Bem-Vindos a Panorama do Cinema"


Panorama do Cinema dá as boas-vindas aos seu leitores e amigos por meio deste vídeo gerado pela Inteligência Artificial (IA).

 

Editorial


Estamos de Volta!

Olá a todos! Depois de um longo hiato, Panorama do Cinema está de volta! Esta ausência deveu-se a motivos pessoais que impediram a continuidade do trabalho. Mas, agora estamos de volta no melhor estilo "a volta dos que não foram", com mais de 10 anos anos nas costas e com novidades. Vocês já devem ter reparado que a página teve uma "turbinada" que inclui este editorial, o vídeo de boas vindas feito com a Inteligência Artificial (IA) e atualizações das redes sociais e, em breve, novas edições de podcasts. Como estamos em plena Copa do Mundo, iniciamos o nosso retorno com posts sobre futebol tais como a Série Especial "Filmes sobre futebol para assistir antes da Copa do Mundo acabar" e a matéria "Veja os criativos, divertidos e irados animes e vídeos de IA da Copa do Mundo". Mas, não nos limitaremos apenas à paixão nacional. Logo voltaremos com mais artigos, matérias e críticas de filmes, que são a razão de ser deste espaço. E, neste retorno, nos comprometemos a fazer, pelo menos, um texto por mês. Não deu para não notar que, apesar da longa ausência, vocês nunca deixaram de nos visitar e ver nossos textos publicados anteriormente. Panorama do Cinema se comove e agradece de todo o coração pela sua fidelidade e gentileza. Panorama do Cinema espera que vocês apreciem esta nova fase e que continuem a nos visitar sempre. Boas leituras e boa diversão!

sexta-feira, 28 de junho de 2019

Memória | O legado de Rubens Ewald Filho, o pai da crítica brasileira contemporânea


Faleceu em 21/06/2019, aos 74 anos, o mais famoso crítico de cinema brasileiro de sempre: Rubens Ewald Filho. Sua importância foi tão grande a ponto de ser impossível falar em cinema no Brasil, sem falar dele.

Rubens Ewald Filho nasceu no dia 7 de março de 1945, na cidade de Santos - SP. Quando criança, adquiriu o hábito de anotar em um caderno todos os dados a respeito de um filme (elenco, direção, etc), hábito que manteve até pouco antes de sua morte. Estima-se que ele tenha assistido mais de 37.500 filmes durante sua vida.

Começou sua carreira jornalística no jornal A Tribuna, em Santos. Logo foi para a televisão, começando na Rede Cultura, passando pela Redes Globo, SBT, Record e, em seus últimos anos, no canal pago TNT

Rubens Ewald Filho não foi o primeiro jornalista brasileiro a fazer a cobertura do Oscar, mas foi ele que ajudou a popularizar a transmissão do prêmio em nosso país. Além disso, ajudou a tornar de modo mais acessível ao grande público o significado de termos técnicos tais como cinematografia, montagem, entre outros.

Além da crítica, Rubens Ewald Filho também foi roteirista, adaptando obras literárias como Éramos Seis (de Maria José Dupré) e Iaiá Garcia (Machado de Assis) e, inspirado pelo romance Drácula (Bram Stoker), foi o autor da novela Drácula, Uma História de Amor, em 1980, primeiro na Rede Tupi (que, logo após o início da transmissão, seria extinta) e, depois no mesmo ano, para a Rede Bandeirantes com o nome de Um Homem Muito Especial.

Também trabalhou como ator em filmes, dentre estes Amor Estranho Amor (1982), de Walter Hugo Khouri (1929-2003), cineasta que muito admirava. Arriscou dirigir peças teatrais como Doce Veneno, baseado no livro O Doce Veneno do Escorpião, da escritora e ex-garota de programa Bruna Surfistinha.

Ainda foi curador de vários festivais tais como o Festival de Gramado (RS) e o Festival de Paulínia (SP) e ajudou na seleção e lançamento de filmes de grande repercussão. Não bastasse, ainda escreveu livros sobre a Sétima Arte tais como Dicionário de Cineastas, o Oscar e Eu e o popular guia de filmes da antiga revista Video News.

Rubens Ewald Filho esteve presente em minha vida desde a infância. Além das exibições das cerimônias do Oscar, lembro-me de suas críticas de filmes no Jornal Hoje, da Rede Globo, na década de 1970; e, na mesma época, como apresentador da série documental Isto é Hollywood (sobre filmes da 20th Century Fox), exibida pela Rede Cultura, onde depois apresentou outro programa - cujo nome não me recordo - onde fazia uma pequena análise do filme antes da sua exibição. Um desses filmes foi a comédia Queijo Suíço (1938) da dupla O Gordo & O Magro.

A primeira vez que o vi pessoalmente, foi em 2015, na "cabine" (sessão para críticos) do filme A Travessia (veja aqui). Fiquei surpreso em ver como ele era alto, quase tanto quanto um jogador de basquete ou volei. Tive vontade de falar com ele, mas, confesso, tive vergonha...

A segunda vez, foi no mesmo ano, na "cabine" de Hotel Transilvânia 2 (veja aqui). Novamente, a vergonha impediu-me de aproximar-me do crítico. A terceira vez foi em 2016, durante a cabine de Voando Alto (veja aqui). Ele estava sentado em uma mesa esperando como os outros críticos pelo início da "cabine". Desta vez, chutei a vergonha para escanteio e, como quem não quer nada, sentei-me próximo.

Começamos a conversar. Eu o via, ouvia e pensava: "Igualzinho como na TV". Pedi a opinião sobre o filme O Encontro, com Richard Gere (Gigolô Americano). Ele disse que não gostou e que esse tipo de filme estava manjado. Eu disse que tinha boas expectativas sobre Um Gato de Rua Chamado Bob (veja aqui), mas ele estava cético.

Também falei sobre o filme alemão Ele Está de Volta (veja aqui). Ele disse que ainda iria ver e ficou surpreso quando eu disse que o romance no qual o filme baseava-se foi publicado e era vendido no Brasil. Já quanto a Voando Alto, disse que havia sido bem recebido pela crítica do exterior (fiz uma pesquisa antes) e pareceu que o seu interesse foi desperto.

Bem, a "cabine" correu normalmente e, ao final dela, ele estava bem entusiasmado, elogiou a performance de Taron Egerton (franquia Kingsman) e disse que o fez lembrar dos seus velhos tempos - foi atleta em sua juventude. Eu também gostei muito do filme e fiquei feliz em saber que tínhamos a mesma opinião. 

Depois, só veria Rubens Ewald Filho rapidamente neste ano, na coletiva de imprensa do filme nacional Sai de Baixo. Eu ouvi falar mais uma vez dele quando do acidente que teve em uma escada rolante, quando teve um desmaio, caiu e foi internado em estado grave. Apesar disso, eu achava que ele sairia dessa, mas o destino tinha outros planos...

