove e agradece de todo o coração pela sua fidelidade e gentileza. Panorama do Cinema espera que vocês apreciem esta nova fase e que continuem a nos visitar sempre. Boas leituras e boa diversão!

terça-feira, 29 de outubro de 2019

Filmes de "Terrir" para rachar o bico no Halloween


Ouçam este podcast nas plataformas Spotify, Deezer, Google Podcasts, Anchor, Castbox, Spreaker e Podcast Addict. 

Como todos sabem, o dia 31 de outubro é conhecido nos países de língua inglesa - em especial nos EUA - como Halloween, chamado no Brasil de "Dia das Bruxas". Nesse dia, a criançada sai fantasiada de bruxa, monstro, vampiro, lobisomem, etc., batem à porta das residências, dizem "Trick or Treats" ("Travessuras ou Gostosuras", em tradução livre) e ganham doces dos adultos.

Entrando no clima dessa festa, Panorama do Cinema fez uma seleção de filmes de "Terrir" que, como os cinéfilos sabem, é a mistura de terror com humor. Então, as crianças - e também os adultos - podem saborear as gostosuras enquanto riem das hilárias travessuras dos monstros e criaturas fantásticas do cinema.

De modo ufanista, começamos esta seleção com um filme brasileiro:

Bacalhau (1976)


Em um balneário do litoral de São Paulo, vários banhistas sofrem ataques de uma misteriosa criatura marinha. O oceanógrafo português Matos (Adriano Stuart, da franquia Boleiros, também diretor e roteirista do filme) descobre que a criatura é um Bacalhau da Guiné e quer capturar o peixe para acabar com os ataques e servi-lo como refeição no jantar. 

Além de ser uma típica pornochanchada, gênero que mistura erotismo e humor, Bacalhau é uma sátira descarada do filme Tubarão (1975), de Steven Spielberg (A Ponte dos Espiões). O peixe feroz de Spielberg impressionou os espectadores da época pelo seu realismo - e até os dias de hoje continua convincente.

Já o peixe malandro de Adriano Stuart é propositalmente mal feito de modo que é impossível não rir. De quebra, ainda há a presença das musas da pornochanchada tais como Helena Ramos (Mulher Objeto) e Matilde Mastrangi (Amor, Estranho Amor) no auge da beleza, vestindo biquínis mais do que minúsculos e doidas para que o Bacalhau apareça. Adivinhem porque...   

Veja aqui, na íntegra, o filme Bacalhau (original em português):




Amor à Primeira Mordida (1979)


O Conde Drácula (George Hamilton, de O Poderoso Chefão III) é expulso da Romênia pelo governo comunista que quer usar seu castelo como centro de treinamento de ginástica olímpica. Junto com seu servo, Renfield (Arte Johnson, de Um Rally Muito Louco), vai para Nova York em busca de seu grande amor, a top model Cindy Sondheim (Susan Saint James, da série O Casal McMillan). Porém, o namorado da moça, o psiquiatra Jeffrey Rosemberg (Richard Benjamin, de Desconstruindo Harry), sabe quem Drácula realmente é e, com a ajuda de um policial medíocre (Dick Shawn, de Primavera Para Hitler), fará tudo para destruir o conde vampiro.

Amor à Primeira Mordida foi o sucesso-surpresa daquele ano com uma mistura de humor sutil e escrachado e com duas cenas impagáveis: a dança de Drácula e Cindy na discoteca ao som da música "I Love The Nightlife" ("Eu Amo a Vida Noturna") interpretada por Alicia Bridges e o assalto que Drácula e Renfield fazem ao banco de sangue. 

O galã canastrão George Hamilton faz um Drácula esnobe e irônico, mas elegante e muito romântico. A top model interpretada por Susan Saint James é bonita, mas esculachada, ninfomaníaca, fumante inveterada e beberrona. Richard Benjamin faz de Jeffrey Rosemberg um psiquiatra mais louco que seus pacientes. E o Renfield de Arte Johnson segue a tradição do fiel servo de seu mestre: quer comer todos os insetos que aparecem na sua frente.

Veja aqui o trailer de Amor à Primeira Mordida (original em inglês):





A Pequena Loja dos Horrores (1986)


Seymour Krelborn (Rick Moranis, de Querida, Encolhi as Crianças) é um nerd tímido que trabalha na floricultura do Sr. Mushinik (Vincent Gardenia, de Feitiço da Lua), cujo negócio vai muito mal. Na floricultura também trabalha a gentil Audrey (Ellen Greene, de O Profissional), por quem Seymour é apaixonado, mas ela namora o dentista sádico e violento Orin Scrivello (Steve Martin, de Roxanne). Após um eclipse, Seymour encontra uma estranha planta que logo torna-se a grande atração da floricultura, que fica lotada de clientes. Porém, ele descobre que a planta (dublada pelo cantor Levi Tubbs, do grupo The Four Tops) não só fala como tem estranhos hábitos alimentares. 

Dirigido por Frank Oz (Os Safados), A Pequena Loja dos Horrores é a adaptação do musical da Broadway que, por sua vez, é a adaptação do filme de mesmo nome, lançado em 1960, com a direção do mestre dos filmes B, Roger Corman (A Queda da Casa de Usher) e que tem no elenco um então jovem Jack Nicholson (Marte Ataca!), em início de carreira.

A Pequena Loja dos Horrores é um filme muito divertido e com um ritmo dinâmico, no que é ajudado pela sua ótima trilha sonora - que teve uma de suas canções indicadas ao Oscar - e seu igualmente ótimo elenco, que tem também participações especiais de John Candy (Jamaica Abaixo de Zero), James Belushi (série O Jim é Assim) e Bill Murray (franquia Os Caça-Fantasmas), que está simplesmente hilário como um paciente masoquista do Dr. Scrivello. E, claro, Levi Tubbs, que está demais dando uma voz de malandro à planta falante - que é totalmente mecânica, mas muito ágil e fez com que o filme também tivesse uma indicação ao Oscar de efeitos especiais.  