Como toda pessoa famosa também tinha suas polêmicas. Embora respeitado como crítico, não eram poucos os que achavam que seu estilo era ácido, embora eu pensasse que ele era irônico, mas, nos últimos anos, achei que suas críticas, com as exceções de praxe, estavam um tanto amargas.

Outra polêmica vieram de seus comentários da atriz estadunidense, Frances McDormand, e da atriz chilena trans Daniela Vega, que foram considerados grosseiros e preconceituosos e, como consequência, não participou da transmissão do Oscar deste ano. De minha parte, acho que esses erros ele os cometeu mais como homem do que como crítico. 

Influência para muitos críticos brasileiros, inclusive eu mesmo, Rubens Ewald Filho pode ser considerado, com justiça, o pai da crítica brasileira contemporânea. E nós, críticos de cinema "filhos do Rubens", temos como missão deixar o seu legado sempre vivo. Ele vai fazer falta. E como! Que descanse em paz.



Veja aqui uma entrevista com Rubens Ewald Filho, feita em 2018, para a agência Ethos Comunicação e Arte:



Publicado no LinkedIn em 28/06/2019.

quarta-feira, 5 de junho de 2019

Crítica: O Homem Que Matou Don Quixote | Quixote vive!


Miguel de Cervantes Saavedra, que passou à história com o nome de Miguel de Cervantes (1547-1616), é considerado o maior escritor de língua espanhola de sempre. Suas principais obras são Novelas Exemplares (publicado em 1613) e, a sua obra prima, O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de La Mancha (publicado em duas partes: a primeira em 1605 e a segunda em 1615). 

Dom Quixote narra, em modo de paródia, a história desse fidalgo que perdeu a razão de tanto ler romances de cavalaria e pretendia imitar os feitos de seus heróis literários. Armado de lança e vestindo uma velha armadura, cavalgava um cavalo magro chamado Rocinante. Acompanhava-o em suas aventuras o fiel escudeiro Sancho Pança, sempre viajando em seu burrico. 

A dupla viveu várias aventuras - e muito mais desventuras. Enquanto Dom Quixote tinha uma visão idealista e sonhadora de tudo - como, por exemplo, na famosa cena a qual confunde moinhos de vento com gigantes -, Sancho Pança tinha a visão realista, representando o bom senso. Através do humor e da ironia, Cervantes criticava o mundo de então.

O livro foi, e ainda é, um grande sucesso, ultrapassando as fronteiras da Espanha, transformou-se em um clássico universal e as figuras do Cavaleiro da Triste Figura (alcunha de Dom Quixote) e de seu escudeiro tornaram-se extremamente populares. O termo "quixotesco" tornou-se sinônimo de alguém com intenções boas e ideais nobres, mas sonhador e afastado da realidade.

Toby Grisone (Adam Driver de Star Wars: Os Últimos Jedis. Veja a crítica aqui) é um cineasta talentoso, mas arrogante e mulherengo, que está na Espanha fazendo um filme para uma campanha comercial inspirado no livro Dom Quixote de La Mancha e envolve-se com Jacqui, a esposa (Olga Kurylenko, de 007 - Quantum of Solace) de seu chefe (Stellan Skarsgård, da franquia Thor). Um cigano (Óscar Jaenada, de Águas Rasas) vende a Toby um DVD de um filme chamado O Homem Que Matou Don Quixote que, por coincidência, foi o filme que fez também na Espanha quando ainda era estudante para a formatura de seu curso de cinema.

Depois de quase ser pego em flagrante junto com Jacqui pelo chefe, Toby decide ir para o pequeno povoado onde realizou O Homem Que Matou Don Quixote para encontrar inspiração e também algumas das pessoas que atuaram no filme. Descobre que a bonita Angélica (a portuguesa Joana Ribeiro, de O Caderno Negro), que interpretou Dulcinéia, foi embora do povoado. Também descobre que o intérprete de Dom Quixote, o sapateiro Javier (Jonathan Pryce, de A Esposa. Veja a crítica aqui), enlouqueceu e acredita ser o próprio personagem. 

Ao ver na estrada um letreiro escrito "Quixote vive", Toby segue a trilha e vê que Javier, vestido com a armadura de Dom Quixote, é explorado por uma velha em um cinema-poeira. Ao ver Toby, Javier o confunde com o escudeiro Sancho Pança, escapa do lugar, mas, durante a fuga, provoca um incêndio. Ao retornar ao local das filmagens, Toby é preso pela polícia acusado de ter provocado o incêndio no cinema-poeira. A partir daí, começa a sua bizarra aventura.

O livro de Miguel de Cervantes teve várias adaptações para o teatro, balé, ópera e, claro, cinema, sendo que uma das versões mais conhecidas é a do cineasta e ator Orson Welles (Cidadão Kane), que trabalhou no filme durante anos, teve várias interrupções devido à falta de verba para a produção e ficou inacabado. No papel de dom Quixote estava o ator espanhol Francisco Reiguera (Simão do Deserto) e no de Sancho Pança estava o russo Akim Tamiroff (Por Quem os Sinos Dobram).  Embora estivessem incompletas, as fitas foram posteriormente reunidas, montadas  e exibidas no Festival de Cannes, em 1992, com o nome de Dom Quixote, de Orson Welles

O Homem Que Matou Don Quixote é um filme que entrou para a história por razões semelhantes às do filme de Welles: foram várias tentativas frustradas de realização e produção, além de vários nomes envolvidos - além do próprio diretor Terry Gilliam (Os 12 Macacos) - como os intérpretes Jean Rochefort (Asterix e Obelix: Ao Serviço de Sua Majestade), Johnny Depp (franquia Piratas do Caribe), Vanessa Paradis (Rio, Eu Te amo), Robert Duvall (saga O Poderoso Chefão), Michael Palin (Um Peixe Chamado Wanda), John Hurt (V de Vingança) e Ewan McGregor (Moulin Rouge).

O Homem Que Matou Don Quixote inicia com uma auto-ironia "Após 25 anos de espera...". Mas, a espera valeu a pena? A resposta é: Depende do seu ponto vista.

Se você é daqueles que espera uma superprodução digna dos maiores estúdios de Hollywood ou um filme revolucionário, prepare-se para ficar decepcionado. O Homem Que Matou Don Quixote teve um custo de "apenas" U$ 16 milhões, baixo para padrões hollywoodianos. Não chega a ser revolucionário, mas é daqueles filmes que, com o passar do tempo e as posteriores revisões, tem tudo para tornar-se um Cult Movie.

O Homem Que Matou Don Quixote segue a linha de trabalhos anteriores de Gilliam, uma fantasia imaginativa na qual seus personagens andam por uma linha muito estreita que separa a sanidade da loucura. As críticas à sociedade materialista e seus interesses mesquinhos por dinheiro, fama, poder e sexo também são mantidas.

O Homem Que Matou Don Quixote por vezes lembra as produções do próprio Gilliam da década de 1980 tais como Bandidos do Tempo (1981) e As Aventuras do Barão de Munchausen (1988), daí a impressão de parecer "datado", mas trata-se do estilo do diretor. O ritmo é um pouco arrastado, o que pode cansar a platéia. 

Filmado na Espanha e em Portugal, O Homem Que Matou Don Quixote mostra fartamente as belas e variáveis paisagens da Península Ibérica que vão desde regiões semidesérticas a outras exuberantemente verdes, em um belo trabalho de fotografia do velho colaborador de Terry Gilliam, Nicola Pecorini (Ra.One).

Desde que iniciou o seu trabalho na saga Star Wars, Adam Driver vem sendo cada vez mais requisitado para novos filmes que mostram o seu grande talento de interpretação que, inclusive, lhe valeu uma indicação ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante deste ano por Infiltrado na Klan (2018).

Porém, em O Homem Que Matou Don Quixote, ele parece um pouco deslocado. Sua atuação continua competente (embora em algumas cenas esteja exagerado), mas a impressão que deixa é que comédia não é a praia dele. Mas, ainda assim, a balança pende a favor.

Joana Ribeiro é ainda muito pouco conhecida fora de Portugal, mas mostra que é tão bonita quanto competente e, se conseguir mais  trabalhos de destaque, pode muito bem ter uma boa carreira internacional tal como sua predecessora, Maria de Medeiros (Pulp Fiction).

Quem dá um verdadeiro show e rouba todas as cenas em que aparece é, sem dúvida, Jonathan Pryce. Vencedor do prêmio de Melhor Ator em Cannes por Carrington (1995) e também um costumeiro colaborador de Gilliam, esse veterano e sempre ótimo ator do País de Gales está tão bem no papel-título que é difícil acreditar que ele não seja o próprio Dom Quixote!

Olga Kurylenko faz um papel um tanto ingrato como a mulher bonita e infiel do chefe que quer, a todo custo transar com o empregado de seu marido. Ingrato por não ser a primeira vez que interpreta esse tipo de personagem, mas não compromete, assim como o restante do elenco.

O Homem Que Matou Don Quixote teve sua première mundial no Festival de Cannes deste ano e teve críticas mornas da imprensa internacional. Pode ser considerado um trabalho menor de Gilliam, mas, para mim, sem ser uma obra-prima, é um bom filme que vai melhorar com o tempo. 

Seu maior mérito é mostrar, através do Cavaleiro da Triste Figura, que, se sonhar demais pode alienar-nos da realidade que nos cerca, inclusive a servir como uma espécie de fuga, viver sem um sonho é simplesmente horrível e triste, pois são os sonhos que nos tornam humanos e faz com que vida ainda valha a pena ser vivida.

Por tudo isso é que o engenhoso fidalgo Dom Quixote de La Mancha vive. E viverá para sempre!

FICHA TÉCNICA
  • Título Original: The Man Who Killed Don Quixote
  • Direção: Terry Gilliam
  • Elenco: Adam Driver (Toby Grisoni), Jonathan Pryce (Javier/Dom Quixote), Stellan Skarsgård (chefe de Toby), Olga Kurylenko (Jacqui), Joana Ribeiro (Angélica), Óscar Jaenada (o cigano)
  • RoteiroTerry Gilliam, Tony Grisoni
  • Música: Roque Baños
  • Fotografia: Nicola Pecorini
  • Duração: 132 minutos
  • Ano: 2018
  • Lançamento comercial no Brasil: 06/06/2019

          RESUMO DO FILME

Toby Grisoni, um talentoso e arrogante cineasta, dirige seu novo filme na Espanha, onde esteve dez anos antes como um estudante de cinema e fez seu primeiro filme usando os habitantes locais no elenco. Ao reencontrar com os antigos intérpretes desse filme, entra em uma aventura bizarra.
 
COTAÇÃO
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Veja aqui o trailer oficial de O Homem Que Matou Don Quixote (legendado - HD):


Publicado no AdoroCinema e no LinkedIn em 05/06/2019.

quinta-feira, 23 de maio de 2019

Werner Herzog dirige documentário sobre Mikhail Gorbachov


Em 11/03/1985, o Politburo da União Soviética (URSS) elegeu o novo secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética (PCUS), que também era o novo líder da nação, Mikhail Sergeevitch Gorbachov (1931- ), que ficou internacionalmente conhecido como Mikhail Gorbatchov. Quem acompanhou atentamente essa escolha logo percebeu que iriam soprar ventos da mudança no estado comunista.

E sopraram mesmo! Com as políticas da Glasnost (transparência, em russo) e Perestroika (reestruturação), Gorbachov queria reformar o burocratizado sistema soviético para algo mais simples e dinâmico e teve apoio popular tanto dentro como fora da URSS. Sob seu governo, as tropas soviéticas foram retiradas do Afeganistão após anos de luta e houve uma grande redução de armas nucleares, em um acordo assinado com os EUA.

Foi nessa mesma época que a chamada "cortina de ferro" começou ser rasgada. Os países-satélites da URSS rejeitaram os governos socialistas que vigoravam na época. O Caso mais notório foi o da então República Democrática da Alemanha, mais conhecida como Alemanha Oriental, que era nada mais que a metade leste da então dividida Alemanha - a metade oeste era a República Federal da Alemanha ou Alemanha Ocidental

Os ventos da mudança vindos de Moscou permitiram que as duas metades fossem novamente um único país e foi feito de forma pacífica. O símbolo dessa reunificação, assim como da queda do chamado "socialismo real", foi a queda do Muro de Berlim. Com o fim da URSS, em 1991, a Guerra Fria - período de tensão entre os soviéticos e estadunidenses - terminou.

Foi lançado recentemente o documentário Meeting Gorbachev (literalmente Encontrando Gorbachov, mas ainda sem título em português), que retrata o homem e o período em que viveu. O filme é dirigido a quatro mãos pelo britânico André Singer (A Noite Cairá) e pelo alemão Werner Herzog (Fitzcarraldo), a quem todos esses acontecimentos tiveram grande impacto:

"Ele conseguiu a reunificação sem violência, sem derramamento de sangue. Noutros tempos, os tanques da União Soviética teriam invadido a Hungria, a Polônia, a Tchecoslováquia e a Alemanha Oriental. Incarnou uma nova maneira de lidar com os monumentais problemas históricos e políticos. As pessoas na Rússia e no Ocidente começam a perceber a importância deste homem, a magnitude das coisas que conseguiu"

Para Herzog, a atual demonização da Rússia pela mídia e políticos ocidentais é um erro:

"Não deveria haver uma nova Guerra Fria. Se consideram a Rússia um inimigo, falem com eles".

Meeting Gorbachev teve sua estreia comercial no último dia 3 de maio, nos EUA. Ainda não há previsão para seu lançamento no Brasil e demais países lusófonos.

Veja aqui o trailer oficial de Meeting Gorbachev (falado e legendado em inglês - HD):


Publicado no LinkedIn em 23/05/2019.

sábado, 4 de maio de 2019

Crítica: Se a Rua Beale Falasse | Realista, sincero e comovente



OSCAR 2019: venceu na categoria de melhor atriz coadjuvante.