Veja aqui o trailer de A Pequena Loja dos Horrores (Original em inglês):





Frankenhooker - Que Pedaço de Mulher! (1990)


Jeffrey Franken (James Lorinz, de O Irlandês) é um eletricista que sonha em ser um cientista. Tem a chance de testar seus conhecimentos quando sua noiva, Elizabeth Shelley (a top model Patty Mullen, da série The Equalizer) é morta acidentalmente por um cortador de grama e sobra somente sua cabeça. No melhor estilo de médico louco, Jeffrey junta a cabeça da noiva com partes de corpos de prostitutas mortas na ruas e a traz de volta á vida. Mas, ao invés de sua amada Elizabeth, surge uma estranha criatura que pergunta-lhe se não está a fim de um programinha...

Como já devem ter percebido, Frankenhooker é uma sátira de Frankenstein e está cheio de referências ao clássico como, por exemplo, o sobrenome do anti-herói e o nome de sua noiva, Elizabeth Shelley, que é uma junção do nome da noiva de Frankenstein com o sobrenome de Mary Shelley (1797-1851), a autora da obra.

Dirigido por Frank Henenlotter (O Soro do Mal), Frankenhooker é um típico filme B, trash, mas que ganhou status de cult e fãs ilustres como o comediante Bill Murray, que chegou a ser convidado para atuar na película, mas sua agenda apertada não permitiu. Sorte ou azar? Depende do ponto de vista de cada um...

Veja aqui o trailer de Frankenhooker - Que Pedaço de Mulher! (original em inglês):





Ash vs Evil Dead (2016-2018)


30 anos após ter sobrevivido ao eventos ocorridos na velha cabana abandonada na floresta, Ash Williams (Bruce Campbell, de Bubba-Ho-Tep) trabalha como balconista em uma loja de materiais de construção e mora em um velho trailer. Em uma noite repleta de fumaça de maconha junto com uma mulher, Ash, "mucho loco", lê um trecho do Necronomicon, o livro dos mortos, e liberta os deadites, os demônios sumérios que querem acabar o mundo. Agora, Ash deve enviar os deadites de volta ao inferno e, para isso, terá ajuda do medroso Pablo (Ray Santiago, de O Preço do Amanhã), da bonita e durona Kelly (Dana DeLorenzo, de O Natal Maluco de Harold e Kumar) e da misteriosa e traiçoeira Ruby (Lucy Lawless, da série Xena, a Princesa Guerreira). 

Ash vs Evil Dead é a sequência da trilogia Uma Noite Alucinante - Evil Dead, no original em inglês - estrelada por Campbell e dirigida pelo seu amigo e chapa Sam Raimi (franquia Homem-Aranha). Com produção de Raimi, que também dirigiu alguns episódios, Ash vs Evil Dead é o "terrir" perfeito com seus efeitos especiais competentes, seu humor negro (o segundo episódio da segunda temporada é daqueles que você fica sem saber se ri ou vomita) e bom elenco, que conta inclusive com Lee Majors. Sim, ele mesmo, o eterno Homem de Seis Milhões de Dólares, que é Duro na Queda, faz o papel de Brock Williams, pai de Ash.

Porém, o principal responsável pelo sucesso da série é, sem dúvida alguma, o Rei dos Canastrões, Bruce Campbell (veja sua biografia aqui), sempre ótimo na sua canastrice que consagrou o personagem que criou: o desbocado, machista, sexista, racista, grosseirão, burro e engraçadíssimo Ash Williams, que fez com que conquistasse o Prêmio Saturn (o Oscar dos filmes de terror, ficção científica e fantasia) de melhor ator de TV. Pena que a série teve só três temporadas... 

Veja aqui o trailer da primeira temporada de Ash vs Evil Dead (dublado - HD):



segunda-feira, 28 de outubro de 2019

Panorama do Cinema de cara nova! E vem mais por aí!


Amigas e amigos de Panorama do Cinema, como já devem ter reparado, nosso espaço está com novo visual, que indica a nova fase a qual entramos agora.

Essa nova fase iniciou-se com a produção de vídeos tais como foram vistos nas críticas de Rambo e AdAstra (veja as críticas ao clicar nos nomes dos filmes). E, para breve, teremos um canal de podcasts! Tudo para o seu deleite, queridos cinéfilos e cinéfilas. E vem mais por aí...

Que tal uma taça de champagne para comemorar?


domingo, 29 de setembro de 2019

Crítica: Ad Astra - Rumo Às Estrelas | Candidato a Clássico e Rival do Coringa


Veja abaixo o vídeo com a crítica de Ad Astra (HD):



TEXTO COMPLETO EM BREVE.


FICHA TÉCNICA
  • Título Original: AD Astra
  • Direção: James Gray
  • Elenco: Brad Pitt (Roy McBride), Tommy Lee Jones (H. Clifford McBride), Ruth Negga (Helen Lantos), Donald Sutherland (Thomas Pruitt), Liv Tyler (Eve)
  • Roteiro: James Gray, Ethan Gross
  • Música: Max Richter
  • Fotografia: Hoyte Van Hoytema
  • Duração: 123 minutos
  • Ano: 2019
  • Lançamento comercial no Brasil: 26/09/2019
  • Cotação: ✪✪✪✪½


Veja aqui o trailer oficial de AD Astra -  Rumo Às Estrelas (legendado - HD):


sábado, 21 de setembro de 2019

Crítica: Shazam! | O Molecão


No ano de 1974, um menino chamado Thaddeus Silvana (Ethan Pugiotto, de Casamento Grego 2) viaja de carro com seu pai, o milionário industrial Sr. Silvana (John Glover, da série Smallville), e seu irmão, Sid (Wayne Ward de Repo Men: Resgate de Órgãos).  Durante a viagem, Thaddeus é levado a um tipo de santuário onde vive o mago Shazam (Djimon Hounsou, de Amistad), que está muito velho e deseja passar seus poderes para outra pessoa continuar o combate contra os demônios dos Sete Pecados Capitais. Porém, embora Thaddeus fosse muito inteligente, Shazam percebeu que ele não era digno de receber os poderes, foi enviado de volta e, ao retornar, o carro sofre um acidente que deixa seu pai paralítico.