Clementine "Tish" Rivers (Kiki Lane, da série Chicago Med: Atendimento de Emergência) e Alonso "Fonny" Hunt (Stephan James, da série Homecoming) conhecem e amam um ao outro desde a infância e, ao chegarem à idade adulta, tornam-se amantes e planejam ter uma vida juntos. Porém, Fonny é preso acusado de ter violentado a porto-riquenha Victoria Rogers (Emily Rios, de Vovó... Zona 3: tal pai, tal filho) e Tish, que está grávida, com a ajuda de sua família, principalmente da mãe, Sharon (Regina King, de Ray), tenta provar a inocência de seu amado e tirá-lo da cadeia. 

Se a Rua Beale Falasse é a adaptação para o cinema do romance de mesmo nome do escritor James Baldwin (1924-1987), autor que nos últimos anos vem sendo redescoberto tanto pelo público literário quanto pelo cinematográfico. Um exemplo é o documentário biográfico Eu Não Sou Seu Negro (2016), dirigido pelo cineasta haitiano Raoul Peck (de O Jovem Karl Marx. Veja a crítica aqui) e que concorreu ao Oscar da categoria.

Sendo negro, Baldwin  conseguiu destacar-se em um meio até então dominado por brancos tendo como temas o preconceito racial, pressões sociais e psicológicas, a miséria, a criminalidade, o homossexualismo e bissexualismo, e o movimento dos direitos civis, que estava em alta na década de 1960 e dava esperança em dias melhores para a comunidade afro-americana. O autor viveu várias dessas experiências na própria carne.

Tanto nas páginas quanto nas telas, Se a Rua Beale Falasse conta uma história de dor, retratando com duro realismo o cotidiano da comunidade negra e pobre dos bairros periféricos da grande metrópole que é Nova York, mas também é uma história de amor e esperança apesar de todo o sofrimento e a família - em particular a família negra - tem grande importância na manutenção dessa esperança e na vida de sobreviventes que também são resistentes.

O cineasta e roteirista Barry Jenkins surpreendeu o mundo, em 2017, quando o drama que dirigiu, Moonlight, conquistou o Oscar de melhor filme superando o favorito La La Land, tendo também conquistado os prêmios de melhor roteiro adaptado (de sua autoria) e melhor ator coadjuvante (para Mahershala Ali, da franquia Jogos Vorazes).

Em Se a Rua Beale Falasse, Jenkins confirma que os prêmios obtidos com Moonlight não foram por mero acaso. Seu trabalho na direção é esplêndido, no qual consegue demonstrar que mesmo em bairros pobres, mal cuidados, decadentes e violentos, há poesia - no que é ajudado pela fotografia de James Laxton (habitual colaborador do cineasta). 

E desse mesmo  modo  poético mostra toda a dor e todo o amor do relacionamento do casal central, seja quando Fonny e Tish encontram-se na prisão ou quando amam-se pela primeira vez (uma cena belíssima, muito bem filmada e interpretada).

É preciso também destacar uma cena marcante devido à sua força, intensidade e realismo: o diálogo entre Fonny e seu amigo Daniel (Brian Tyree Henry, de Hotel Artemis), que acabou de sair da cadeia, onde cumpriu uma pena de dois anos, sobre o que é ser negro nos EUA, um país que, na ótica de ambos, odeia negros, os brancos são vistos por eles como verdadeiros diabos e como essa guerra racial atinge o lado mais fraco, enviando-os para o inferno das prisões, mesmo que não tenham feito nada. 

Entretanto, Jenkins não teria obtido resultados tão bons se não tivesse trabalhado com um elenco tão competente e talentoso. Kiki Lane e Stephan James apresentam um timing tão bom que é difícil acreditar que não foram sequer indicados  para o Globo de Ouro e o Oscar. Raramente, um casal de um filme demonstrou um amor tão bonito e verdadeiro.

Kiki faz sua estreia no cinema (seus trabalhos anteriores foram um curta-metragem independente e um episódio da série Chicago Med: Atendimento de Emergência), mas atua como uma veterana tamanha desenvoltura, naturalidade e sensibilidade em sua performance. 

Stephan é mais experiente. Fez sua estreia em 2010 no telefilme Minha Babá é Uma Vampira. Sua estreia no cinema foi em 2012, no drama Home Again, para o qual foi nomeado para a categoria de melhor ator no Canadian Screen Awards, importante premiação local. Em 2019, no Globo de Ouro, obteve uma indicação ao prêmio de Melhor Ator em série de TV por Homecoming. Faz parte da nova e talentosa safra de atores afro-americanos que inclui nomes como Michael B. Jordan (franquia Creed) e Chadwick Boseman (Pantera Negra. Veja a crítica aqui). A continuar com essas ótimas atuações, para Stephan o céu é o limite.

Vencedora de três prêmios Emmy (o Oscar da TV estadunidense) pelas séries American Crime (em 2015 e 2016) e Seven Seconds (2018) e um Globo de Ouro neste ano, só faltava mesmo o Oscar para premiar o talento imenso de Regina King. Sua performance é sensível e forte ao mesmo tempo refletindo a personalidade de Sharon Rivers, mulher e mãe de família negra proletária, que deve desdobrar-se em várias para cuidar e ajudar a sua família. As mulheres e mães negras brasileiras vão identificarem-se com ela.

Se a Rua Beale Falasse também tem os seus coadjuvantes de luxo: Diego Luna (Rogue One - Uma História Star Wars. Veja a crítica aqui) como Pedrocito, o simpático garçom de um restaurante e amigo de Fonny, e David Franco (franquia Vizinhos), como Levy, um jovem judeu dono de um imóvel que Fonny e Tish pretendem alugar e que sabe muito bem o que significa preconceito. A presença destes dois bons atores ajuda a dar mais brilho à produção.

Se a Rua Beale Falasse é um filme realista ao mostrar as agruras da comunidade afro-americana que, apesar de algumas conquistas civis, políticas e sociais obtidas de algumas décadas para cá, continuam até hoje. É sincero ao mostrar o cotidiano dessa comunidade com tudo de bom e ruim que tem. E é comovente sem necessidade de apelar para o dramalhão e a pieguice para com as dores e assim como para os amores e por mostrar que a esperança ainda existe.

Gostaria de finalizar reproduzindo a definição que o próprio James Baldwin fez a respeito da rua Beale e que aparece no começo do filme (tradução livre feita por mim):

"A rua Beale é uma rua de Nova Orleans, onde meu pai, Louis Armstrong e o Jazz nasceram.

Toda pessoa negra nascida na América nasceu na rua Beale, na vizinhança negra de alguma cidade americana (...). A rua Beale é o nosso legado. Este romance trata da impossibilidade e possibilidade, a necessidade absoluta para dar expressão a este legado.

A rua Beale é uma rua barulhenta. É deixado ao leitor discernir o significado da batida dos tambores".