Billy Batson (Asher Angel, da série Andi Mack) é um garoto que já viveu em vários lares adotivos e é obcecado em encontrar sua mãe biológica, de quem se perdeu quando era criança. Billy ganha mais uma oportunidade de fixar-se em um lar de acolhimento, na Filadélfia, do bondoso Victor Vasquez (Cooper Andrews, de Covil de Ladrões) e sua esposa, a igualmente bondosa Rosa (Marta Milans, de Asher). Lá conhece seus irmãos adotivos, dentre eles, Freddie Freeman (Jack Dylan Grazer, de It: A Coisa) que, devido a uma queda, tem uma perna aleijada sendo obrigado a andar de muleta. 

Ao defender Freddie de dois valentões da escola, Billy foge pelo metrô e, de repente, vê-se no santuário do mago Shazam, que o escolheu para receber seus poderes. O mago pede a Billy que repita seu nome e, ao fazê-lo, transforma-se em um homem adulto (Zachary Levi, da série Chuck) com poderes e habilidades de um verdadeiro super-herói. Poderes e habilidades essas que precisará utilizar contra o agora crescido Thaddeus Silvana (Mark Strong, da franquia Kingsman) que, após anos de busca, encontrou o santuário de Shazam e libertou os demônios dos Sete Pecados Capitais.

Vendo o sucesso de super-heróis tais como Batman e Superman, da National Comics (atual DC Comics), a editora Fawcett Publications decidiu entrar no ramo das histórias em quadrinhos (HQs). Em 1939, os editores pediram ao roteirista Bill Parker (1911-1963) e ao desenhista C. C. Beck (1910-1989) que criassem um personagem para a revista que iriam lançar. A princípio, o personagem seria chamado de "Captain Thunder" ("Capitão Trovão"), mas como já havia um personagem com esse nome, decidiram por chamá-lo de Capitão Marvel - Marvel é uma abreviatura de "marvellous", que significa "maravilhoso".

O  Capitão Marvel fez sua estreia nas HQs na revista "Whiz Comics", em 1940. O personagem já usava o uniforme que conhecemos hoje: roupa vermelha com o desenho de um relâmpago no peito e uma capa branca curta. Seu rosto foi inspirado no ator Fred MacMurray (Se Meu Apartamento Falasse), popular à época. E também já dizia a palavra mágica SHAZAM, que é formada pelas iniciais de grandes imortais de onde o o alter-ego de Billy Batson ganha os seus poderes:
  • Salomão: sabedoria
  • Hécules: força
  • Atlas: vigor
  • Zeus: poder
  • Aquiles: coragem
  • Mercúrio: velocidade
As histórias do Capitão Marvel inovavam por, pela primeira vez, um super-herói ter uma família (Batman e Superman, entre outros, eram órfãos ou de família desfeita). Billy Batson, que julgava-se sozinho no mundo, descobre que tem um irmã gêmea, Mary, que tem poderes idênticos aos dele. Um amigo, o humilde jornaleiro Freddie Freeman cuja vida o Capitão Marvel salvou, torna-se um tipo de "irmão de criação" de Billy e Mary e também o Capitão Marvel Jr. Há também o tio Dudley, um farsante simpático que chama a si mesmo de Tio Marvel e, por fim, os primos Tenentes Marvel que, vejam só, chamam-se todos Billy Batson (distinguiam-se uns dos outros pelos apelidos de "alto", "das montanhas" e "gordo")! Essa família ficou conhecida como "Família Marvel".

O sucesso do Capitão Marvel foi imediato e esse sucesso nas HQs fez com que, em 1941, suas aventuras fossem levadas para as telas do cinema em um seriado de 12 episódios, muito comum nas décadas de 1930 e 1940 e que fazia a delícia dos espectadores. Em As Aventuras do Capitão Marvel, o herói era interpretado por Tom Tyler (No Tempo das Diligências) e Billy Batson era vivido por  Frank Coghlan Jr. (A Casa Infernal).

Cartaz do seriado As Aventuras do Capitão Marvel (1941)

As vendas do gibi do Capitão Marvel subiram tanto que superaram ninguém menos que o do Superman, o que fez a National Comics ficar com a pulga atrás da orelha, tanto que abriu um processo contra a Fawcett Comics alegando que o Mortal Mais Poderoso do Mundo era uma cópia descarada do Homem de Aço, o que soava absurdo tanto naquela época como hoje em dia. 

O fato é que o processo arrastou-se por vários anos até que, em 1953, devido a isso assim como às baixas vendas, a Fawcett Comics encerrou a publicação do gibi. Durante vinte anos os fãs do Capitão tiveram que contentar-se com as edições antigas. Em dezembro de 1967, a editora Marvel Comics, capitaneada pelo saudoso Stan Lee (1922-2018), lançou um personagem que chamava-se... Capitão Marvel! Este outro capitão era um alienígena guerreiro do planeta Kree e seu verdadeiro nome era Mar-Vell! Isso se deve ao fato da editora ter comprado os direitos do nome e, logo em seguida, lançou o gibi homônimo.