FICHA TÉCNICA

  • Título Original: If Beale Street Could Talk
  • Direção: Barry Jenkins
  • Elenco: Kiki Lane (Clementine "Tish" Rivers), Stephan James (Alonzo "Fonny" Hunt), Regina King (Sharon Rivers), Teyonah  Parris (Ernestine Rivers), Colman Domingo (Joseph Rivers), Michael Beach (Frank Hunt), Aunjanue Ellis (Sra. Hunt), Emily Rios (Victoria Rogers), Diego Luna (Pedrocito), Dave Franco (Levy), Finn Wittrock (Hayward)
  • RoteiroBarry Jenkins (baseado no livro de James Baldwin)
  • Fotografia: James Laxton
  • Duração: 117 minutos
  • Ano: 2018
  • Lançamento comercial no Brasil: 07/02/2019

RESUMO DO FILME

Fonny e Tish amam-se desde a infância. Fonny é acusado de estupro, preso e Tish, grávida e com a ajuda de sua mãe, tenta libertar seu amado da cadeia.


COTAÇÃO
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Veja aqui o trailer oficial de Se a Rua Beale Falasse (legendado - HD):



Publicado no LinkedIn e no AdoroCinema em 04/05/2019.

terça-feira, 30 de abril de 2019

ULTRAPASSAMOS A 70.000 VISUALIZAÇÕES!!!!


Que palavras posso dizer a todos vocês, amigos e amigas de Panorama do Cinema, que já não tenha dito por sua confiança neste modesto - mas, feito com muito amor - espaço sobre cinema? Apenas duas, mas que dizem tudo sobre este momento:

MUITO OBRIGADO!!!

Que tal uma taça de champagne para comemorar?


sexta-feira, 26 de abril de 2019

Crítica: Pantera Negra | O Poder Negro Afrofuturista


Atualizado em 13/06/2021

OSCAR 2019: venceu nas categorias melhor trilha sonora,  figurino e design de produção.

Como todos sabem, a década de 1960 foi uma época de grandes e decisivas mudanças no mundo. Dentre essas mudanças estava a igualdade de direitos civis aos negros nos EUA. Esse movimento tinha duas vertentes: uma, liderada pelo pastor batista e vencedor do Prêmio Nobel da Paz Martin Luther King (1929-1968), que, inspirado pela Bíblia Sagrada e pelas ideias do líder político e espiritual indiano Mahatma Gandhi (1869-1948), tinha como método de luta a não-violência e o amor ao próximo.

A outra vertente era liderada pelo líder muçulmano Al Hajj Malik Al-Shabazz, que passou à história como Malcolm X (1925-1965). Essa vertente criticava os métodos de Luther King - considerados passivos - e defendia a violência e o uso de armas como método de autodefesa, mas não de ataque.

O ano de 1966 foi particularmente agitado para o Movimento Negro. Foi nesse ano que Stockley Carmichael, um militante negro radical, ao ser preso pela 27ª vez, deu a seguinte declaração:

"Estamos gritando liberdade há seis anos. O que vamos começar a dizer agora é: Poder Negro".

Nesse mesmo ano, inspirado por Malcolm X e pelo maoísmo - vertente chinesa do comunismo baseada nas ideias do revolucionário Mao Tsé-Tung (1893-1976) - os ativistas Huey Newton e Bobby Seale fundaram o Partido dos Panteras Negras

Os Panteras Negras ficaram conhecidos pelos seus confrontos com a polícia (o diretor do FBI, o famoso John Edgar Hoover, chegou a dizer que os panteras eram "A maior ameaça à segurança interna do país"), mas também pelos seus programas sociais comunitários como, por exemplo, clínicas de saúde. Um de seus membros mais conhecidos era a ativista Angela Davis (1944- ) sobre quem há o interessante documentário Libertem Angela Davis (2012).

Os Panteras Negras tiveram seu auge no início da década de 1970, quando houve o julgamento de Angela Davis, e, depois, começou a declinar até o partido ser extinto em 1982. Em 1989, foi fundado o Novo Partido dos Panteras Negras para Autodefesa, que os antigos panteras chamam de "ilegítimo".

No mesmo ano de 1966, o escritor Stan Lee e o desenhista Jack Kirby criaram o super-herói negro Pantera Negra. Lee, até hoje, jura que a escolha do nome do personagem nada tinha a ver com o partido e que foi uma "estranha coincidência". 

Há aqueles que afirmam que a origem do nome teria sido por influência do maior futebolista português em todos os tempos, Eusébio (1942-2014), artilheiro e melhor jogador da Copa do Mundo de 1966, e que também era conhecido justamente pela alcunha de "O Pantera Negra".

O Pantera Negra não foi o primeiro super-herói negro. Já haviam aparecido personagens assim desde a década de 1940, mas sem superpoderes, sempre muito caricatos e nunca como protagonistas. O Rei de Wakanda inovava por ser radicalmente o oposto de seus antecessores.

Pantera Negra inicia contando a história do Reino de Wakanda, na África, onde, há milhares de anos atrás, caiu um meteorito repleto de vibranium, um metal duríssimo, durante uma guerra tribal. Ao final do conflito, todas as tribos, exceto uma, reconhecem o guerreiro chamado de Pantera Negra como seu rei.

O vibranium ajuda no grande desenvolvimento de Wakanda, que, devido às infindáveis guerras que ocorriam ao seu redor e ao modo como o povo negro era tratado pelas outras raças, isola-se do resto do planeta que pensa que o reino é um país pobre do Terceiro Mundo como tantos outros.

No século XX, em 1992, o rei T'Chaka (John Kani, de Coriolano) vai aos EUA encontrar-se com seu irmão, N'Jobu a quem acusa de ter vendido vibranium ao contrabandista de armas sul-africano Ulysses Klaue (Andy Serkis, da franquia Planeta dos Macacos). As acusações são confirmadas por um espião.

Após a morte de T'Chaka, seu filho, T'Challa (Chadwick Boseman, de Get On Up: A História de James Brown), torna-se o rei de Wakanda. Nesse meio tempo Klaue e Erik "Killmonger" Stevens (Michael B. Jordan, de Creed - Nascido Para Lutar), um ex-agente da CIA, roubam um artefato wakandiano de um museu e viajam para a Coréia do Sul para tentar vender o produto do roubo para Everett K. Ross (Martin Freeman, da série Sherlock), um agente da CIA. Klaue é preso por T'Challa, mas é libertado por Erik. Ross é gravemente ferido e T'Challa o leva para Wakanda para curá-lo.

T'Challa interroga Zuri (Forrest Whitaker, de Rogue One - Uma História Star Wars. Veja a crítica aqui), um antigo servo de seu pai, sobre N'Jobu. Zuri conta que N'Jobu planejava vender tecnologia de Wakanda para os afrodescendentes ao redor do mundo para iniciar uma guerra contra seus opressores. Erik aparece, revela ser o filho de N'Jobu, desafia e vence T'Challa pelo trono de Wakanda e torna-se o novo rei.  T'Challa deve retomar seu trono para evitar Erik de realizar o plano de seu pai.

Pantera Negra retoma com força o movimento do cinema totalmente produzido e interpretado por artistas negros iniciado na década de 1970, nos EUA, que ficou conhecido como Blaxploitation (sobre o qual Panorama do Cinema falará futuramente) e que o cinema francês já vem realizando já há algum tempo como pode ser visto em duas produções realizadas em 2017: Château-Paris (veja a crítica aqui) e Uma Temporada na França (veja aqui).

Pantera Negra difere-se desses filmes franceses pelo fato de ser uma superprodução de um personagem de histórias em quadrinhos (HQ), mas assemelha-se ao mesmos por conter críticas sociais e políticas  sobre como são vistas e tratadas as comunidades negras, africanas, afro-americanas e/ou afrodescendentes, o que inclui a onda de imigrantes-refugiados que vão para a Europa - e, em escala menor, os próprios EUA - em busca de salvação e de uma nova vida tal como pode ser visto no já citado Uma Temporada em Paris e, também, em outro filme francês, Samba (2015, veja aqui), estrelado pelo ator Omar Sy (Intocáveis).

Em um sentido mais amplo, o termo afro-americano também pode ser utilizado por comunidades negras de outros países do continente como, por exemplo, o Brasil, embora aqui sejam preferidos os termos afro-brasileiro, negro ou, ultimamente, preto.

É importante dizer que, de uns anos para cá, também vem ocorrendo o fenômeno de onda de imigrantes-refugiados em terras brasileiras - que, assim como nos EUA, ocorre em escala menor em relação a Europa. Esse fenômeno pode ser visto na Grande São Paulo, principalmente na capital e na região do ABCD; e, recentemente, no estado de Roraima com a chegada de refugiados vindos da Venezuela.

As críticas sociais e políticas feitas em Pantera Negra refletem os dias atuais, pois vão desde o racismo e a intolerância até o extremismo político, o que inclui a interferência dos EUA em assuntos internos de outras nações. Aliás, esse é um tipo de crítica cada vez mais comum em filmes estadunidenses e, particularmente e curiosamente, em filmes de super-heróis como, por exemplo, o mal compreendido Batman vs Superman: A Origem da Justiça (2016). Porém, o que mais chama atenção é o conflito dos dois tipos de ideologia que dividem o Poder Negro até hoje: a de Martin Luther King (representada por T'Challa) e a de Malcolm X (representada por Killmonger, mas de modo distorcido).

É impossível não notar a estética Afrofuturista de Pantera Negra. Para aqueles que não sabem, o Afrofuturismo é uma estética cultural e filosófica de ciência, história e arte surgida na década de 1990 (com raízes na década de 1950) que combina elementos de ficção-científica, ficção histórica, arte africana - que inclui a arte da diáspora africana -, Afrocentrismo (ideologia dedicada ao estudo da história africana) e realismo mágico com cosmologia não-ocidental. O Afrofuturismo está presente em todo filme como nos cenários, figurinos, veículos, nas histórias contadas, sem falar na maravilhosa trilha sonora composta pelo sueco Ludwig Goranson.

O cineasta Ryan Coogler é um dos nomes mais recentes da nova safra de diretores negros juntamente com seu amigo Steven Caple Jr. (Creed II). Coogler fez sua estreia na direção em 2013 com o filme independente Fruitvale Station: A Última Parada, que foi o grande vencedor do Festival de Sundance daquele ano tendo conquistado os prêmio de melhor filme do júri e do público. Essa produção também marcou sua primeira colaboração com Michael B. Jordan. 

Pantera Negra é apenas o terceiro trabalho de Coogler, mas parece ser o trigésimo, pela segurança demonstrada tanto nas cenas de ação quanto na direção de elenco. Sua direção faz o filme fluir tão bem que nem parece que tem mais de duas horas de duração. Pelo que demonstra até aqui, Coogler tem tudo para ser um dos grandes cineastas dos próximos anos.

A fotografia de Rachel Morrison (Mudbound - Lágrimas Sobre o Mississipi) mostra a África não como um local de miséria e violência, como é normalmente visto pelo Ocidente, mas como um lugar belíssimo, de flora e fauna exuberantes, de cultura rica e fascinante.

Uma das grandes sacadas de Pantera Negra é o sotaque "wakandiano" (que acaba por se perder na dublagem em português) de vários personagens que lembra muito o de países africanos de língua inglesa tais como Gana, Nigéria, Quênia e África do Sul, o que contribuiu para que o filme tivesse grande aceitação no continente.

Porém, Pantera Negra não teria tido tanto sucesso se não fosse pelo seu competentíssimo elenco.

De minha parte, não consigo ver outro ator que não Chadwick Boseman para o papel-título, que lhe coube como uma luva. Sua interpretação passa todas as características que se espera desse tipo de personagem: bondoso, forte, nobre, generoso, inteligente e bem humorado.

Michael B. Jordan mostra porque é considerado um ator-sensação em Hollywood. Com a mesma convicção que fez de Adonis Creed um grande herói, faz de "Killmonger" um grande vilão. O Oscar será uma questão de tempo para este grande intérprete.

Nakia mostra que está à altura de T'Challa tanto como noiva quanto como companheira de lutas. Sem dominação ou submissão. Desde a sua vitória no Oscar de melhor atriz coadjuvante por 12 Anos de Escravidão (2013), Lupita Nyong'o não para de fazer sucesso com direito, inclusive, de participar da saga Star Wars - que terá seu próximo episódio lançado no final de 2019. O céu é o limite para ela.

Angela Bassett, Forrest Whitaker, Martin Freeman e Andy Serkis são os chamados coadjuvantes de luxo, que acrescentam experiência e brilho à produção, sendo que Serkis mostra que não é apenas um intérpretes de personagens virtuais tais como Golum (sagas O Senhor dos Anéis e O Hobbit) e Capitão Haddock (As Aventuras de Tintim: O Segredo do Licorne). Seu talento supera essas limitações.

Para mim, uma coadjuvante que destaca-se em Pantera Negra é Letitia Wright (Jogador Nº 1), que faz da sua personagem, Shuri, uma versão feminina, afro e adolescente (embora a atriz esteja atualmente com 25 anos) do armeiro do serviço secreto britânico da franquia James Bond 007,  Q (interpretado primeiro pelo saudoso Desmond Llewelyn e, atualmente, por Ben Wishaw). Além disso, ela é uma simpatia!

Na recente cerimônia do Oscar, Pantera Negra foi indicado a sete prêmios, incluindo o de melhor filme (perdeu para Green Book: O Guia), um feito inédito para um filme de super-heróis, e conquistou três (cuja relação está no início do texto). Sempre há aqueles que contestam a premiação de cinema mais famosa do mundo, mas, ainda assim e independente da quantia de prêmios conquistadas, foram vitórias justas.