A DC Comics - novo nome da National Comics - licenciou a família Marvel original em 1972 e, no ano seguinte, lançou a revista Shazam! (no Brasil, foi lançada em 1974 pela antiga editora EBAL), pois não poderia lançar com o nome do herói visto que a concorrente já o fizera, mas colocou um provocativo subtítulo: "O Capitão Marvel original", o que provocou uma ameaça de processo por conta da Marvel Comics.

Edição brasileira da revista Shazam! publicada pela EBAL (1974)

Em 1974, a Filmation, antiga produtora de desenhos animados, séries e filmes, lançou o seriado de TV Shazam!, no qual Billy Batson era vivido por Michael Gray (Bobby Jo and The Good Time Band) e o Capitão Marvel foi interpretado primeiro por Jackson Bostwick (Tron) e, depois, por John Davey (Três Mulheres). A série apresentava um novo personagem, o Mentor (Les Tremayne, de A Guerra dos Mundos), um senhor que acompanhava Billy em suas aventuras. Shazam! durou três temporadas e teve 28 episódios.

Em 1979, os estúdios Hanna-Barbera produziram um filme para a TV chamado Legend of The Superheroes, no qual o Capitão (interpretado por Garrett Craig, da série O Homem do Fundo do Mar)  fazia parte da Liga da Justiça junto de heróis como Batman & Robin (o igualmente saudoso Adam West e Burt Ward, do seriado Batman, da década de 1960) e Lanterna Verde (Howard Murphy, da série CHiPs) e enfrentava um horda de vilões na qual estava incluso seu arqui-inimigo Dr. Silvana (Howard Morris, de Splash: Uma Sereia em Minha Vida).

A Filmation voltou a trabalhar com a família Marvel, desta vez em um série em desenho animado chamada Shazam!, que foi exibida em 1981 e 1982 (no Brasil em 1983) com todos os personagens originais. Foi, até então, a representação mais fiel dessa HQ.

Os direitos dos personagens só seriam adquiridos em definitivo em 1991, foram devidamente incorporados ao universo DC e o alter-ego de Billy Batson ainda usava o nome de Capitão Marvel. A partir de 2011, passou a ser chamado apenas de Shazam, nome usado tanto nas HQs quanto nos desenhos animados produzidos desde então. E neste filme? Sim e não, como veremos mais adiante.

O diretor David F. Sandberg (Quando as Luzes se Apagam), mais conhecido por filmes de terror como os da franquia Annabelle, fez o seu primeiro filme de super-heróis e não saiu-se mal. Ele conseguiu entrar no espírito das HQs originais e sua direção, ao mesmo tempo leve e dinâmica, conseguiu captar a fantasia e o humor que essas mesmas histórias tem. 

Dois bons exemplos desse humor são de duas cenas que mostram as conhecidas obsessões dos adolescentes nos EUA: comprar cerveja na loja de conveniência e assistir um show de striptease. É impossível não rir nesses momentos. Também são hilárias as tentativas de Freddy de tentar "batizar" o super-herói no qual Billy transformou-se.

Um parêntesis sobre Freddy Freeman: como foi visto acima, nas HQs ele era o Capitão Marvel Jr. Assim como seu amigo e "irmão de criação", também tornou-se muito popular e ganhou gibi próprio devido a fatores como ter um uniforme diferente, ter uma palavra mágica diferente ("Capitão Marvel!") e manter a aparência de adolescente.

Para que tenha-se uma ideia de como o Capitão Marvel Jr. era popular, ele tinha fãs ilustres como o Rei do Rock, Elvis Presley (1936-1977), que gostava tanto do alter-ego de Freddy Freeman, que chegou a copiar seu corte de cabelo! Outro fã famoso é o desenhista e ilustrador francês Albert Uderzo (1927- ), o grande criador de Asterix (veja aqui). Antes de desenhar o célebre guerreiro gaulês e sua turma, Uderzo desenhou e publicou na França a sua versão do Capitão Marvel Jr. com razoável sucesso.

Voltando para Shazam!, e mais especificamente ao nome do herói em quem Billy transforma-se, foi uma boa sacada não batizá-lo ainda, pois se o garoto disser que seu nome é SHAZAM, ele volta a ser um menino e, se estiver em situação de perigo, torna-se uma "roubada". E visto que Billy não gostou de nenhuma das sugestões de Freddy, fica mantido o interesse para a sequência (que já está confirmada): qual será o nome escolhido?

O elenco da série de TV Shazam! (1974)

Podem chamar-me de teimoso e cabeçudo, mas, para mim, o alter-ego de Billy Batson era, é, e sempre será CAPITÃO MARVEL, com todo respeito a Brie Larson (O Quarto de Jack) e a personagem que interpreta no filme Capitã Marvel (2019). Confesso que não assisti a esse filme, mas as opiniões que ouvi estavam divididas: a performance de Brie foi elogiada, por outro lado, há aqueles que disseram que a Capitã "é bonita, mas fria". 

Alguns críticos queixaram-se da fotografia escura do filme, a cargo de Maxime Alexandre (A Freira). Nas cenas noturnas, a fotografia, de fato, está um pouco escura, mas nada que atrapalhe para assistir a obra. Essa é uma tendência que vem sendo seguida desde o lançamento do mal compreendido Batman vs Superman (2016), mas não chega a ser novidade. O cineasta Tim Burton (Ed Wood) já usava esse recurso em filmes como Batman (1989) e no seu trabalho mais recente, Dumbo (2019). O seriado Titãs (2018- ) e O Mundo Sombrio de Sabrina (2018- ) também seguem essa linha.

Um ponto do filme que achei fraco foi sua trilha sonora, a cargo do inglês Benjamin Wallfisch (It), um apadrinhado do compositor alemão Hans Zimmer (Interestelar). A impressão que tive é que Benjamim estava pouco inspirado, pois não há nenhum trecho que seja fácil de lembrar e identificar só de ouvir.

Em contrapartida, o elenco é o ponto forte do filme, a começar pelo intérprete de Billy, Asher Angel. Ele é um garoto talentoso, simpático, engraçado e consegue passar todas essas características para a platéia. Agradou tanto que o produtores querem fazer a sequência para ontem, antes Asher cresça e corra o risco de perder essas mesmas características. 

Zachary Levi já havia demonstrado na TV durante as cinco temporadas do seriado Chuck (2007-2012) e mais recentemente na série A Maravilhosa Sra. Meisel (2017- ) pela qual ganhou neste ano o prêmio Screen Actors Guild de "Melhor Elenco em Série de Comédia", o seu talento tanto de comediante como de ator. 

Em Shazam!, dá para perceber que não só ele entrou no espírito do filme como também diverte-se pacas no papel - e nós com ele! Ele  está bem à vontade no papel e faz deste super-herói um molecão bagunceiro, do tipo que vive aprontando, mas é tão simpático que fica difícil zangar-se com ele.

Muitas pessoas conhecem Mark Strong Como o agente Merlin nos filmes da franquia Kingsman, por isso surpreenderam-se em vê-lo como vilão - e, diga-se de passagem, um vilão daqueles bem malvados. Porém, não é novidade para Mark, pois já havia interpretado anteriormente o igualmente ótimo vilão Lorde Henry Blackwood em Sherlock Holmes (2009), dirigido por Guy Ritchie (O Agente da U.N.C.L.E. Veja a crítica aqui) e com Robert Downey Jr. (franquia Homem de Ferro) no papel principal. Seja como herói ou como vilão, Mark atua com a mesma convicção.

Jack Dylan Grazer está no mesmo nível de Asher: é igualmente talentoso, simpático e engraçado. Se ele tivesse sido escolhido para o papel de Billy ao invés de Freddie, seria justo e não faria Shazam! cair de qualidade.

Do elenco coadjuvante quem destaca-se e chegar a "roubar" as cenas nas quais aparece, é Faithe Herman (série This is Us) no papel de Darla. Ela é simplesmente uma graçinha e fofa que só, capaz de amolecer o coração mais duro. Tomara que quando  crescer ela não perca essa graça e fofura.

Grace Fulton (franquia Annabelle) está correta como Mary, mas, levando-se em conta a importância da personagem nas HQs e na futura sequência, esperava mais. 

Já Cooper Andrews e Marta Milans estão bem e convencem como os pais adotivos modernos, amorosos e compreensíveis, mas, quando preciso, dão aquela bronca quando a molecada faz das suas.

A princípio parece que os personagens  de Ian Chen (Juntos Para Sempre) e Jovan Armand (Girl Flu) são estereotipados - o chinêsinho nerd viciado em games e o gorducho tímido e calado. Podem até ser, mas isso não é posto de um modo preconceituoso ou depreciativo, mas como representantes de minorias raciais e sociais perseguidas, incompreendidas e tidos como párias. Porém, como Augusto Matraga, brilhante criação do escritor brasileiro Guimarães Rosa (1908-1967), ambos tem sua hora e vez.

Chamar os demônios de Sete Pecados Capitais não está errado, mas, para mim, usar um termo religioso soou um pouco moralista. Seria melhor ter usado a denominação que é dada a eles nas HQs: Os Sete Inimigos Mortais do Homem. É pomposo? É, mas penso ser mais didático para crianças pequenas. Por fim, acho que deveriam ter feito os demônios representarem melhor seus caráteres: preguiça, preguiçoso; cobiça, ganancioso; etc.

Shazam! é diversão pura, mas não deixa de ter mensagens importantes: uma família não se define por laços de sangue, mas por laços de amor; ser diferente não é errado, a tolerância leva a um convívio melhor e, por conseguinte, a um mundo melhor. 

E levando-se em conta que atualmente vivemos em uma era das trevas na qual ódio, intolerância, preconceito e ignorância estão, infelizmente, em alta, as mensagens de Shazam! além de importantes, são imprescindíveis.


FICHA TÉCNICA
  • Título Original: Shazam!
  • Direção: David F. Sandberg
  • Elenco: Zachary Levi (Shazam / Capitão Marvel), Asher Angel (Billy Batson), Mark Strong (Dr. Thaddeus Silvana), Djimon Hounsou (Mago Shazam), Jack Dylan Grazer (Freddie Freeman), Grace Fulton (Mary Bromfield), Ian Chen (Eugene Choi), Jovan Armand (Pedro Peña), Faithe Herman (Darla Dudley), Cooper Andrews (Victor Vasquez), Marta Milans (Rosa Vasquez), Adam Brody (Freddie transformado), Michele Borth (Mary transformada), Ross Butler (Eugene transformado), D. J. Coltrona (Pedro transformado), Meagan Good (Darla transformada)
  • Roteiro: Henry Gayden, Darren Lemke
  • Música: Benjamin Wallfisch
  • Fotografia: Maxime Alexandre
  • Duração: 132 minutos
  • Ano: 2019
  • Lançamento comercial no Brasil: 04/04/2019

          RESUMO DO FILME

Após receber os poderes do mago Shazam, Billy Batson transforma-se em um super-herói ao dizer a palavra mágica e deve enfrentar o Dr. Silvana e os demônios dos Sete Pecados Capitais.
 
COTAÇÃO
✪✪✪✪½

Veja aqui o primeiro episódio da série cinematográfica As Aventuras do Capitão Marvel (legendado):



Veja aqui o trailer oficial de Shazam! (dublado - HD):



Publicado no LinkedIn e no AdoroCinema em 

quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Crítica: Rambo - Até o Fim | Fórmula Que Sucumbiu ao Tempo


Panorama do Cinema vem com uma novidade: nossa primeira crítica em vídeo! Neste vídeo, que também pode ser encontrado em nosso canal no YouTube, João Carlos Correia faz a crítica do filme Rambo: Até o Fim.