Pantera Negra é um daqueles filmes que marca uma época. E nesta era das trevas que vivemos atualmente - com ascenção de governos de extrema-direita, preconceitos raciais e de gênero, e intolerância religiosa - torna-se um filme importante pela transmissão de valores bons, nobres e tolerantes, que estão cada vez mais raros em uma sociedade que torna-se mais materialista e fascista a cada dia que passa. É também um filme que transmite esperança, um sentimento que nunca devemos deixar de ter. E tudo isso vai muito além da cor da pele.

ESTE TEXTO É RESPEITOSAMENTE DEDICADO ÀS MEMÓRIAS DA VEREADORA MARIELLE FRANCO (1979-2018), DO JOVEM PEDRO HENRIQUE GONZAGA (2000-2019) E DO ATOR CHADWICK BOSEMAN (1977-2020)

FICHA TÉCNICA
  • Título Original: Black Panther
  • Direção: Ryan Coogler
  • Elenco: Chadwick Boseman (T'Challa / Pantera Negra), Michael B. Jordan (N'Jadaka / Erik "Killmonger" Stevens), Lupita Nyong'o (Nakia), Letitia Wright (Shuri), Martin Freeman (Everett K. Ross), Angela Bassett (Ramonda), Forrest Whitaker (Zuri), Andy Serkis (Ulysses Klaue), Danai Gurira (Okoye)
  • RoteiroJoe Robert Cole, Ryan Coogler
  • Música: Ludwig Goranson
  • Fotografia: Rachel Morrison
  • Duração: 134 minutos
  • Ano: 2018
  • Lançamento comercial no Brasil: 15/02/2018

          RESUMO DO FILME

Após a morte do rei T'Chaka, seu filho, o príncipe T'Challa, o sucede como soberano de Wakanda. Paralelamente, um traficante de armas e gangster estrangeiro rouba um precioso minério do país ao mesmo tempo que um ex-agente da CIA quer vingar-se de T'Challa.
 
COTAÇÃO
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Veja aqui o trailer oficial de Pantera Negra (legendado - HD):


Publicado no AdoroCinema em 26/04/2019 e no LinkedIn em 13/06/2021.

quinta-feira, 14 de março de 2019

Luto por Suzano | Quando a vida imita a realidade



Panorama do Cinema envia seus pêsames aos familiares e amigos das vítimas do massacre da Escola Estadual Raul Brasil na cidade de Suzano, SP, Brasil.

A tragédia de Suzano é um triste reflexo desta era das trevas pela qual o Brasil passa atualmente, com a "filosofia" de resolver assuntos de qualquer tipo na bala. Também reflete a triste tendência mundial de assassinatos em massa nas escolas, sejam públicas ou particulares.

Em 2002, o polêmico e genial documentarista estadunidense Michael Moore já havia alertado seu país e o mundo sobre o culto às armas em nossa sociedade no documentário Tiros em Columbine. 

Neste filme, vencedor do Oscar de melhor documentário, mostra-se a facilidade de compra de armas nos EUA, país que tem uma legislação flexível desse tipo de comércio e como isso está relacionado ao célebre - e de triste memória - massacre na escola Columbine High School, localizada na cidade de mesmo nome nos EUA onde, em 1999, dois jovens na faixa de 18 anos de idade e armados até os dentes, invadiram o lugar, mataram 13 pessoas, feriram outras 21 e, em seguida, suicidaram-se.

Mais do que a vida que imita a arte, é um caso que, aqui, a vida imita a realidade. Desde o massacre de Columbine, esse tipo de ocorrência multiplicou-se ao redor do mundo e, infelizmente, chegou ao Brasil.

O atual "governo" de Jair Bolsonaro quer flexibilizar o porte de armas no Brasil com a desculpa de aumentar a segurança da população. Mas, é um argumento que não se sustenta pois, se com a legislação atual já ocorre esse tipo de desgraça, imaginem como será quando a lei for flexibilizada!

Panorama do Cinema opõe-se radicalmente a essa flexibilização e sugere à sociedade brasileira organizar-se e manifestar-se contra ela. Precisamos de leis para diminuir a violência e não aumentá-la.

Veja abaixo, na íntegra o documentário Tiros em Columbine (dublado):


ESTE TEXTO É RESPEITOSAMENTE DEDICADO ÀS VÍTIMAS DO MASSACRE DA ESCOLA ESTADUAL RAUL BRASIL EM SUZANO, SP, BRASIL.

#ForaBolsonaro
#BolsonaroOut


Publicado no LinkedIn em 14/03/2019.

sábado, 26 de janeiro de 2019

Crítica: Vice | O poder do quieto



OSCAR 2019: venceu na categoria de melhor maquiagem e cabelo.

Dick Chaney (Christian Bale, de Batman, o Cavaleiro das Trevas) é um típico sulista interiorano do estado de Wyoming, EUA: passa a maior parte de seu tempo bebendo, brigando e metendo-se em confusões, mesmo sendo um tipo calado, e tem um emprego modesto. Uma noite, sua esposa, Lynne (Amy Adams, de O Homem de Aço), após tirá-lo novamente da cadeia, dá-lhe um ultimato: ou endireita-se ou ela vai embora. Dick promete endireitar-se. Ele forma-se na universidade, vai para a capital estadunidense, Washington D. C., e lá conhece Donald Rumsfeld (Steve Carell, de Agente 86), político do conservador Partido Republicano, começa a trabalhar para ele e, assim, inicia sua própria carreira na política. 

Anos depois, quando já é um político conhecido e um próspero empresário, é convidado pelo então candidato presidencial, George W. Bush (Sam Rockwell, de Três Anúncios Para Um Crime), para ser o vice-presidente de sua chapa. Dick, a princípio, recusa, mas depois aceita o convite, em um decisão que irá mudar sua vida e a história dos EUA e do mundo.

Em 2012, a consultora de negócios e escritora Susan Cain, publicou um livro de auto-ajuda - mais um entre tantos outros, mas que fez sucesso em um mercado hipersaturado - intitulado O Poder dos Quietos: Como os tímidos e introvertidos podem mudar um mundo que não para de falar (título original Quiet: The power of introverts in a world that can't stop speaking), no qual, ao contrário do que muitas pessoas crêem, pessoas reservadas, tímidas e/ou introvertidas são pessoas altamente capazes e competentes em seus afazeres, profissões e relacionamentos sociais apesar de suas características pessoais ou, como a autora afirma categoricamente, graças a elas.

No prefácio da obra, escrito pelo tambem escritor e administrador de empresas Max Gehriger, há um trecho que diz:

"O introvertido e uma pessoa sensível que sente-se confortável tendo a si mesmo como companhia. Ele quer entender o que passa-se ao seu redor, mas não sente a necessidade de alardear seus pontos de vista. Entre um filósofo em causa própria e um alienado social, ele encaixa-se perfeitamente na primeira definição, mas a arbitrariedade das convenções tende a empurra-lo para a segunda. Porque, ao buscar líderes em seus quadros, a maioria das empresas parece confundir liderança com autopromoção e exuberância. O introvertido sabe que dificilmente será o general que sai brandindo a espada a frente de suas tropas, mas tem tudo para ser o estrategista cujo plano garantirá a vitória na batalha". 