Por ser o primeiro vídeo editado e produzido por Panorama do Cinema podem haver algumas falhas e, devido a isso, pedimos sua compreensão e paciência.


Texto completo será postado em breve.

Veja abaixo o vídeo com a crítica do filme Rambo: Até o Fim (HD):



FICHA TÉCNICA
  • Título Original: Rambo: Last Blood
  • Direção: Adrian Gunberg
  • Elenco: Sylvester Stallone (John Rambo), Paz Vega (Carmen Delgado), Yvette Monreal (Gabriela), Adriana Barraza (Maria), Sergio Peris-Mencheta (Hugo Martinez), Óscar Jaenada (Victor Martinez)
  • Roteiro: Sylvester Stallone, Matt Cirulnick
  • Música: Brian Tyler
  • Fotografia: Brendan Galvin
  • Duração: 89 minutos
  • Ano: 2019
  • Lançamento comercial no Brasil: 19/09/2019

          RESUMO DO FILME

Após a morte de uma jovem a quem tinha como da família, Rambo jura vingança contra o cartel de drogas que a matou.
 
COTAÇÃO
✪✪

Veja aqui o trailer oficial de Rambo: Até o Fim (legendado - HD):





sexta-feira, 28 de junho de 2019

Memória | O legado de Rubens Ewald Filho, o pai da crítica brasileira contemporânea


Faleceu em 21/06/2019, aos 74 anos, o mais famoso crítico de cinema brasileiro de sempre: Rubens Ewald Filho. Sua importância foi tão grande a ponto de ser impossível falar em cinema no Brasil, sem falar dele.

Rubens Ewald Filho nasceu no dia 7 de março de 1945, na cidade de Santos - SP. Quando criança, adquiriu o hábito de anotar em um caderno todos os dados a respeito de um filme (elenco, direção, etc), hábito que manteve até pouco antes de sua morte. Estima-se que ele tenha assistido mais de 37.500 filmes durante sua vida.

Começou sua carreira jornalística no jornal A Tribuna, em Santos. Logo foi para a televisão, começando na Rede Cultura, passando pela Redes Globo, SBT, Record e, em seus últimos anos, no canal pago TNT. 

Rubens Ewald Filho não foi o primeiro jornalista brasileiro a fazer a cobertura do Oscar, mas foi ele que ajudou a popularizar a transmissão do prêmio em nosso país. Além disso, ajudou a tornar de modo mais acessível ao grande público o significado de termos técnicos tais como cinematografia, montagem, entre outros.

Além da crítica, Rubens Ewald Filho também foi roteirista, adaptando obras literárias como Éramos Seis (de Maria José Dupré) e Iaiá Garcia (Machado de Assis) e, inspirado pelo romance Drácula (Bram Stoker), foi o autor da novela Drácula, Uma História de Amor, em 1980, primeiro na Rede Tupi (que, logo após o início da transmissão, seria extinta) e, depois no mesmo ano, para a Rede Bandeirantes com o nome de Um Homem Muito Especial.

Também trabalhou como ator em filmes, dentre estes Amor Estranho Amor (1982), de Walter Hugo Khouri (1929-2003), cineasta que muito admirava. Arriscou dirigir peças teatrais como Doce Veneno, baseado no livro O Doce Veneno do Escorpião, da escritora e ex-garota de programa Bruna Surfistinha.

Ainda foi curador de vários festivais tais como o Festival de Gramado (RS) e o Festival de Paulínia (SP) e ajudou na seleção e lançamento de filmes de grande repercussão. Não bastasse, ainda escreveu livros sobre a Sétima Arte tais como Dicionário de Cineastas, o Oscar e Eu e o popular guia de filmes da antiga revista Video News.

Rubens Ewald Filho esteve presente em minha vida desde a infância. Além das exibições das cerimônias do Oscar, lembro-me de suas críticas de filmes no Jornal Hoje, da Rede Globo, na década de 1970; e, na mesma época, como apresentador da série documental Isto é Hollywood (sobre filmes da 20th Century Fox), exibida pela Rede Cultura, onde depois apresentou outro programa - cujo nome não me recordo - onde fazia uma pequena análise do filme antes da sua exibição. Um desses filmes foi a comédia Queijo Suíço (1938) da dupla O Gordo & O Magro.

A primeira vez que o vi pessoalmente, foi em 2015, na "cabine" (sessão para críticos) do filme A Travessia (veja aqui). Fiquei surpreso em ver como ele era alto, quase tanto quanto um jogador de basquete ou volei. Tive vontade de falar com ele, mas, confesso, tive vergonha...

A segunda vez, foi no mesmo ano, na "cabine" de Hotel Transilvânia 2 (veja aqui). Novamente, a vergonha impediu-me de aproximar-me do crítico. A terceira vez foi em 2016, durante a cabine de Voando Alto (veja aqui). Ele estava sentado em uma mesa esperando como os outros críticos pelo início da "cabine". Desta vez, chutei a vergonha para escanteio e, como quem não quer nada, sentei-me próximo.

Começamos a conversar. Eu o via, ouvia e pensava: "Igualzinho como na TV". Pedi a opinião sobre o filme O Encontro, com Richard Gere (Gigolô Americano). Ele disse que não gostou e que esse tipo de filme estava manjado. Eu disse que tinha boas expectativas sobre Um Gato de Rua Chamado Bob (veja aqui), mas ele estava cético.

Também falei sobre o filme alemão Ele Está de Volta (veja aqui). Ele disse que ainda iria ver e ficou surpreso quando eu disse que o romance no qual o filme baseava-se foi publicado e era vendido no Brasil. Já quanto a Voando Alto, disse que havia sido bem recebido pela crítica do exterior (fiz uma pesquisa antes) e pareceu que o seu interesse foi desperto.

Bem, a "cabine" correu normalmente e, ao final dela, ele estava bem entusiasmado, elogiou a performance de Taron Egerton (franquia Kingsman) e disse que o fez lembrar dos seus velhos tempos - foi atleta em sua juventude. Eu também gostei muito do filme e fiquei feliz em saber que tínhamos a mesma opinião. 

Depois, só veria Rubens Ewald Filho rapidamente neste ano, na coletiva de imprensa do filme nacional Sai de Baixo. Eu ouvi falar mais uma vez dele quando do acidente que teve em uma escada rolante, quando teve um desmaio, caiu e foi internado em estado grave. Apesar disso, eu achava que ele sairia dessa, mas o destino tinha outros planos...

Como toda pessoa famosa também tinha suas polêmicas. Embora respeitado como crítico, não eram poucos os que achavam que seu estilo era ácido, embora eu pensasse que ele era irônico, mas, nos últimos anos, achei que suas críticas, com as exceções de praxe, estavam um tanto amargas.

Outra polêmica vieram de seus comentários da atriz estadunidense, Frances McDormand, e da atriz chilena trans Daniela Vega, que foram considerados grosseiros e preconceituosos e, como consequência, não participou da transmissão do Oscar deste ano. De minha parte, acho que esses erros ele os cometeu mais como homem do que como crítico. 

Influência para muitos críticos brasileiros, inclusive eu mesmo, Rubens Ewald Filho pode ser considerado, com justiça, o pai da crítica brasileira contemporânea. E nós, críticos de cinema "filhos do Rubens", temos como missão deixar o seu legado sempre vivo. Ele vai fazer falta. E como! Que descanse em paz.



Veja aqui uma entrevista com Rubens Ewald Filho, feita em 2018, para a agência Ethos Comunicação e Arte:



Publicado no LinkedIn em 28/06/2019.

quarta-feira, 5 de junho de 2019

Crítica: O Homem Que Matou Don Quixote | Quixote vive!


Miguel de Cervantes Saavedra, que passou à história com o nome de Miguel de Cervantes (1547-1616), é considerado o maior escritor de língua espanhola de sempre. Suas principais obras são Novelas Exemplares (publicado em 1613) e, a sua obra prima, O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de La Mancha (publicado em duas partes: a primeira em 1605 e a segunda em 1615). 

Dom Quixote narra, em modo de paródia, a história desse fidalgo que perdeu a razão de tanto ler romances de cavalaria e pretendia imitar os feitos de seus heróis literários. Armado de lança e vestindo uma velha armadura, cavalgava um cavalo magro chamado Rocinante. Acompanhava-o em suas aventuras o fiel escudeiro Sancho Pança, sempre viajando em seu burrico. 

A dupla viveu várias aventuras - e muito mais desventuras. Enquanto Dom Quixote tinha uma visão idealista e sonhadora de tudo - como, por exemplo, na famosa cena a qual confunde moinhos de vento com gigantes -, Sancho Pança tinha a visão realista, representando o bom senso. Através do humor e da ironia, Cervantes criticava o mundo de então.

O livro foi, e ainda é, um grande sucesso, ultrapassando as fronteiras da Espanha, transformou-se em um clássico universal e as figuras do Cavaleiro da Triste Figura (alcunha de Dom Quixote) e de seu escudeiro tornaram-se extremamente populares. O termo "quixotesco" tornou-se sinônimo de alguém com intenções boas e ideais nobres, mas sonhador e afastado da realidade.

Toby Grisone (Adam Driver de Star Wars: Os Últimos Jedis. Veja a crítica aqui) é um cineasta talentoso, mas arrogante e mulherengo, que está na Espanha fazendo um filme para uma campanha comercial inspirado no livro Dom Quixote de La Mancha e envolve-se com Jacqui, a esposa (Olga Kurylenko, de 007 - Quantum of Solace) de seu chefe (Stellan Skarsgård, da franquia Thor). Um cigano (Óscar Jaenada, de Águas Rasas) vende a Toby um DVD de um filme chamado O Homem Que Matou Don Quixote que, por coincidência, foi o filme que fez também na Espanha quando ainda era estudante para a formatura de seu curso de cinema.

Depois de quase ser pego em flagrante junto com Jacqui pelo chefe, Toby decide ir para o pequeno povoado onde realizou O Homem Que Matou Don Quixote para encontrar inspiração e também algumas das pessoas que atuaram no filme. Descobre que a bonita Angélica (a portuguesa Joana Ribeiro, de O Caderno Negro), que interpretou Dulcinéia, foi embora do povoado. Também descobre que o intérprete de Dom Quixote, o sapateiro Javier (Jonathan Pryce, de A Esposa. Veja a crítica aqui), enlouqueceu e acredita ser o próprio personagem. 

Ao ver na estrada um letreiro escrito "Quixote vive", Toby segue a trilha e vê que Javier, vestido com a armadura de Dom Quixote, é explorado por uma velha em um cinema-poeira. Ao ver Toby, Javier o confunde com o escudeiro Sancho Pança, escapa do lugar, mas, durante a fuga, provoca um incêndio. Ao retornar ao local das filmagens, Toby é preso pela polícia acusado de ter provocado o incêndio no cinema-poeira. A partir daí, começa a sua bizarra aventura.

O livro de Miguel de Cervantes teve várias adaptações para o teatro, balé, ópera e, claro, cinema, sendo que uma das versões mais conhecidas é a do cineasta e ator Orson Welles (Cidadão Kane), que trabalhou no filme durante anos, teve várias interrupções devido à falta de verba para a produção e ficou inacabado. No papel de dom Quixote estava o ator espanhol Francisco Reiguera (Simão do Deserto) e no de Sancho Pança estava o russo Akim Tamiroff (Por Quem os Sinos Dobram).  Embora estivessem incompletas, as fitas foram posteriormente reunidas, montadas  e exibidas no Festival de Cannes, em 1992, com o nome de Dom Quixote, de Orson Welles. 