Este trecho combina a perfeição com o provérbio que aparece nos primeiros minutos de Vice e que é fundamental para a compreensão da película: 

"Cuidado com o homem quieto. Enquanto os outros falam, ele observa. Enquanto os outros agem, ele planeja. E quando os outros finalmente descansam, ele ataca". 

Vice não é o primeiro filme a tratar do governo de George W. Bush. Anteriormente houve o filme W. (2008), do cineasta Oliver Stone (Snowden: Herói ou Traidor?), com Josh Brolin (Vingadores - Guerra Infinita) à frente do elenco. Também há o documentário Fahrenheit 11 de Setembro (2004), do polêmico e genial diretor e documentarista Michael Moore, vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes.

A diferença está na ênfase dada a uma personagem tida como secundária - tanto nos filmes de Stone e Moore quanto na vida real. Dick Chaney concentrou em suas mãos um poder enorme que nenhum outro vice-presidente estadunidense teve antes nem depois dele.

Vice mostra o estilo Chaney de fazer política: cerebral, calculista, paciente, sem chamar a atenção até agir nos momentos certos e com precisão, fiel ao seu estilo quieto, reservado e introvertido. Um estilo que faz seus supostos superiores - primeiro Rumsfeld e depois Bush - serem meros peões em seu intrincado jogo de xadrez sem parecerem e sem ninguém perceber que são!

Na recente premiação do Globo de Ouro, Vice concorreu na categoria "comédia ou musical". Não acho a definição correta. Embora tenha vários momentos de humor, o filme, definitivamente, não é uma comédia. Na verdade, é um filme de difícil classificação: um drama biográfico em estilo de documentário (com narrador incluso) com tons humorísticos.

Ao assistir Vice, constantemente lembrava-me dos já citados Oliver Stone e, principalmente, Michael Moore. Mas, o diretor Adam McKay (A Grande Aposta), também autor do roteiro, não fez um pastiche desses cineastas, longe disso. McKay realizou um trabalho de direção extremamente criativo, inventivo, irônico e provocativo. Esse trabalho valeu-lhe justas indicações de melhor diretor no Globo de Ouro e no Oscar, além de uma indicação de melhor roteiro original neste último e no Bafta (o Oscar britânico).

Christian Bale engordou 40 kg para encarnar Dick Chaney. Conseguiu quebrar o recorde de Robert De Niro, que engordou 25 kg para interpretar o boxeador Jake La Motta, já decadente, no filme Touro Indomável (1980). 

Sua interpretação do ex-vice-presidente estadunidense é esplêndida. Bale consegue reproduzir com perfeição Dick Chaney em todas as suas contradições: o falso bonachão conservador sempre na dele, mas de olhos e ouvidos atentos, que usa métodos legais, ilegais e maquiavélicos para atingir seus fins. Ama sua família, mas não hesita em machucar os sentimentos da filha lésbica, Mary (Alison Pill, de Meia-noite em Paris), para auxiliar a filha mais velha, Lizzie (Lily Rabe, da série American Horror Story), que inicia sua própria carreira política.

O "desabafo" de Dick Cheney quase ao final do filme é o ponto alto da performance de Bale em Vice. Sua fala mistura cinismo com sinceridade - ele acredita piamente no que diz - e soa tão arrogante e convincente que tem todas as chances de ser daquelas cenas para entrar para a história do cinema. O Oscar deste ano tem candidatos fortíssimos ao prêmio de melhor ator, mas, para mim, Bale (que já ganhou o Globo de Ouro deste ano) ainda tem um ligeiro favoritismo.

A interpretação de Lynne Chaney por Amy Adams também mostra as contradições da segunda-dama dos EUA: uma típica mulher sulista caseira, mas de personalidade forte e tão gananciosa e maquiavélica quanto o marido. Amy está ótima no papel, mas acho difícil tirar o prêmio de melhor atriz de Glenn Close em A Esposa (veja a crítica aqui). Porém, se tirar, não será de todo injusto.

Steve Carell está seguindo o mesmo caminho trilhado por Tom Hanks (Apolo 13): transformando-se de comediante em ator sério, mas sem perder o humor. O seu Donald Rumsfeld é o anti-Chaney: arrogante, exibido, barulhento e nada discreto, em uma atuação muito boa. A continuar assim, o Oscar será uma questão de tempo.

Sam Rockwell já tem a sua estatueta e tem todas as chances de conseguir mais uma com sua interpretação de George W. Bush, o ex-bêbado bronco que nada mais é que uma marionete manipulada por Dick Chaney a seu bel-prazer.

E não podemos esquecer Jesse Plemons (Aliança do Crime), muito bom em seu papel como Kurt, que narra a toda a história e representa a classe trabalhadora estadunidense que sofre diretamente as consequências do governo Chaney, isto é, Bush, e tem uma ligação surpreendente com o vice-presidente.

Assim como nos documentários de Michael Moore, Vice também mostra as falcatruas da administração Bush - e de Chaney, em particular - além da manipulação da opinião pública pela imprensa conservadora, principalmente o canal Fox News, símbolo dessa imprensa e dessa administração. Impagável é a cena, também no final, no qual um há um debate em grupo sobre o "viés liberal" do filme e a discussão entre dois debatedores, sendo um deles eleitor do atual e infame presidente dos EUA, Donald Trump.

Vice é um filme ousado, que cutuca feridas ainda não totalmente cicatrizadas e incomoda, por isso corre o risco de ser esnobado na cerimônia do Oscar que se aproxima. Porém, é daqueles filmes que, mesmo daqui a 100 anos, ainda continuará atual, pois sua premissa sobre "gurus" de presidentes da república não é, e nem nunca será, mera coincidência. Especialmente se for do tipo quieto...


FICHA TÉCNICA
  • Título Original: Vice
  • Direção: Adam McKay
  • Elenco: Christian Bale (Dick Cheney), Amy Adams (Lynne Chaney), Steve Carell (Donald Rumsfeld), Sam Rockwell (George W. Bush), Alison Pill (Mary Cheney), Lily Rabe (Liz Chaney), Jesse Plemons (Kurt, o narrador)
  • RoteiroAdam McKay
  • Fotografia: Greig Fraser
  • Duração: 132 minutos
  • Ano: 2018
  • Lançamento comercial no Brasil: 31/01/2019

RESUMO DO FILME
A trajetória de Dick Cheney que, de um bêbado brigão, tornou-se o mais poderoso vice-presidente da história dos EUA e como sua visão e decisões políticas afetaram o mundo durante o governo do presidente George W. Bush.

COTAÇÃO
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Veja aqui o trailer oficial de Vice (legendado - HD):


Publicado no LinkedIn em 30/01/2019 e no AdoroCinema em 31/01/2019.