O Homem Que Matou Don Quixote é um filme que entrou para a história por razões semelhantes às do filme de Welles: foram várias tentativas frustradas de realização e produção, além de vários nomes envolvidos - além do próprio diretor Terry Gilliam (Os 12 Macacos) - como os intérpretes Jean Rochefort (Asterix e Obelix: Ao Serviço de Sua Majestade), Johnny Depp (franquia Piratas do Caribe), Vanessa Paradis (Rio, Eu Te amo), Robert Duvall (saga O Poderoso Chefão), Michael Palin (Um Peixe Chamado Wanda), John Hurt (V de Vingança) e Ewan McGregor (Moulin Rouge).

O Homem Que Matou Don Quixote inicia com uma auto-ironia "Após 25 anos de espera...". Mas, a espera valeu a pena? A resposta é: Depende do seu ponto vista.

Se você é daqueles que espera uma superprodução digna dos maiores estúdios de Hollywood ou um filme revolucionário, prepare-se para ficar decepcionado. O Homem Que Matou Don Quixote teve um custo de "apenas" U$ 16 milhões, baixo para padrões hollywoodianos. Não chega a ser revolucionário, mas é daqueles filmes que, com o passar do tempo e as posteriores revisões, tem tudo para tornar-se um Cult Movie.

O Homem Que Matou Don Quixote segue a linha de trabalhos anteriores de Gilliam, uma fantasia imaginativa na qual seus personagens andam por uma linha muito estreita que separa a sanidade da loucura. As críticas à sociedade materialista e seus interesses mesquinhos por dinheiro, fama, poder e sexo também são mantidas.

O Homem Que Matou Don Quixote por vezes lembra as produções do próprio Gilliam da década de 1980 tais como Bandidos do Tempo (1981) e As Aventuras do Barão de Munchausen (1988), daí a impressão de parecer "datado", mas trata-se do estilo do diretor. O ritmo é um pouco arrastado, o que pode cansar a platéia. 

Filmado na Espanha e em Portugal, O Homem Que Matou Don Quixote mostra fartamente as belas e variáveis paisagens da Península Ibérica que vão desde regiões semidesérticas a outras exuberantemente verdes, em um belo trabalho de fotografia do velho colaborador de Terry Gilliam, Nicola Pecorini (Ra.One).

Desde que iniciou o seu trabalho na saga Star Wars, Adam Driver vem sendo cada vez mais requisitado para novos filmes que mostram o seu grande talento de interpretação que, inclusive, lhe valeu uma indicação ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante deste ano por Infiltrado na Klan (2018).

Porém, em O Homem Que Matou Don Quixote, ele parece um pouco deslocado. Sua atuação continua competente (embora em algumas cenas esteja exagerado), mas a impressão que deixa é que comédia não é a praia dele. Mas, ainda assim, a balança pende a favor.

Joana Ribeiro é ainda muito pouco conhecida fora de Portugal, mas mostra que é tão bonita quanto competente e, se conseguir mais  trabalhos de destaque, pode muito bem ter uma boa carreira internacional tal como sua predecessora, Maria de Medeiros (Pulp Fiction).

Quem dá um verdadeiro show e rouba todas as cenas em que aparece é, sem dúvida, Jonathan Pryce. Vencedor do prêmio de Melhor Ator em Cannes por Carrington (1995) e também um costumeiro colaborador de Gilliam, esse veterano e sempre ótimo ator do País de Gales está tão bem no papel-título que é difícil acreditar que ele não seja o próprio Dom Quixote!

Olga Kurylenko faz um papel um tanto ingrato como a mulher bonita e infiel do chefe que quer, a todo custo transar com o empregado de seu marido. Ingrato por não ser a primeira vez que interpreta esse tipo de personagem, mas não compromete, assim como o restante do elenco.

O Homem Que Matou Don Quixote teve sua première mundial no Festival de Cannes deste ano e teve críticas mornas da imprensa internacional. Pode ser considerado um trabalho menor de Gilliam, mas, para mim, sem ser uma obra-prima, é um bom filme que vai melhorar com o tempo. 

Seu maior mérito é mostrar, através do Cavaleiro da Triste Figura, que, se sonhar demais pode alienar-nos da realidade que nos cerca, inclusive a servir como uma espécie de fuga, viver sem um sonho é simplesmente horrível e triste, pois são os sonhos que nos tornam humanos e faz com que vida ainda valha a pena ser vivida.

Por tudo isso é que o engenhoso fidalgo Dom Quixote de La Mancha vive. E viverá para sempre!

FICHA TÉCNICA
  • Título Original: The Man Who Killed Don Quixote
  • Direção: Terry Gilliam
  • Elenco: Adam Driver (Toby Grisoni), Jonathan Pryce (Javier/Dom Quixote), Stellan Skarsgård (chefe de Toby), Olga Kurylenko (Jacqui), Joana Ribeiro (Angélica), Óscar Jaenada (o cigano)
  • Roteiro: Terry Gilliam, Tony Grisoni
  • Música: Roque Baños
  • Fotografia: Nicola Pecorini
  • Duração: 132 minutos
  • Ano: 2018
  • Lançamento comercial no Brasil: 06/06/2019

          RESUMO DO FILME

Toby Grisoni, um talentoso e arrogante cineasta, dirige seu novo filme na Espanha, onde esteve dez anos antes como um estudante de cinema e fez seu primeiro filme usando os habitantes locais no elenco. Ao reencontrar com os antigos intérpretes desse filme, entra em uma aventura bizarra.
 
COTAÇÃO
✪✪✪


Veja aqui o trailer oficial de O Homem Que Matou Don Quixote (legendado - HD):


Publicado no AdoroCinema e no LinkedIn em 05/06/2019.